• Aucun résultat trouvé

2. Détermination des structures cristallines des matériaux

2.1. Reconstruction des structures cristallines des matériaux

Como abordado nos capítulos anteriores, o ginásio é considerado um espaço / prática onde desenvolve-se uma espécie de tecnologia do si, envolvendo o ser em suas diversas identidades sociais. Corresponde a uma área comercial de prestação de serviços relacionados à saúde e também ao entretenimento, sendo portanto associada às práticas de tempo livre e lazer. Para compreendermos o contexto destas práticas e sua situação singular nos ginásios, é preciso uma breve conceituação sobre o lazer.

Rojek (2010) apresenta uma perspectiva crítica acerca da teoria do lazer que vigorou entre 1960 até 1970, na qual o lazer tomava parte do tempo de não-trabalho – considerado como tempo livre – durante o qual o trabalhador usufruía da maneira que lhe apetecesse. Esta teoria, segundo o autor, por relatar uma teoria demasiado harmoniosa da sociedade, ignorava os efeitos da globalização, da conversão do lazer em um comportamento de consumo, etc.

O lazer era portanto marcado pela liberdade, vontade e auto-determinação como características intrínsecas a sua definição. A perspectiva crítica de Rojek (2010) apresenta uma versão do lazer que leva em consideração as transformações do mundo do trabalho e da economia moderna. O surgimento da sociedade industrial cria a idéia de lazer como uma recompensa pelo trabalho, como Rojek (2011) destaca; entretanto o comportamento em tempo livre dos trabalhadores passa a ser também regido pela mesma lógica de acumulação da margem de lucro e do desenvolvimento de uma competitividade individualista:

This is a very strange idea of ‘freedom’ and comes with an even more peculiar idea of what ‘leisure’ means. In effect, ‘free’ choice and non-work activity is held to be inter-laced with principles of fitness to work and responsible citizenship. You can do whatever you like in your non-work time, providing that it affirms your competence as a trustworthy worker and a credible citizen. (Rojek, 2011, p. 2)

O estudo dos comportamentos no tempo livre passa a ser na verdade sobre o tempo em que as pessoas acreditam ser livres; as atividades de não - trabalho, que marcam o cotidiano urbano do também influenciadas por diversos fatores. Para Rojek (2011), a noção de liberdade individual e escolha estão profundamente enraizadas no pensamento Ocidental; relembra entretanto que, apesar de se poder sempre escolher, as escolhas são contextualizadas a partir do lócus social do agente e sua distância da escassez de recursos econômicos, culturais, políticos e sociais.

Assim, o lazer é também regido pela mesma lógica estrutural das classes, já que estas influenciam duas outras características determinantes para a experiência do lazer: a saúde e a expectativa de vida. Rojek (2011) aponta que, se nos países desenvolvidos, a expectativa de vida pode chegar aos 80 anos (Canadá, França e Austrália, por exemplo), nos países do continente Africado e da Ásia este número pode ficar abaixo dos 50 anos.

Tendo em vista estas características, em termos macroeconômicos os países desenvolvidos também apresentam como ponto chave de sua economia a prestação de serviços: no Reino Unido, por exemplo, 70% do produto interno bruto depende deste setor. (Rojek, 2011). Assim, em lugares onde o desenvolvimento econômico é associado à prestação de serviços especializados, uma certa competência cultural (“people skills”), dependente de trabalho emocional necessita de ser desenvolvida em toda e qualquer oportunidade, nomeadamente no período de lazer:

Over and above the institutionalized and thightly organized regulations of the work-place, leisure is where we get the people knowledge and coaching skills that enable us to be recognized as competent, credible and relevant actors in the plethora of social, cultural and economic situations that we encounter. (Rojek, 2011, p. 3)

Tal perspectiva se assenta na condição humana enquanto seres emocionais, cujas habilidades emocionais também são treinadas como técnicas; dependem assim de contextos de prática e aprendizagem específicos. Desta maneira, a possibilidade de

investimento e o trabalho emocional define-se também pela lógica de escassez anunciada acima:

This is somewhat disguised in everyday life, because leisure cultures tipically focus upon surplus; that is, leisure forms and practice are organized around surplus time, surplus wealth and conspicuous consumption. However, surplus is a relative concept. No matter how abundant their access to surplus time and wealth, every individual and group is located in a context of scarcity. (Rojek, 2011, p. 19)

Compreende-se portanto como, no caso dos ginásios, o surplus também pode referir a quantia de energia fisiológica e psíquica que o indivíduo pode dispor (ou investir), bem como a qualidade da mesma, que dependerá por sua vez dos capitais corporais e culturais associados.

Assim, segundo a perspectiva de Rojek (2011), as linhas tradicionais que dividiam trabalho e lazer são borradas; se outrora a dimensão do trabalho coincidia de maneira indireta à estrutura e a dimensão do lazer correspondia ao domínio da agência, nos dias de hoje estas categorias tornaram-se mais versáteis.

Cockerham (2005) já apontava a partir de estudos anteriores que este modelo também apresentava padrões semelhantes nos discursos socio-médicos sobre estilos de vida, que atribuíam maior agencialidade sobre os indivíduos em detrimento das contingências estruturais inerentes à realidade social. Entretanto também observou como muitos estudos que consideravam as categorias estruturais como classe e gênero moldavam as escolhas pessoais relacionadas à dieta e questões relacionadas à saúde.

A necessidade de uma teoria de estilos de vida que conjugue agência e estrutura de uma maneira mais real e integrada é apontada por Cockerham (2005) como ainda inexistente nesta década. E este é um período em que a saúde é agora concebida como algo a ser conquistado, algo pelo qual se trabalha, suplantando a visão anterior em que se considerava a saúde como dado adquirido, e de certa

maneira, pré definido. Entretanto, as progressivas transformações sociais que tiveram início desde o início do século XXI: como a mudança dos padrões de doenças agudas para crônicas (levando à maior maior responsabilização do indivíduo sobre as escolhas relacionadas a sua saúde); uma nova modernidade em que a difusão do conhecimento médico na sociedade permitiu ao paciente maior protagonismo em relação ao médico no processo de tratamento e cura (o que acompanha de certa maneira a tendência de desconfiança institucional); novas definições sobre o locus da identidade social, antes dominado pela profissão e a classe social a que dá acesso passando para os hábitos de consumo de cada estilo de vida que passam a fazer parte de uma narrativa particular de auto identificação. (Cockerham, 2005). O autor propõe um paradigma que pode orientar a concepção de uma teoria de estilos de vida saudável; apresenta-se esta proposta no quadro seguinte:

Fig 5: Cockerham, 2005 (p. 57)

Neste quadro, situamos este estudo especificamente na prática do exercício de modo lato, e na especificidade de suas técnicas.

Atualmente os ginásios se apresentam como o espaço especializado para a prática e desenvolvimento destas técnicas, além das competências emocionais associadas à socialização em ambientes menos formais do que o ambiente de trabalho (o que permite aprofundar outros laços pessoais), o exercício da ginástica implica um investimento de tempo e energia, produzindo um capital corporal específico em performance e na apresentação de si.

E é neste recorte espaço-temporal (do espaço do ginásio e na prática da ginástica) que os utentes do ginásio vão adquirir as competências culturais e a inteligência emocional que os habilitará a amealhar prestígio social enquanto “trabalhadores de valor e cidadãos credíveis”.

Assim, nada mais emblemático do que a expressão inglesa “to work out” para referir esta forma de exercício. Indicia que o trabalho do corpo reside nesta intersecção, onde o investimento de tempo e energia é visto como uma forma de capitalização destas mesmas forças. Vale lembrar que a percepção do tempo no período de surgimento destas práticas, regeu-se também por uma ética puritana, em que é preciso ocupar-se e combater o ócio a todos os instantes. (Courtine, 1995).

Como já abordado no capítulo 2.1, o desenvolvimento destas práticas (ginástica e musculação), que se deu Estados Unidos e influenciou o resto do mundo, foi influenciado no século XIX por uma amálgama de fatores em intersecção com o puritanismo americano, culminando em uma ideologia que congrega disciplina e hedonismo e que ainda marcam fortemente estas práticas nos ginásios modernos.

A própria expansão dos ideais democráticos e da igualdade levou a uma valorização do ideal de perfectibilidade humana através do trabalho individual; deste cenário surgem uma série de ´reformadores da saúde´17 que trazem subjacente a

17- Aqui, figuram ao lado dos defensores do vegetarianismo, vendedores de tônicos milagrosos, terapias balneares, etc. Um dos grandes nomes deste período foi o Dr. Jonh Harvey Kellogg que junto com seu

noção da relação entre moral e saúde - com um forte acento religioso e alguma negação da instituição médica tradicional, voltando-se para buscas alternativas de cura. (Courtine, 1995).

Nota-se entretanto que à semelhança do desenvolvimento de panóplias corretoras na Europa (onde o princípio era o controle negativo do corpo para prevenir- lhe estimulações em excesso, consideradas nocivas) que estas práticas também atuavam como uma forma de cura, como aponta Vigarello (1995). Com o tempo, e sob influência do puritanismo, a noção de auto-governo positivo como estimulação das energias pela atividade corporal começou a despontar e a ganhar espaço.

Assim a imagem da masculinidade associada à potência muscular começa a substituir o velho ideal de homem byroniano, magro, pálido e lânguido; a partir da década de 1840 a influência da ginástica calistênica com pesos e halteres entre os imigrantes alemães, bem como os esportes e grupos de ginástica sueca ganham popularidade. Entretanto, os benefícios do exercício físico eram indicados também às mulheres, sendo que em 1850 tornam-se parte do sistema escolar norte-americano (Courtine, 1995).

A Young Men´s Christian Associantion (YMCA) incorporou esta perspectiva de maneira emblemática, compreendendo que a regeneração espiritual e moral do país dependeria de mudar o estilo de vida: no pensamento puritano, cuidar da saúde do corpo correspondia a uma obrigação moral. Isto também significou uma adequação do discurso religioso face às novas formas científicas de compreender o corpo como uma entidade ativa, dinâmica, moldável: a possibilidade de intervir e condicioná-lo teria impactos na saúde (Courtine, 1995).

A noção religiosa colocou a possibilidade de salvação pelo sacrifício e pela conduta correta; a crença no mercado apontou a possibilidade de construir o futuro

irmão criou os cereais de milho conhecidos mundialmente, além de um centro sanatório em Battle creek (Estados Unidos) onde aplicava suas teorias. O filme satírico The road to Wellville, com Anthony Hopkins no papel do dr. Kellogg, faz um bom retrato deste episódio.

pelo trabalho duro. Esta será a base moral e psicológica que doou significado ao músculo como emblema destes valores:

[…] o exercício físico passa a ser um lazer às margens do tempo de trabalho e um trabalho instalado no coração do tempo de lazer. Ninguém ficaria mais sem fazer nada. Lutar contra o tempo morto, a vacuidade, a desocupação: esses prolongamentos da ética puritana da “tarefa” marcaram profundamente o desenvolvimento de uma civilização americana do lazer, tendendo a nela confundir o dever e o prazer, o útil e o agradável. (Courtine, 1995, p. 94)

Já na segunda metade do século XIX, a indústria dos aparelhos de ginástica começa a crescer e mesmo a entrar no domínio privado das casas, pertencendo definitivamente à esta intersecção espacial e temporal entre o trabalho e lazer.

Esta ideologia do esforço - no pain, no gain - tão impregnada nos primórdios destas práticas e que esteve presente durante todo o século, começará a somar-se a uma visão mais próxima do hedonismo moderno, onde o usufruto de si será marcado também pelo crescente tempo livre originado pela mecanização do trabalho. As duas ideologias manterão esta dicotomia simbiótica através dos tempos.

Outro termo difundido no avançar da década de 1990 e já mencionado é o

work out, cuja tradução aproximada seria treinar, exercitar. A fusão de sentidos

implícita no work out- de modo estrutural e ideológico - remete para a dinâmica fabril como um sítio em que a passagem do tempo é pormenorizada aos segundos de trabalho e repouso, e onde tudo deve ser otimizado (havendo entretanto, como veremos mais adiante, diversas estratégias e usufrutos paralelos deste espaço de práticas, legitimados de maneira específica).

A especialização crescente da ginástica, levou à profissionalização e ao amadurecimento deste mercado, levando também a um desenvolvimento de competências comerciais específicas. As inúmeras estratégias de manutenção incluem o entretenimento da clientela (promoções, festas temáticas, etc), e diversificação das práticas ginásticas, que surgirão como táticas de manutenção da clientela dos ginásios.

O desafio atual é manter o interesse dos sócios mesmo diante da inevitabilidade da rotina e da repetição inerentes ao treinamento.

Vejamos em detalhes como este trajeto aconteceu em um recorte histórico.

A ginástica na modernidade: do surgimento do Estado-nação aos movimentos ginásticos

A ginástica enquanto conceito moderno (cuja etimologia remonta a raiz grega

gymnos, em alusão ao corpo nu, condição em que se realizavam os exercícios no gymnasium, o espaço destinado ao aprimoramento físico e intelectual) surge no século

XVIII influenciada grandemente pelo Iluminismo e posteriormente pela revolução industrial, mas consolida-se no século XIX com a formação dos estados nacionais, resultante da militarização crescente dos países e do higienismo adotado como medida para controle e sanitarização dos centros urbanos (Betti, 1991).

Porém, a ideia de agir sobre o corpo no intuito de corrigi-lo tem raízes históricas mais profundas, utilizando-se aparelhos de correção postural como espartilhos, tutores, etc. No século XVII, o crescimento das práticas cirúrgicas leva a difusão de meios correctivos:

O novo pensamento mecanicista emprega sua fecundidade sobre um corpo transformado ele próprio em máquina. O arsenal terapêutico expande-se bruscamente com engenhos que, apesar de suas concepções rudes e primitivas, visam endireitar. Foi preciso banalizar o espaço corporal e generalizar o mecanicismo para que tais proposições pudessem surgir. Nesse caso, as rodas, as lâminas e as alavancas que corrigem são percebidas como de natureza idêntica às próprias partes corrigidas. (Vigarello, 1995, p.22)

A compreensão mecânica do corpo e sua sujeição às mesmas leis físicas, permitiu que a noção de “endireitar” – que fundamenta a especialidade ortopédica –

orientasse uma infinidade de aparelhos para o tratamento de luxações, redução de fracturas e alinhamentos vertebrais. (Vigarello, 1995)

Porém, a percepção do que deve ser corrigido se coloca dentro de uma perspectiva bem mais abrangente do que os acidentes ósseos; as deformações passam também a ser prevenidas por meio destes instrumentos:

Fig. 6 Aparelhos de correção corporal. (Vigarello, 1995)

Este arsenal de mecanismos e aparelhos orientam pacientemente, pela sua rígida presença, o alinhamento desejado para aquela parte corporal.

Percebe-se porém que a ideia de agir sobre o corpo a partir de suas próprias forças – uma técnica corporal – constitui uma agência de natureza diferente, reflexiva. O corpo agente e objeto da ação, a noção de correção dos corpos e o aumento de sua capacidade, sumarizam portanto a possibilidade de corrigir-se ou construir-se em oposição à simples aceitação da sorte que a natureza nos provê à nascença. Assim, do corpo passivo e passível de ser moldado por uma correção exterior, transforma-se

no corpo ativo estimulado a exercitar suas próprias forças para corrigir a si mesmo. Eis aqui a importância da disciplina como técnica ou tecnologia de si (Foucault, 1982).

Se antes os aparelhos constringiam o movimento, endireitando as partes, orientando como devem se mover, os novos aparelhos passam agora a guiar-se pelo que o corpo é capaz de fazer; há uma transição para sistemas de cordas e roldanas que originam os primeiros aparelhos de ginástica a consolidarem-se em um espaço destinado para tal, no século XIX. Claro que boa parte das ginásticas também se constituem por exercícios calisténicos, realizados com o próprio peso corporal.

Fig 7: Gentleman Gym, do final do século XIX. Acesso em: http:// www.dailymail.co.uk/femail/article- 2350131/Wooden-treadmills-torture-chamber-fat-wobblers-1920s-exercise-equipment-revealed- glory.html

Fig 8: Não há descrição sobre a funcionalidade do aparelho, mas acredito que seja um tonificador ou massageador abdominal. Acesso em: http://www.sitedecuriosidades.com/curiosidade/os-primeiros- aparelhos-de-ginastica.html

Fig 10 – Passadeiras de madeira em 1920. Figuras XII e XIII disponíveis em:

http://www.dailymail.co.uk/femail/article-2350131/Wooden-treadmills-torture-chamber-fat-wobblers- 1920s-exercise-equipment-revealed-glory.html

A transição para o otimismo e aceitação da promoção de saúde pelo exercício contou com a influência de uma vertente pedagógica naturalista (defendida em seus primórdios por Rousseau e Pestalozzi) e por movimentos filantrópicos - destacando-se a YMCA e o escotismo de Baden Powell – onde a concepção da promoção da saúde pelo exercício alia-se a uma forte conotação moral de formação do carácter (Betti, 1991).

Destaca-se ainda na filosofia a necessidade de estruturar um corpo de conhecimento que procedesse a uma verdadeira educação física, reconhecendo-se em Jonh Locke um dos precursores do uso moderno desta expressão nos escritos sobre o entendimento humano e a necessidade de uma educação física que acompanharia

uma educação moral, reabilitando o ideal da Grécia clássico de Juvenal, mens sana in

corpore sano. (Sérgio, 2003).

Neste momento, cada estado passa a enxergar a importância de engendrar grandes mudanças estruturais: instituir uma educação pública, gratuíta e obrigatória, de carácter estatal e nacional; bem como uma laicização mais demarcada. É um período de marcada primazia da razão, em que o corpo é enxergado predominantemente em sua dimensão fisiológica, compreendendo a expansão dos conhecimentos médicos pela biologia.

Entretanto, a partir de 1871, as tensões no continente Europeu tornam-se mais acirradas na demarcação das fronteiras territoriais, levando em 1914 à Primeira Grande Guerra. Neste cenário, com a crescente industrialização, urbanização e militarização, a questão da formação dos cidadãos e dos soldados passam pela constituição de um “homem forte” e saudável. Desta maneira, surgem algumas iniciativas em alguns países para a constituição de um método de ensino e ginástica eficaz, que cumpra estes objectivos. Dá-se o período dos movimentos ginásticos, marcados pelo militarismo e pelo nacionalismo, na Alemanha, Dinamarca, Suécia e França. (Betti, 1991)

Estes métodos, baseando-se em uma concepção biologicista de homem, propagam uma ideologia eugênica aplicada ao melhoramento da “raça” em cada país: o desenvolvimento de um país soberano e desenvolvido ligava-se directamente com o fortalecimento físico e moral do seu povo. Pode-se assim naturalizar as próprias diferenças étnicas, justificando superioridade ou inferioridade, ou mesmo entre as classes sociais.

Um outro factor de grande importância para a expansão dos métodos ginásticos é o higienismo propagado pelos crescentes males advindos dos processos de urbanização e aumento demográfico consequente, em descompasso com a devida estrutura sanitária das cidades. Desta forma, o estado compreende, através da

autoridade científica da classe médica, a importância da educação sanitária e social na organização do crescente aglomerado populacional; e pela classe militar, através da autoridade técnica, se estabelecem os métodos para educar e moldar a saúde e a moral do povo. Aqui, é incontornável a análise de Foucault (2008) sobre esta questão, cunhando pelo conceito de biopoder o mecanismo desta microfísica política que sujeitará as massas populacionais, pela arquitectura dos grandes espaços, a processos de subjetivação disciplinar e moral, como já comentado no capítulo 2

Enquanto isso na Inglaterra, devido a um certo isolamento geográfico enquanto território insular e pela protecção de sua forte marinha, os britânicos gozaram de alguma paz relativa que permitiu que seus métodos ginásticos seguissem um outro rumo de desenvolvimento: surge o sport (Betti, 1991) - ou desporto como passa a ser conhecido em Portugal.

O desporto (uma alusão às atividades que se fazem fora dos portões das cidades) resguarda enquanto fenómeno uma certa autonomia em relação à ginástica, com características distintas. A história da ginástica andará por muito tempo de mãos dadas com o desporto, distinguindo-se muito posteriormente em termos ideológicos. Em linhas gerais, pode-se separar as práticas pelo componente agonístico (a