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B/ Sélection quantitative

O processo de expansão urbana das grandes metrópoles tem sido no mundo inteiro, uma das principais causas da ocupação e degradação das áreas de mananciais, e vem ocorrendo com maior intensidade nas metrópoles localizadas nos países em desenvolvimento.

Essa rápida expansão urbana está relacionada ao diferenciado nível de desenvolvimento econômico e demográfico, e pela crescente industrialização e urbanização dos países em desenvolvimento. Ela é responsável pelo aumento cada vez maior da demanda urbana, seja industrial ou domiciliar, por água tratada oriunda dos mananciais, que antes ficavam em áreas rurais, e agora passam a ser inseridos dentro da nova malha urbana.

Contudo, vem ocorrendo um grande aumento da demanda urbana por água tratada, principalmente nas áreas periféricas das grandes metrópoles. São essas mesmas metrópoles, as responsáveis pelo aumento da poluição e a degradação dos seus mananciais, agora urbanos, visto que, o rápido crescimento urbano não é acompanhado pela implementação de obras urbanísticas e sanitárias voltadas à proteção e conservação dos seus mananciais.

Essa situação de elevado crescimento urbano, sem um crescimento correspondente das ações de caráter urbanísticas e sanitárias em algumas metrópoles, como a implantação de rede de coleta e tratamento de esgotos sanitários, canalização de rios e córregos, e a preservação da mata ciliar, só tem agravado os impactos produzidos no ciclo hidrológico.

Um dos principais impactos produzidos no ciclo hidrológico é a rápida taxa de urbanização, com inúmeros efeitos diretos e indiretos. Essa urbanização tem grandes conseqüências, alterando substancialmente a drenagem e produzindo problemas à saúde humana, além de impactos como enchentes, deslizamentos e desastres provocados pelo desequilíbrio no escoamento das águas (TUNDISI, 2003, p. 41).

Durante o século XIX e a primeira metade do século XX, algumas metrópoles européias e norte-americanas, que vivenciaram um grande crescimento urbano e industrial, experimentaram uma nova situação em relação aos seus recursos hídricos superficiais, o da poluição decorrente do grande número de efluentes industriais e residenciais que eram despejados in natura nos rios que as banhavam.

Segundo Marcondes (1999) essa poluição hídrica, foi verificada em grandes cidades européias como: Londres no Rio Tamisa; Paris no Rio Sena; Lyon no Rio Ródano; Nuremberg no Rio Pegnitz; e Roma no Rio Tibre. E também em cidades norte-americanas como: Nova York, Los Angeles e Denver, que devido à poluição dos seus mananciais, foram

obrigadas a importar água em reservatórios localizados em áreas mais distantes. A autora também destaca as cidades de Chicago (EUA) e Cidade do México (México) como as que atingiram situações mais críticas de impactos nos mananciais hídricos, decorrente do processo de urbanização.

A escassez de água, a contaminação dos mananciais e as enchentes representam as maiores ameaças à saúde e à segurança, em virtude da maneira como são estabelecidos os processos de apropriação dos recursos ambientais, em especial os oriundos das formas de urbanização inadequada vigentes. (MARCONDES, 1999, p. 61).

No Brasil o caso da Região Metropolitana de São Paulo – RMSP reflete bem essa situação. Desde 2001, grande parte da população atendida pelos mananciais da região já conhece o racionamento de água. Nesse ano, desde agosto, a SABESP vem monitorando o nível d’ água nas represas, que vem diminuindo a cada dia e procura alertar a população da necessidade do uso racional da água, através do combate ao desperdício.

Em 26/08/2003 tanto o Sistema Cantareira, que abastece 51% da população da região, como o Sistema Guarapiranga, que fornece água para 21% estavam com níveis baixos. O primeiro estava com 20,5%, e o segundo, com 34,2%. No ano passado, a situação era muito mais cômoda: O Sistema Cantareira tinha 45,2% de capacidade no dia 28 de agosto, enquanto a Guarapiranga, 36,6%.

Já em 07/10/2003, os técnicos da SABESP afirmam que começa no dia 15 o racionamento de água na região metropolitana de São Paulo. De início, o rodízio seria no Sistema Alto Cotia que hoje chegou ao nível mais baixo da história com 8%. O racionamento deve atingir 300 mil pessoas da cidade de Cotia, Itapecerica da Serra, Vargem Grande Paulista, Embu Guaçu e parte do Embu. Há uma semana o nível do reservatório era de 11,2%. Por ter apenas uma represa, capaz de produzir 1,3 mil litros de água por segundo, historicamente impõe rodízios à região.

Na represa de Guarapiranga o nível da água caiu de 26% para 23,6%. Na região de Campinas, onde não chove forte há 120 dias, pelo menos seis cidades enfrentam racionamento. (GLOBO, 2003, não paginado).

Para Marcondes (1999) a degradação paulatina dos recursos hídricos já escassos na Região Metropolitana de São Paulo, está relacionada aos processos de urbanização da metrópole, que ocorrem de forma extensiva e periférica, levando a um comprometimento do uso do solo nas bacias contribuintes.

Na Região Metropolitana do Recife, a poluição hídrica causada pelo crescimento urbano desordenado, tem causado sérios danos ambientais. Os principais rios que cortam Recife – Jaboatão, Beberibe, Capibaribe e Tejipió – estão praticamente mortos. A “Veneza brasileira” é cortada por 66 canais e todos estão poluídos. Para garantir o abastecimento, a cidade tem que buscar água cada vez mais longe. Há anos Recife já enfrenta um grave racionamento. Em 1998, nos meses mais secos (agosto e setembro), para cada um dia de abastecimento normal a população da região metropolitana teve que conviver com dois dias sem água. Os seis reservatórios que atendem Recife estão 40% abaixo de sua capacidade. “Se não tivéssemos começado a tomar providências, em 2005 teríamos um colapso de falta de água no Grande Recife”, explica o geólogo Waldir Duarte Costa, professor da Universidade Federal de Pernambuco (ISTO É, 2003, não paginado).

Fatos reportados como este em 1998, pela Revista Isto É, sobre a situação da Região Metropolitana do Recife, mostram as enormes dificuldades que a população vem enfrentando em relação à escassez de água, que tem como causa, não só a estiagem, mas o uso desordenado dos recursos hídricos e o aumento da poluição hídrica diante da crescente expansão urbana e industrial, sem a adoção de medidas de controle sanitário e ambiental.

Nas cidades que compõem a Região Metropolitana de Belém (Belém, Ananindeua, Marituba, Benevides e Santa Bárbara), a imprensa também já vem noticiando a constante interrupção na distribuição de água tratada em alguns bairros e conjuntos habitacionais, ocasionando vários transtornos e reclamações da população, bem como das próprias prefeituras municipais, junto à Companhia de Saneamento do Pará (COSANPA).

[...] Segundo o Censo 2000 do IBGE, a população de Belém está estimada em 1.281.000 habitantes. Os dados do SAAEB dizem que 960 mil habitantes são abastecidos pela rede de distribuição da COSANPA e 137 mil pelo SAAEB. Um total de 184 mil habitantes não é atendido por qualquer serviço de abastecimento de água. Os números da COSANPA são diferentes. Técnicos afirmam que, hoje, mais 65% da população da Região Metropolitana de Belém abastecida. Benevides e Santa Bárbara possuem sistemas autônomos.

A precariedade no sistema de distribuição está prejudicando a população de bairros como: Jurunas, Condor, Guamá, Batista Campos, Marco, Telégrafo, Sacramenta, Estrada Nova, Canudos, Terra Firme e outros que integram áreas consideradas de expansão, a exemplo dos bairros do Guanabara, Castanheira, Jaderlândia e Coqueiro. O conjunto Guajará e os distritos de Icoaraci, Mosqueiro e Outeiro também sofrem com a deficiência na distribuição de água ou com a ausência de rede de distribuição. A população da Cidade Nova também está prejudicada. (O LIBERAL, 2003, p. 11).

Se o problema da precariedade do abastecimento de água na RMB não é decorrente da estiagem, resta-nos então verificarmos como a expansão da metrópole vem contribuindo para ocupação urbana da área dos mananciais do Utinga, através do entendimento das diferentes formas de apropriação, bem como, do processo de degradação ambiental verificado nas microbaciais hidrográficas dos Igarapés do Murutucum e Água Preta.