Perante a riqueza de diversidades intrínseca aos campos do Pampa, as formas de produção sustentável praticadas necessitam de ampla divulgação. Com manejo adequado, o uso pecuário pode ser altamente produtivo e manter a integridade dos ecossistemas campestres e demais serviços ambientais. Como cita Bilenca et al., (2009), se aceitarmos que vastas áreas originalmente naturais do Pampa já foram transformadas em sistemas
domesticados, devemos, então, discutir acerca de opções que contamos hoje, de tal modo que
as transformações das paisagens e ecossistemas resultem em bem-estar humano e no equilíbrio com o seu meio.
Deste modo, citam-se esforços como a Alianza del Pastizal, a qual propõe a utilização de um selo na carne, cujo processo de produção contribui para a conservação dos campos nativos e sua biodiversidade (Figura 11).
Figura 11 - Área de abrangência da Alianza del Pastizal25. O selo das Carnes del Pastizal, associado ao logo da Alianza del Pastizal, permite aos consumidores identificar e selecionar um produto produzido de forma alinhada a conservação do meio ambiente, que preserva importantes superfícies de campos naturais em seu local de origem, onde se encontram espécies típicas dos campos, e ainda espécies silvestres de plantas e animais cuja sobrevivência está ameaçada de extinção. Cabe destacar o símbolo da Alianza, motivo principal que originou o projeto, a proteção das aves do Pampa.
Fonte: Alianza del Pastizal
A iniciativa nasceu através do BirdLife International, em 2004, com os seus parceiros na América do Sul: Aves Argentinas, Aves Uruguay, Save Brasil e Guyra Paraguay, quando observaram a perda de biodiversidade de aves que o Pampa apresentava. Ao total, a região é o habitat de 540 espécies de aves silvestres, das quais 12 se encontram ameaçadas de extinção.
Segundo a Alianza, seus esforços são voltados para que a atividade pecuária em campo natural se converta em algo rentável e ao mesmo tempo se desenvolva de forma sustentável, favorecendo a conservação das pastagens com sistemas adequados de manejo; a agricultura e a florestação sejam realizadas de maneira responsável, com cuidadoso tratamento dos solos e água, prudente manejo de agroquímicos, e permitindo a existência de suficientes áreas para a
25 A Alianza del Pastizal é um projeto mantido através de doações de órgão como AAGE V. JENSENS FONDE;
US Fish & Wildlife Service; Serviço Florestal dos EUA; Governo do Canadá; Banco Mundial e, Banco Interamericano de Desenvolvimento. Mais informações sobre a Alianza del Pastizal podem ser acessadas em: http://www.alianzadelpastizal.org
vida silvestre nativa dos campos; o crescimento urbano ocorra de forma planejada, garantindo a conservação dos campos; as Áreas Protegidas oficialmente reconhecidas incluam ao menos 10% dos campos nativos de cada país em sua esfera legal; e, onde a cultura tradicional dos Pampas tenha um espaço de valor na nossa sociedade.
Destaca-se, aqui, os cinco critérios obrigatórios para se obter a certificação, segundo a
Alianza:
(i) Propriedade rural em condição legal e administrativa de acordo com os requisitos de seu município, estado ou país, sob cumprimento de procedimentos, registros, resoluções e normas nacionais vigentes, com o devido plano sanitário da fazenda respaldado por um profissional e o regime trabalhista dos empregados em regra;
(ii) Adesão nominal do titular do estabelecimento à Visão e Missão da Alianza del Pastizal; (iii) Acesso livre dos animais a fontes de água e sombra suficientes;
(iv) Alimentação à base de pasto com um limite de tolerância de até 30% de concentrados, ou o equivalente – na dieta do animal – a 1% do peso vivo, em ausência total de alimentação em confinamento;
(v) Ao menos 50% da superfície total da propriedade com cobertura de campo nativo.
O potencial de espécies de plantas, em sua maioria herbácea, faz do Pampa um patrimônio genético notável. As plantas nativas com valor forrageiro permitem o desenvolvimento de uma pecuária ecológica, baseada na conservação do campo nativo, ao contrário de outros sistemas baseados na produção com espécies forrageiras exóticas e dependentes de insumos. Desse modo, quando bem manejados, os campos podem ser conservados e assegurarem o desenvolvimento econômico e a competitividade frente a outras alternativas.
Na mesma linha da Alianza está a Associação dos Produtores do Pampa da Campanha Meridional (APROPAMPA). Trata-se de uma entidade sem fins lucrativos, de caráter cultural, social e de pesquisa formados por produtores rurais, indústria frigorífica, varejo e outros agentes ligados direta ou indiretamente à cadeia da bovinocultura de corte na região da Campanha, no Rio Grande do Sul.
Em 2006, obtiveram junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial o reconhecimento da Indicação de Procedência26, “Pampa Gaúcho da Campanha Meridional”
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A Indicação de Procedência é uma modalidade de Indicação Geográfica, estabelecida na Lei de Propriedade Industrial no 9.279/1996, que protege a relação entre o produto e sua reputação em função de sua origem geográfica específica, neste caso a Campanha Meridional do Pampa Gaúcho. Funciona como uma certificação, na qual os produtores da APROPAMPA têm o direito exclusivo de rotular seus produtos com a indicação de procedência, e com isso obter uma diferenciação qualificada junto ao consumidor.
para a carne produzida dentro de regramentos específicos de produção, dentre eles: abate até os 36 meses, criação em pastagem nativa, ausência de suplementação e confinamento na alimentação. Além disso, os animais devem ser puros das raças Angus ou Hereford ou resultantes do cruzamento entre elas, com rastreabilidade desde o nascimento.
Mais recentemente, pode-se destacar o Projeto de Conservação da Biodiversidade do
Pampa. Projeto ambiental lançado pelo governo do Rio Grande do Sul, destinado para a
conservação dos campos nativos do Pampa gaúcho, através do acesso a uma linha de crédito de longo prazo, no total de 5,2 milhões do BRDE – Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, para incremento da produtividade pelo adequado manejo das pastagens, associado a uma valorização diferencial dos produtos.
É importante destacar, como mencionam Pedreira et al. (2013) quando se compara os custos de produção da alimentação de rebanhos em pastagens com sistemas que utilizam animais confinados e grãos na dieta, a pastagem aparece como a fonte mais econômica para a alimentação de ruminantes.
Além disso, estudo publicado por Nabinger e Jacques (2017) tem demonstrado que a produção pecuária sobre campo nativo bem manejado pode ser muito mais produtiva e economicamente viável do que se imaginava. Inclusive, mantendo os serviços ecossistêmicos dos campos (figura 12).
Figura 12 - A figura sintetiza os resultados de experimentos sobre campo nativo, apresentando os resultados em ordem crescente de intensificação do uso de tecnologias de processos que não envolvem o uso de insumos e de tecnologias de insumos.
Fonte: adaptado de Nabinger e Jacques (2017).
Outro aspecto que tem valorizado a produção pecuária em campo nativo é a qualidade da carne. Segundo Nabinger e Jacques (2017) ela torna-se mais rica em ácidos graxos do tipo Ômega 327, bem como à presença de outros compostos responsáveis pelo aroma e sabor.
Cabe destacar ainda outras formas de aproveitamento econômico mais sustentável do Pampa, as quais podem ser apontadas como alternativas para o seu desenvolvimento econômico, como o turismo rural e ecológico, a utilização de espécies ornamentais e
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O ômega 3 é um tipo de gordura poli-insaturada essencial à saúde humana, que não é produzida pelo organismo, e por isso tem que ser obtida em alimentos ou suplementos específicos. Alguns peixes, vegetais e frutas já são fontes conhecidas dessa substância.
medicinais, o artesanato em lã de ovelha, a riqueza presente nos butiazais. São formas de valorizar a cultura local, os saberes tradicionais, promover o desenvolvimento sustentável sem esgotar os recursos naturais presentes no Pampa. Esta riqueza e condição singular representa uma grande oportunidade para o desenvolvimento sustentável do território, mas que, infelizmente, não tem sido devidamente reconhecida e valorizada.
2.5. UM PAMPA DE FRONTEIRAS: ENTRE CONCEITOS E DEMARCAÇÕES AO