A teoria das affordances é o trabalho mais conhecido do psicólogo norte-americano James J. Gibson (1904-1979). Trata-se do resultado de cinquenta anos de pesquisas publicadas entre diversos manuscritos utilizados em conferências – conhecidos por purple perils26 – e apenas três livros publicados. Ao longo dos anos, Gibson conseguiu transitar pelo
26 Assim denominava James Gibson os papers escritos para suas conferências, impressos em papel púrpura e
funcionalismo, pela psicofísica, pela fenomenologia da Gestalt. A posteriori, rejeitou tudo para desenvolver sua própria teoria da percepção visual, em uma crítica frontal ao behaviorismo da fórmula estímulo-resposta. Com isso, foi capaz de criar uma nova área de estudos denominada psicologia ecológica ou ecologia da percepção, na proposição de Santaella (2012).
Entre o primeiro livro – The Perception of the Visual World, 1950 – e o segundo – The Senses Considered as Perceptual System, 1966 – não foram apenas dezesseis anos de intervalo, mas uma reviravolta considerável na sua forma de pensamento, que culminou com o último trabalho – The Ecological Approach to Visual Perception, 1979 – o qual vai estruturar melhor a sua teoria da percepção e o conceito de affordances.
O primeiro livro de Gibson é legado de sua pesquisa desenvolvida durante a Segunda Guerra Mundial. Mace (2015, p. xviii) informa que o psicólogo analisou os filmes utilizados para o treinamento de pilotos para desenvolver o que chamou de “teoria do solo”27: entre as nuvens não há nada para ver fora do avião, o que é desorientador; ao sair delas, o piloto volta a avistar a superfície da terra, pois existe algo para ser visto e servir de base para orientação; portanto, o solo desempenha o papel do “espaço” na visão. Trata-se já do delineamento de uma teoria da percepção original, em oposição às ideias da física clássica de Newton, segundo a qual o universo é constituído apenas de corpos no espaço. Para Gibson, na proposta intitulada de psicofísica da visão, encontramos meios, substâncias, superfícies e suas configurações. A descrição fenomenológica da experiência perceptiva, abandonada pelo próprio autor a partir do segundo livro, culminaria na psicologia ecológica.
Os purple perils, escritos a partir de 1957, demonstram uma nova preocupação para o psicólogo a qual, ao invés de oferecer resposta para o questionamento sobre “‘como as coisas aparecem?’, passa a se perguntar ‘o que há para ser visto?’” (SANTAELLA, 2012, p. 49). A descrição do ambiente se torna ponto de partida de maneira a substituir a fenomenologia. O segundo livro, cerne da psicologia ecológica, traz o abandono da causalidade física e mental para tratar a percepção como atividade unificada e funcional dos observadores. O “estímulo” ganha importância como objeto de estudo, resultado da reciprocidade dinâmica entre o animal e o meio que o cerca.
Neste sentido, o uso do conceito de “sistemas perceptivos” traça uma alternativa à teoria dos sentidos, na qual os órgãos funcionam como meros canais sensórios passivos num simples input, ideia popular nos estudos de anatomia e fisiologia da época. De acordo com Gibson, o órgão perceptivo visual é ativo, pois obtém informação de forma exploratória, do mesmo modo
que varre, orienta e seleciona o que for recolhido por meio desse input (SANTELLA, 2012, p. 49). Continuam resquícios da Gestalt, declara Mace (2015, p. xviii), ao afirmar que há correspondência entre padrões ópticos e as propriedades do ambiente. Trata-se da influência dos anos em que Gibson e Koffka compartilharam um seminário para os alunos da Smith College.
É no segundo livro também que a óptica passa a ser ecológica. De acordo com Lombardo (1987, p. 285), um dos principais estudiosos da obra do psicólogo norte-americano, Gibson estava descontente com as visões da óptica geométrica e fisiológica, que enfatizavam a noção reducionista do mundo físico constituído apenas por partículas atômicas. A “visão retiniana” cede espaço para o “arranjo óptico”, no qual a percepção visual envolve um processo ativo de detecção e ressonância à informação.
No terceiro e último trabalho, no qual está o coroamento de sua teoria da psicologia ecológica, Gibson prossegue a compreensão de meios, substâncias, superfícies e configurações de superfícies como conceitos fundamentais no processo de percepção. Este processo segue um roteiro: primeiro o ambiente ao redor, depois a informação que esse ambiente disponibiliza e, por último, o trabalho dos sistemas perceptivos e a constituição da percepção (SANTELLA, 2012, p. 48).
Os meios do ambiente estão representados pela terra, água e ar. A percepção deles se dá a partir das relações entre pontos de observação e as condições de luz, som e cheiro. As matérias em estado sólido que não produzem ou refletem luz, cheiro ou proporcionam alguma ação são as substâncias, tais como rochas e areias. Elas oferecem ao animal possibilidades diferenciais para ação: comer, manipular, manufaturar. As superfícies são as interfaces entre quaisquer dos três estados da matéria (sólido, líquido e gasoso). Por exemplo, o fundo de um lago representa a superfície terra-água (sólido-líquido), enquanto a nossa superfície, o ground, que nos sustenta, é terra-ar (sólido-gasoso), responsável por praticamente toda nossa vivência. Nelas, existem certas propriedades, leiautes, como textura e refração de iluminação.
Nessa configuração está o guia principal da psicologia ecológica: o ambiente acolhe o animal e ao mesmo tempo se oferece a ele. O ambiente é o entorno dos organismos que o percebem e agem a partir essa percepção, da informação recebida e processada. Organismo e ambiente funcionam como um par inseparável, o ambiente também é um organismo vivo (SANTAELLA, 2012, p. 53). Tal processo é enfatizado na teoria das affordances, que será detalhada nas páginas a seguir.