A primeira fase das oficinas, a que se refere a pré-produção, foi determinada pela análise da narrativa contida em diferentes filmes, pela discussão sobre a linguagem audiovisual e sua importância no contexto social da contemporaneidade e pela construção de novos significados frente a uma temática sugerida. O ponto principal desta fase formativa era provocar a discussão sobre os diferentes conteúdos propagados nas produções cinematográficas que faziam parte do universo dos jovens. Variados filmes e narrativas audiovisuais foram sugeridos como mola condutora para a discussão em grupo. Além da familiarização com a linguagem e construção da narrativa audiovisual, esta etapa permitiu uma diversidade de olhares acerca de um mesmo tema. Nessa pluralidade de ideias, construía-se a identidade de um grupo que pertencia a um mesmo contexto social e partilhava de anseios semelhantes. A percepção de uma unidade grupal estimulou os participantes a construírem uma narrativa que os identificasse e os
diferenciasse. Mobilizados pelo desejo de contarem a sua própria história, o grupo passou a selecionar diversos textos que pudessem embasá-los para a construção de um argumento e posterior produção de um curtametragem. Foi sugerido, por um dos participantes, o texto “As Cidades e o Nome” de Ítalo Calvino. Após discussão e interpretação do texto, o grupo construiu um argumento audiovisual que os definia. Este argumento preliminar deu origem ao roteiro “IRENE”.
A segunda fase da intervenção refere-se às oficinas de vídeo e construção da narrativa audiovisual do curta-metragem “IRENE”. Durante este ciclo, foram ministradas aulas de vídeo onde os participantes puderam se familiarizar com os conceitos referen- tes à captação de imagens, enquadramento, planos, iluminação, som e edição. Além dos encontros nos quais o grupo, sob minha
385
386
orientação, buscava pela comunidade imagens para a concep- ção do vídeo “IRENE”, foram realizados alguns master classes com a participação de convidados nas áreas da dramaturgia brasileira, composição musical, operação audiovisual e mídiae- ducação. O principal objetivo desta fase era instrumentalizar os estudantes tecnicamente e fundamentá-los para a construção de uma narrativa audiovisual original e própria.
Um dos convidados presentes foi o ator brasileiro Vinicius de Oliveira (Central do Brasil, 1998). Sua participação junto ao grupo teve como objetivo estimular a discussão sobre a dramatização que envolve a construção de uma narrativa audiovisual, mas também provocar a reflexão sobre o contexto sociocultural vivido pelo grupo na comunidade Santa Marta, cuja população é composta, em sua maioria, por famílias cuja origem está no êxodo urbano.
O filme, dirigido por Walter Salles, mostra a vida das pessoas que migram pelo território brasileiro em busca de novas opor- tunidades de trabalho ou para encontrar parentes deixados para trás em busca de um sonho. Por ocasião da produção do filme, Vinícius de Oliveira, então com 12/13 anos de idade, interpretou Josué, um menino de nove anos que, ao perder a mãe subitamente, se vê forçado a morar numa estação de trem e tem em Dora (interpretada pela atriz Fernanda Montenegro), a única forma de voltar para o nordeste brasileiro em busca de seu pai. Esta realidade, contada no filme, é comum no cotidiano do grupo e foi discutida durante a visita do ator à comunidade, provocando ampla reflexão sobre a construção social da reali- dade em que eles vivem. Além disso, os aspectos técnicos da produção de um longa-metragem e concepção de um persona- gem foram refletidos, embasando o grupo para a concepção do vídeo “IRENE”.
Com relação à técnica que envolve a captação de imagens (movimento e funções da câmera, ângulo, planos e enqua- dramentos) o grupo contou com a participação do cinegrafista Anderson Soares, também morador da comunidade e tio de um dos participantes do Núcleo de Mídia Santa Marta. Sua colabo- ração durante os encontros formativos permitiu não apenas a instrumentação e conceituação técnica do processo de capta- ção e produção de imagens, mas também consentiu ao grupo conhecer o trabalho de um profissional com o qual eles podiam se identificar. A participação do cinegrafista foi fundamental na produção do curta-metragem, já que ele foi o principal respon- sável por manusear a câmera durante a produção do vídeo. A trilha sonora do curta-metragem ficou a encargo e orientação
do compositor André Lamounier. Além de conceber a músi- ca que embalou o vídeo, o compositor foi o responsável por construir, junto aos participantes, uma identidade musical que os representasse. Foram realizados vários encontros através dos quais diferentes ritmos e expressões sonoras puderam ser apreciadas, dando ao músico, a possibilidade de incorporar em sua obra a diversidade sonora que caracterizava o grupo: samba, ritmos religiosos (africanos e evangélicos), música popular brasileira e música clássica foram os principais gêneros percebidos durante os encontros. Todos esses gêneros foram sutilmente incorporados à concepção da trilha sonora. A per- formance musical durante a gravação do vídeo “IRENE” contou também com a participação dos integrantes do Bloco Carnava- lesco Spanta Neném (Comunidade Santa Marta) e do Mestre de bateria Jeferson de Castro.
No âmbito da reflexão sobre o uso do filme como objeto de estudo e mediação do conhecimento, o grupo recebeu a vista do professor italiano Dr. Pier Cesare Rivoltella, da Universidade Católica de Milão. Sendo um dos pesquisadores europeus que mais tem se dedicado ao estudo sobre Mídia- Educação, suas investigações situam-se em um cenário de ação transdisciplinar. Suas pesquisas envolvendo o campo da Comunicação e Educação ancoram-se a partir das dimensões crítica, instrumental e produtiva da aprendizagem. Perspectivas educativas que fundamentaram a metodologia utilizada durante esta intervenção pedagógica na Comunidade Santa Marta. A presença do professor Rivoltella na comunidade, em diálogo com o grupo, foi fundamental para ampliar a discussão sobre a construção de significados, o dia a dia em comunidade e, principalmente, o uso do vídeo em sua perspectiva midiaeducativa.
Em uma oficina prática de vídeo, na qual os estudantes atuaram como ajudantes de câmera, o professor Rivoltella concedeu, ao Núcleo de Mídia Santa Marta, uma breve entrevista acerca das dimensões educativas do aprender com, sobre e através da mídia. A reflexão, estendida para uma “roda de conversa” entre o pesquisador e os estudantes, deu ao grupo a oportunidade de pensar sobre o conteúdo propagado nos meios de comunicação de massa, os diferentes pontos de vista com os quais se constrói uma realidade social e a ressignificação das informações acessadas.