sédiments de l’étang de Berre
3. RÉSULTATS ET DISCUSSION
As comunidades rurais mais valorizadas para a construção de casas de campo são aquelas próximas às bordas da serra, com destaque para as seguintes: Umarizeiro, Barro Branco, Buraco de Lagoa, Chã do Espinheiro, Cabeço, Santa Rita, Baixa Verde e Mar Vermelho. No mapa a seguir as figuras em amarelo representam essas comunidades rurais que dispõem de uma maior quantidade de segundas residências.
Figura 13 - Mapa da área rural de Lagoa Nova.
Fonte: IBGE: Malhas municipais, Rio Grande do Norte 2010; IMPE: Mapas Municipais do Rio Grande do Norte. Adaptado por Tadeu Filemon.
Para facilitar nosso entendimento, dividimos as segundas residências em três núcleos. O primeiro núcleo compreende as casas de campo localizadas na comunidade “Santa Rita”. Essas foram às primeiras edificações construídas para tal finalidade e apresentam maior visibilidade. Estão localizadas a cerca de 3 km da sede do município, nas proximidades da Pousada Chalés dos Cajueiros. Lá encontramos dois condomínios rurais, “Paraíso Serrano” e o “Condomínio Portal da Serra”, como também aproximadamente 120 casas de campo individuais. Foi nessa região onde se observou o primeiro boom imobiliário do município e, atualmente, grande parte dos “nativos” da comunidade já venderam terrenos para as “pessoas de fora”.
Um fato curioso é que as pessoas que residem na comunidade tratam o espaço como área rural. Os “nativos”, com os quais conversamos, afirmaram morar no Sítio Santa Rita, fato também confirmado por usuários de casas de campo, que quando questionados afirmavam que sua segunda residência é localizada na zona rural, no “Sítio Santa Rita”. Nossa surpresa ficou por conta dos dados da prefeitura municipal, que nos informou que área é considerada perímetro urbano, pertencente ao Bairro Jesus Menino, pela lei 441/2012. Logo, teoricamente, não é considerado como ambiente rural, mesmo apresentando traços e características rurais.
O que está em jogo nesse contexto são questões políticas, pois sabemos que os critérios utilizados para demarcar um território urbano ou rural são definidos pelos municípios a partir da aprovação de leis na câmara dos vereadores e, essas escolhas são feitas muitas vezes por meio de relações e interesses políticos. Para os fins da presente pesquisa, continuaremos tratando como área rural, já que é assim que os usuários da localidade reconhecem (moradores locais e usuários de segundas residências).
O segundo núcleo inclui um grupo mais recente de imóveis para segundas residências. Como no primeiro, pertencentes às camadas médias urbanas com edificações de alto padrão projetadas a serem em geral térreas, amplas, algumas ambientadas, de estilo particular, que se destacam e fogem do padrão das construções locais e compreendem a faixa de terra das comunidades Umarizeiro, Barro Branco, Chã do Espinheiro, Mar Vermelho e Cabeço.
Outra configuração de segunda residência é o tipo construído nas mediações dos sítios Baixa Verde e Figueira. Esse núcleo se diferencia dos dois outros já citados pelo perfil socioeconômico e o estilo arquitetônico dos imóveis. São sujeitos historicamente ligados ao campo, que residem na cidade de Lagoa Nova e que, com o passar dos anos, emergiram economicamente, possibilitando reformar ou construir uma “casa de sítio” para usufruir de lazer neste espaço com os familiares e amigos durante o “tempo livre” (finais de semanas e feriados).
Alguns interlocutores acreditam que a vinda das “pessoas de fora” para o município influenciou na escolha por esse tipo de lazer, já que está se tornando hábito da população local de maior poder aquisitivo construir uma casa de campo. Em geral, esse público é composto por funcionários públicos e comerciantes, que muitas vezes já dispunha do terreno e construíram a casa com uma estrutura de lazer.
As pessoas da cidade, comerciantes e funcionários públicos também adquiriram casa de campo. Posso citar um exemplo aqui, de mais de uma pessoa que conseguiu um terreno e construiu uma casa de campo boa: com piscina, churrasqueira e por aí se vai, para lazer. Veja que influencia os hábitos das pessoas da cidade (Paulo Vandi Costa, secretário de agricultura municipal, agosto de 2015).
Uma das famílias que residem na cidade de Lagoa Nova e possui uma chácara destinada a atividades e encontros de lazer é a família “Assunção”. Para Alice, a Chácara Altino Assunção (in memória do seu pai) é um espaço de lazer destinado ao convívio dos familiares e amigos. Já que a cidade é pequena e não apresenta uma estrutura de lazer para população, foi viável para família transformar o espaço do antigo sítio, antes utilizado apenas para fins agrícolas, em uma área recreativa, na qual é possível desenvolver atividades esportivas (natação, futebol, trilhas), além de visitas aos mirantes que ficam no entorno da chácara e, principalmente, tecer rodas de conversas.
Na verdade, o sítio era de herança da minha família paterna, desde sempre nos pertenceu. Porém, com a situação precária de tempos anteriores, existia apenas uma casinha de taipa e o mesmo tinha finalidade apenas de trabalho pro meu pai, que sempre foi agricultor. Contudo, no decorrer dos anos a situação financeira melhorou um pouco e aos poucos fomos construindo novas instalações. Iniciando pelo grande sonho que era uma casa maior, daí em diante foram surgindo novos sonhos, novas ideias, e sempre contando com a união de todos os filhos, esses desejos lentamente foram se tornando realidade. Hoje contamos com uma casa, dois chalés, uma piscina, uma área para encontros e festas, uma casa de taipa, além do nosso cartão postal, que é um pé de umbuzeiro gigante, acredito que seja o maior umbuzeiro da região e um dos maiores do mundo. Então, nós construímos uma chácara pra poder reunir a família todos os finais de semana, feriados e em datas comemorativas. Apenas pelo prazer e a alegria de poder estarmos juntos (Alice, dezembro de 2015).
Para Alice, a chácara é mais que um espaço de lazer, é parte de um projeto familiar que empreendeu bastante esforço por parte do núcleo familiar. Mais que essas relações práticas e recreativas, aquele é um lugar cheio de bons sentimentos e sensações. Ela guarda as recordações felizes da infância, as lembranças agradáveis do pai que sempre trabalhou no sítio e o espaço lembra sua presença, como ela mesma define: “pra mim não tem lugar melhor pra se estar no mundo que nossa chácara”.
Observamos que os objetivos de Alice e seus familiares não diferem muito em essência dos objetivos dos usuários de segunda residência que vêm de outras cidades. Essas pessoas buscam gozar da companhia dos entes queridos e desenvolver atividades de lazer no espaço de sua casa, com algumas ressalvas, já que não encontramos na fala de Alice a ideia de fugir do caos urbano, busca por tranquilidade, ou clima. Os sujeitos da cidade que possuem chácaras querem apenas um espaço para desenvolver suas atividades de lazer.