Chapitre 3 – Démarche de recherche
3.4 Analyse et codage
3.4.1 Quelques notions sur l’analyse qualitative
Antes de iniciar a apresentação dos fundamentos ontológicos, é preciso, contudo, estabelecer uma referência inicial, sem a qual não é possível entender a investigação científica como proposta por Marx: a centralidade da práxis. A investigação não é neutra ou desinteressada, mas tem por objetivo se constituir em práxis revolucionária de transformação da realidade na direção da emancipação humana. O conhecimento científico, longe de ser contemplação do mundo, é definido como apropriação ativa da realidade por sujeitos que visam transformá-la.
Tal orientação para a práxis emerge como ―necessidade prática de superar a dominação escravizadora da objetivação alienante, reforçada de forma constante pelo poder aniquilador do fetichismo da mercadoria‖ (MÉSZÁROS, 2009, p. 218 – 219). O método tem sua historicidade, isto é, emerge como necessidade a partir de determinadas condições históricas, está sujeito a determinações materiais, atende a determinados interesses concretos (GONÇALVES, M. G., 2005). Neste sentido, a orientação para a práxis objetiva aquilo que nenhuma consciência especulativa poderia suprir, se constituir ―também um instrumento necessário da luta pela autoemancipação‖ (MÉSZÁROS, 2011a, p. 33). A necessidade histórica deste papel da ciência – sua orientação para a práxis – é colocada por Mészáros nos seguintes termos:
A realidade desumanizante [do desenvolvimento econômico capitalista] precisava ser erradicada da única maneira viável sob as circunstâncias existentes; ou seja, por meio da transformação intransigente da ordem social estabelecida em sua totalidade. E isso trouxe consigo a definição marxiana de ciência em sua inseparabilidade da mais radical intervenção prática no processo de transformação social. A explicação teórica isolada não poderia oferecer as soluções requeridas nesse âmbito; nem mesmo a de tipo programaticamente antiespeculativo. Tampouco era suficiente
dedicar-se apenas à negação da ordem dada. A negação do sistema do capital tinha de ser combinada com a demonstração da viabilidade histórica da ordem hegemônica alternativa positiva necessária (...). É por isso que pela primeira vez na história uma teoria científica de mudança estrutural foi articulada e diretamente vinculada por seu fundador à realização necessária da tarefa histórica de criar um movimento revolucionário consciente capaz de instituir a propugnada estratégia de transformação global (MÉSZÁROS, 2009, p. 214). Neste sentido, ―a questão de saber se ao pensamento humano cabe alguma verdade objetiva [é] uma questão prática‖, pois ―é na prática que o homem tem de provar a verdade‖ (MARX; ENGELS, 2012, p. 533).
Marx (2013) coloca claramente que a intenção de seu esforço teórico não era o de simplesmente apreender as determinações dos fenômenos na sua forma presente de apresentação, mas as determinações de sua mutabilidade, de seu desenvolvimento, de sua passagem a outra forma, da necessidade que o determina ser como é para demonstrar a necessidade de sua transformação. Neste sentido, a objetividade e a validade de suas proposições não poderiam ser demonstradas por um esforço teórico, mas eminentemente prático, em que se depreende seu estatuto de verdade da demonstração prática de sua viabilidade (COGGIOLA, 2011). Como afirma Marx,
o poder material tem de ser derrubado pelo poder material, mas a teoria também se torna força material quando se apodera das massas. A teoria é capaz de se apoderar das massas tão logo demonstra ad hominem, e demonstra ad hominem tão logo se torna radical. Ser radical é agarrar a coisa pela raiz. Mas a raiz, para o homem, é o próprio homem (MARX, 2010a, p. 151).
Desta forma, é impossível neutralidade na filosofia e na ciência, que necessariamente expressam determinados interesses práticos. Como argumenta, ao analisar a ciência econômica produzida ao longo e após as revoluções burguesas na Europa, a filosofia clássica e as ciências emergentes primeiramente possuíam um caráter fundamentalmente revolucionário que atendia aos interesses práticos da luta revolucionária da burguesia contra o sistema feudal. Com a posterior consolidação da burguesia como classe dominante, este pensamento se mantém atendendo aos interesses práticos desta classe ao assumir um caráter apologético – o critério de legitimidade de uma determinada proposição passa a ser se útil ou prejudicial a tais interesses (MARX, 2013). A teoria, sua lógica e suas conclusões, atende a interesses práticos localizados no embate de classes e somente nas condições em que
interessa a ocultação deste embate a teoria pode se apresentar como neutra (COGGIOLA, 2011).
Não se trata, contudo, como aponta Maar (2011), de subordinação da teoria à prática, mas da afirmação dos nexos dialéticos na história entre sujeito e objeto, entre necessidade e contingência, entre condições racionais-filosóficas e sócio-históricas de construção de alternativas, a partir da compreensão de que a reprodução ou a superação de uma determinada sociabilidade é um complexo processo de mediações objetivas e subjetivas, teóricas e práticas. À teoria cabe decifrar a mediação histórica entre necessidade e contingência para demonstrar as reais possibilidades práticas de transformação e é este papel que confere à teoria seu estatuto de ―verdade objetiva histórica‖ (p. 51).
Esta ênfase dada à práxis é possível, desta forma, a partir de uma compreensão muito específica de história, uma compreensão materialista e dialética que rejeita qualquer teleologia abstrata: as condições para o esgotamento e a superação de uma determinada organização social são produzidas no interior desta mesma organização (MARX, 1977), o que torna a transformação necessária e sua superação possível, mas não inevitável – o resultado do acirramento das contradições no interior de uma determinada forma de sociabilidade podem ser sua reestruturação revolucionária ou seu aniquilamento (MARX; ENGELS, 1981). Este entendimento envolve, por conseguinte, uma compreensão muito específica da relação entre sujeito e objeto, entre subjetividade e objetividade, que está na raiz da ênfase dada à práxis: a afirmação de um sujeito histórico ativo cuja atividade concreta é determinada por uma objetividade que independe absolutamente de sua vontade, mas um sujeito que transforma o objeto ao agir sobre ele, ao mesmo em que se transforma, em uma relação de mútua determinação, de unidade, mas não de identidade. Como afirma Maar,
a ―possibilidade‖ como verdade a ser realizada não é uma meta abstrata pronta, mas como ―objeto‖ histórico apresenta uma dimensão ―subjetiva‖ em sua ―objetividade‖, cuja única via de acesso é a produção da sociedade na própria vida material dos homens. (...) A realização efetiva da possibilidade implica haver uma mudança, uma reestruturação, na relação entre a ―possibilidade futura‖ e o ―sujeito presente‖, tendo em vista a efetivação desse sujeito no futuro, futuro que já se encontra presente no vigente, embora como possibilidade obstruída. (...) Nesse sentido, o sujeito não se apresenta como mera ―subjetividade‖, mas como ―objetividade‖, ainda que potencial (...). Ao mesmo tempo, a prática revela, para além de sua ―objetividade‖, uma
―subjetividade‖ mediante a qual corresponde ao dinamismo do sujeito (MAAR, 2011, p. 48).
Por conseguinte, se a orientação para a práxis distingue o materialismo histórico-dialético a partir da compreensão de um sujeito concreto que transforma e é transformado na ação sobre uma realidade concreta, não há como falar a partir de um ser humano abstratamente genérico ou em nome de interesses abstratamente universais. Decorre disso, portanto, a adoção de uma perspectiva de classe, que está no centro da concepção materialista da história, pois ―a história da sociedade se confunde até hoje com a história das lutas de classe‖ (MARX; ENGELS, 1981, p. 19).
Para compreender as possibilidades históricas de transformação social é preciso, portanto, compreender como se dão concretamente os antagonismos de classe no desenvolvimento histórico das relações de produção. A adoção teórica da perspectiva de classe do proletariado, enquanto classe que emerge das condições objetivas das relações de produção capitalistas, é o ―único ângulo possível para dar um caráter científico à sua investigação teórica‖ (COGGIOLA, 2011, p. 37). Da mesma forma, portanto, com que a filosofia clássica teve seu caráter revolucionário ao expressar o ponto de vista da burguesia ascendente no confronto com o sistema de produção feudal, a práxis revolucionária do marxismo passava então por sua afirmação enquanto expressão teórica do movimento prático da principal força antagônica criada pelo capital e a única com possibilidades objetivas de superá-lo. Se o materialismo histórico-dialético busca na práxis o seu estatuto de verdade objetiva, sua vinculação consciente a um momento histórico específico (o capitalismo) e a uma classe social determinada (o proletariado) é o que confere a suas proposições o valor, a validade e a especificidade históricos (ibidem).
A partir da compreensão do objetivo de transformação revolucionária da realidade a partir da perspectiva de classe assumida pelo marxismo, podemos compreender a proposição de sua dialética materialista. Como aponta Marx, na investigação dos fenômenos, "importa sobretudo a lei de sua modificação, de seu desenvolvimento, isto é, a transição de uma forma a outra, de uma ordem de inter-relação a outra" e que "o valor científico de tal investigação reside na elucidação das leis particulares que regem o nascimento, a existência, o desenvolvimento e a morte de determinado organismo social e sua substituição
por outro, superior ao primeiro" (KAUFMANN apud MARX, 2013, p. 89 - 90). Desta forma, a investigação científica deve ter o triplo objetivo de "se apropriar da matéria em seus detalhes, analisar suas diferentes formas de desenvolvimento e rastrear seus nexos internos" de modo a permitir "expor adequadamente o movimento real", "a vida da matéria (...) agora refletida idealmente" (idem). O método que permite este triplo objetivo, afirma Marx, é o método dialético.
Ao assim designar a dialética como a forma mais geral das leis do desenvolvimento, Marx não o faz arbitrariamente, mas por identificar que sua emergência com Hegel, somente possível nas contraditórias condições concretas do desenvolvimento da sociedade capitalista, expressa o processo de desenvolvimento revolucionário da sociedade, ainda que mistificando o objeto a que se pretendia se referir: a Ideia e não os fundamentos materiais da sociedade humana (COGGIOLA, 2011). Em sua essência, a dialética é crítica e revolucionária, pois,
na intelecção positiva do existente, inclui, ao mesmo tempo, a intelecção de sua negação, de seu necessário perecimento. Além disso, apreende toda forma desenvolvida no fluxo do movimento, portanto, incluindo o seu lado transitório; porque não se deixa intimidar por nada e é, por essência, crítica e revolucionária (MARX, 2013, p. 91).
Contudo, alerta Marx, seu "método dialético, em seus fundamentos, não é apenas diferente, mas exatamente seu oposto" da dialética hegeliana (2013, p. 90). Em Hegel, a dialética é mistificada, "se encontra de cabeça para baixo", sendo preciso "desvirá-la" para que, despida de seu "invólucro místico", se revele seu "cerne racional" como método que permite apreender a contradição do real e as possibilidades de sua transformação. O deslocamento de seu conteúdo, da Ideia abstrata hegeliana para o concreto desenvolvimento da sociedade em sua base material, ao atender às finalidades do proletariado, tornou a dialética um instrumento teórico desta classe e conteúdo geral da teoria da revolução social (COGGIOLA, 2011).