A Businessweek é uma tradicional revista de negócios surgida apenas algumas semanas depois da Grande Quebra de 1929, o crash mais devastador na história do mercado de ações dos Estados Unidos, seguido por 12 anos de depressão econômica. Em 2010, outra crise econômica levou à mudança de título para Bloomberg Businessweek, com a aquisição da revista pela agência de notícias financeiras de Michael Bloomberg.
Em 2011, a publicação investiu em uma edição digital para iPad, com a adição do plus em seu título. O plus se tornou o grande diferencial entre as várias publicações que estavam disponíveis para o dispositivo. Além do conteúdo da edição impressa, atualizado toda semana, o aplicativo Bloomberg Businessweek+ trazia também conteúdo exclusivo e recursos interativos para tornar mais atraente a experiência de leitura no tablet.
Figuras 19 e 20 - Em uma única tela, o Bloomberg Businessweek+ guarda características de diversas
plataformas (impresso, web e app), tornando um produto do Modelo Híbrido. Fonte: Capturas de tela/out. 2013
Visualmente, há características que demarcam o Modelo Híbrido: os textos seguem o formato contínuo dos websites a partir do deslizamento para baixo (scroll); estão presentes abas que permitem navegar pelas editorias, assim como os menus superiores; mas a tipografia e a diagramação remetem ao impresso e algumas funcionalidades, presentes nos dispositivos móveis, também são identificadas a partir de ícones presentes nas laterais das telas. Isto é, há elementos de três plataformas convergindo numa única visualização de tela.
1.5.3 Modelo Autóctone
A terminologia autóctone serve para identificar os produtos paradigmáticos surgidos no contexto dos tablets, cuja característica é atribuída aos aplicativos originalmente desenhados para o dispositivo, bem como criados e editados por equipes próprias, explorando novas práticas de produção, dinâmicas de consumo e modelos de negócio específicos9.
O potencial dos produtos autóctones está nas
9 O termo surgiu durante uma das reuniões de trabalho do Laboratório de Jornalismo Convergente, na Faculdade
de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, em maio de 2012, e sua paternidade é atribuída ao pesquisador Marcos Palacios (BARBOSA; FIRMINO e NOGUEIRA, 2013).
novas formas de roteirização para as produções jornalísticas, nos recursos empregados para a constituição de narrativas originais, na busca por explorar uma maior integração entre os formatos utilizados, no desenvolvimento da hipertextualidade, da multimidialidade – não meramente justaposta, mas integrada –, da interatividade e, ainda, da tactilidade (BARBOSA, 2013, p. 45)
Ou seja, há o esforço para o desenvolvimento de uma gramática própria, além da simples transposição. De acordo com Nozal, González-Neira e Sanjuán (2014, p. 395), a elaboração de um produto específico facilita a incorporação de peças informativas em profundidade, como reportagens, entrevistas ou crônicas, em contraposição às informações factuais que respondem apenas aos tradicionais questionamentos do lide (quem, o quê, quando, onde e por quê). Os autores remetem ao termo slow-information, de forma a incorporar a corrente cultural slow (movimento lento), surgida a partir dos anos 2000, em alguns produtos jornalísticos daquele mesmo período.
Os produtos vespertinos10 são exemplos do Modelo Autóctone, mas não podem ser confundidos como únicos exemplos. O canadense La Presse+, apesar de não ser vespertino, adota a lógica de complementação do conteúdo de seus outros produtos como parte de uma narrativa transmidiática. Lida com o alto grau de experimentação, com a possibilidade de explorar com mais dedicação o potencial multimídiatico do dispositivo, outra característica típica dos produtos presentes nesse modelo.
1.5.3.1 La Repubblica Sera
O La Repubblica Sera é o produto vespertino do jornal italiano La Repubblica, do Gruppo Editoriale L’Espresso. Desde novembro de 2011, lança uma edição diária sempre às 19h, dentro do aplicativo La Repubblica+, para iPad. Seu conteúdo conserva algo publicado durante a manhã no jornal impresso, porém, avança apresentando conteúdos analíticos e também ampla cobertura multimídia.
10 Os produtos vespertinos seguem uma tendência de pesquisas sobre o aumento do consumo de leitura nos tablets
após às 17h (2012 Mobile Media News Consumption Survey), ao final do dia, para um tipo de navegação lean-
back (GARCÍA, 2012), ou seja, mais descansada e aprofundada, com maior disponibilidade do leitor para assistir
a vídeos e ter mais tempo para se dedicar a textos mais longos/complexos. Desde então, diversas editoras passaram a ressuscitar o vespertino, um tipo de produto que já havia desaparecido do mercado, e que reaparece no digital (CANAVILHAS e SATUF, 2014).
Figuras 21 e 22 - Exemplos de telas do La Repubblica Sera. Fonte: Capturas de tela/ago. 2014
Nos últimos anos, o jornal tenta implementar a filosofia do digital-first, priorizando a cobertura de notícias de última hora para o site de internet e também o apurado geral do dia para o La Repubblica Sera. A versão impressa analisa e aprofunda os acontecimentos do dia anterior. Giuseppe Smorto, editor do site La Repubblica.it, afirma que o grupo sustenta uma rede de 420 jornalistas para o impresso e 25 trabalhando para o portal. Porém, os jornalistas trabalham para todas as plataformas. No departamento de multimídia, estão 10 jornalistas e 20 técnicos, que produzem diariamente de 120 a 140 vídeos para os produtos do La Repubblica. O departamento funciona praticamente como uma grande emissora de televisão, produzindo boletins diariamente. As reuniões de pauta também são filmadas e publicadas no portal de internet (BARTLETT, 2013).
Em termos de interface, o La Repubblica Sera lança um formato de publicação vespertina que serve de modelo para as demais iniciativas, inclusive para o brasileiro O Globo a Mais. Ressalte-se também a importância do vídeo, com a possibilidade de comentário dos articulistas do jornal sobre sua própria seção, bem como a participação de correspondentes internacionais. Há um amplo uso também de recursos de animação e de hiperlinks. São produzidos muitos conteúdos, alimentados por uma equipe exclusiva dentro da redação. Pelo lado das desvantagens, isso acaba por tornar o aplicativo pesado no momento do download.
Há também uma diagramação que segue tradicionalmente o formato do jornal impresso, seja pela tipografia, seja pela disposição dos elementos. Em alguns momentos, tem-se a sensação de que a oferta de elementos gráficos é tão grande que chega a confundir o leitor, que acaba por não saber para onde direcionar sua atenção. O produto pode ser comprado de forma avulsa, disponibilizado no mesmo aplicativo que apresenta a transposição da versão impressa do La Repubblica, além de revistas, suplementos e cadernos regionais.
1.5.3.2 La Presse+
O canadense La Presse+ poderia facilmente ser confundido com uma publicação vespertina, integrando, portanto, o Modelo Complemento de Canavilhas e Satuf (2014), se não fosse pelo fato de ser publicado pela manhã (de segunda à sexta, a partir de 5h30). Em nossa classificação, encaixa-se no Modelo Autóctone, assim como os demais vespertinos. Foi lançada exclusivamente para o iPad, em 4 de abril de 2013. De acordo com Palacios et al., o produto
caracteriza-se pela experiência amigável, intuitiva e não-intrusiva, pelo aprofundamento de conteúdo a partir de galerias de fotos, ilustrações e vídeos em tela cheia, compartilhamento de conteúdo (Facebook, Twitter e por e- mail), acesso a links externos sem sair do aplicativo, utilização de modos de leitura clássica e noturna, seleção do tamanho da fonte, recuperação de histórico de leitura e de edições antigas por download, que podem ser lidas
off-line (PALACIOS et al., 2014, p. 48).
Sua proposta é reunir o material das mais diversas mídias, seja do papel, da web e da produção de material multimedia, num único produto. Surgiu de forma avançada e inovadora (PALACIOS et al., 2014), principalmente pela sua interface atrativa, construída através de grandes blocos coloridos que passam a “brincar” e sobrepor-se a outros grandes blocos de informação, seguindo a filosofia flat design. À primeira vista, a interface parece complicada, mas a navegação tende a ser de fácil aprendizado, já que não exige o conhecimento de complexos gestos para seu manuseio. Estas características de interface o tornam mais desvencilhado do leiaute do impresso.
Figura 23 - Exemplo de tela de abertura do La Presse+. Fonte: Captura de tela/jan. 2015
Diferentemente dos outros aplicativos, o formato segue o modo horizontal, o que define sua valorização para os vídeos. As matérias são dispostas em várias seções, acessadas pelo menu lateral que é ocultado ou exibido de acordo com os comandos do próprio leitor. As cores fazem parte da interface das páginas, pois ajudam a identificar cada seção. A tipografia segue a mesma do jornal impresso e do website para manter a uniformidade entre todas as plataformas.
1.5.3.3 The Daily
O The Daily foi o primeiro jornal desenvolvido exclusivamente para tablets. Foi lançado oficialmente pela News Corporation, de Rupert Murdoch, em 2 de fevereiro de 2011. O aplicativo durou pouco menos de dois anos, anunciando seu encerramento em 15 de dezembro de 2012, após conquistar mais de 100 mil assinantes e sofrer perdas de 30 milhões de dólares por ano.
De acordo com reportagem de Sweney (2012), Murdoch admitiu não conseguir vender assinaturas suficientes para tornar o aplicativo viável financeiramente. Com o fechamento, o empresário afirmou que aproveitaria a tecnologia e parte do pessoal para o New York Post, jornal do mesmo grupo. Durante os 21 meses de vida, o The Daily oferecia assinatura a US$ 0,99 por semana ou US$ 39,99 por ano. Com estes valores, o aplicativo necessitaria de, ao
menos, 500 mil assinantes para ser financeiramente viável. Em julho de 2012, o News Corp. cortou um terço dos 170 funcionários (SWENEY, 2012).
A cada edição poderiam ser produzidas até 100 páginas (telas) de acordo com a necessidade de cobertura das notícias, distribuídas em seis editorias: notícias, esportes, celebridades, opinião, artes e estilo de vida. As notícias apresentavam textos simples, com características de jornais de apelo popular. A cada dia, o aplicativo atualizava o cardápio de informações, pois não havia memória para permitir o acesso a notícias dos dias anteriores – a menos que o usuário se dispusesse a armazená-las, por meio de uma funcionalidade do aplicativo. Os leitores também podiam compartilhar a maioria das informações nas redes sociais.
Figura 24 - Tela de abertura de uma edição do The Daily, com a visualização em estilo “carrossel”
das páginas internas. Fonte: Ulmanu (2011).
Inicialmente exclusivo para o iPad, o The Daily foi a primeira iniciativa de um produto jornalístico pensado para o tablet. O pioneirismo inclui a estratégia de negócio adotada, que se libertava do modelo de in-app subscription da Apple, oferecendo assinaturas dentro do aplicativo e não mais por meio da loja AppStore.
1.5.3.4 Katachi Mag
A Katachi Mag foi criada como uma revista trimestral também exclusiva para o iPad. Foi lançada em novembro de 2011 pelos editores noruegueses Ken Olling e Max Berg, com a finalidade de proporcionar uma experiência distinta de leitura e utilizar todos os recursos possibilitados pelo tablet. O nome que intitula a publicação é difícil de traduzir, pois tem diversos significados, entre eles forma ou simetria. Para os japoneses, a forma perfeita pode ser traduzida por meio de dobraduras em papel (origamis) que brincam com figuras simétricas. É o conceito da revista, que apresenta em cada página uma solução visual diferente, levando o leitor a dobrar e desdobrar diversos “papéis recortados” de forma a revelar as informações.
Figura 25 - Capa da primeira edição da Katachi Mag, publicada no outono de 2012.
Fonte: Captura de tela/mai. 2015
A revista traz artigos sobre moda, design e comportamento. Está ambientada na experimentação, fragmentando diversos elementos e apresentando interações multi-touch, ou seja, com gestos que utilizam diversos toques sobre a tela. A Katachi Mag serve também de vitrine de divulgação para o sistema desenvolvido pelos editores, a Origami Mag, instalado em computadores com a plataforma Mac para criação de publicações desse tipo.
Segundo seus criadores (UNTITLED.NO, 2013), além da publicação de revistas, o sistema Origami Mag também está sendo utilizado para criação de livros infantis, didáticos, de arte e relatórios. Pelo monitoramento da revista, nas duas primeiras edições, o leitor da Katachi
leu em média 11 páginas por seção, sendo que cada página consome cerca de nove minutos, tempo para ler o conteúdo e explorar as interações presentes. A maioria dos leitores da revista é da China, do Oriente Médio, da França, do Brasil e da Rússia.