Isabella Nardoni, de 5 anos, foi encontrada caída no jardim do prédio onde morava o pai, a madrasta e os dois irmãos, no dia 29 de março de 2008. A menina sofreu parada cardiorrespiratória e faleceu antes de chegar ao hospital. O pai de Isabella, Alexandre Nardoni e a madrasta, Anna Carolina Jatobá são os principais suspeitos do crime. São acusados de ter
estrangulado e atirado a criança pela janela do sexto andar do edifício onde moravam. Os dois respondem à Justiça pelo assassinato da menina e estão presos.
O caso Isabella Nardoni permaneceu quase um mês em posição de grande destaque na mídia, transmitido pelos principais veículos de comunicação do país. Como uma novela global, oito horas e quinze minutos da noite, início do Jornal Nacional, da Rede Globo, acompanhávamos as cenas do próximo capítulo. Todos os dias, na hora do jantar, as imagens fúnebres se repetiam.
O crime-espetáculo Isabella Nardoni, segundo a pesquisa CNT/Sensus21 divulgada pelo jornal O Globo, no dia 28 de abril de 2008, mostrou que 98,2% dos brasileiros tiveram conhecimento do assassinato da menina.
Repórteres transmitiam ao vivo cenas da fachada do prédio onde encontravam-se o pai de Isabella e a madrasta. O momento mais aguardado era a entrada e saída do casal para depoimentos na delegacia ou, então, a chegada, na garagem do prédio, de um veículo pertencente a um familiar dos acusados.
Para fomentar a morbidez do espectador, durante toda a cobertura televisiva do caso, foram exibidas inserções de repórteres ao vivo, ou seja: imagens transmitidas em tempo presente, conforme Arlindo Machado define em A televisão levada a sério (2005). O telejornal apresentava repórteres ao vivo, em frente ao edifíco London, local do crime. O interessante é que, na ausência de cenas significantes como, por exemplo, a arma do crime ou o vestígio da bala, era o close do letreiro do prédio e da janela do 6º andar que serviam como objeto referencial do crime.
Para intercalar com as insistentes imagens "do nada", os telejornais aprimoraram-se em reproduzir gráficos computacionais22. Simularam os cômodos do apartamento onde Isabella foi morta e o interior do carro e local onde estava sentada. Reproduziram também as evidências do crime como, por exemplo, as manchas de sangue, as marcas de sapato e os objetos usados para cortar a rede de proteção da janela. Além das simulações gráficas, foi por
21 Disponível em: <http://oglobo.globo.com/sp/mat/2008/04/28/cnt_sensus _98_2_da_populacao_conhece_caso_isabella_nardoni-427093155.asp>. Acesso em 25 jun. 2009.
22 Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=LN0GCN5Zcis&feature=related> e
meio deste caso que práticas investigativas usadas pela perícia técnica tornaram-se populares. Como, por exemplo, as coletas de sangue para exames de DNA, assim como as evidências de sangue no apartamento e na roupa do pai e da madrasta, reveladas pelo luminol, um produto químico que reage ao sangue humano.
A elaboração de gráficos computacionais, simulação do crime animada por softwares 3D, e a visualização da planta arquitetônica do apartamento foram artifícios usados pela mídia para gerar notícia. As informações, em certa medida, foram esclarecedoras para o público, mas como a mídia segue os preceitos da redundância, os recursos gráficos e tecnológicos assumiram roupagens ficcionais de um seriado policial. C.S.I:Crime Scene Investigation, ou mesmo Without a Trace (2002), transmitidos pela rede americana CBS, e no Brasil pela TV a cabo, seriam um bom exemplo. Estes seriados retratam o cotidiano de uma elite polícial. São profissionais envolvidos em crimes em que se exige conhecimento científico avançado e habilidades para o uso de equipamentos sofisticados, como exames de toxicologia, autópsia e mapeamento de DNA.
O desfecho desse drama televisivo chegou ao fim com a reconstituição do crime e o pedido de prisão do casal. No domingo do dia 27 de março de 2008, repórteres e cinegrafistas se aglomeraram em frente ao apartamento do casal Alexandre e Anna Carolina para transmitir a reconstituição do crime. O resultado da perícia técnica era aguardado como se fosse, finalmente, divulgado o verdadeiro assassino de Odete Roitman, personagem de uma telenovela global interpretada por Beatriz Segall.23
Figura 2 - Gráficos computacionais simulando a investigação da polícia técnica.
23 A atriz Beatriz Segall foi a vilã Odete Roitman, personagem da novela global Vale Tudo, exibida em
1988-89. Foi a segunda maior audiência da história da dramaturgia no país, perdendo apenas para Roque Santeiro (1985-86). Vale-Tudo, novela de Gilberto Braga, Agnaldo Silva e Leonor Bassères, atingiu 80% dos telespectadores em sua fase final. Disponível em: <http://noticias.terra.com.br/imprime/0,,OI1949287-EI7811,00.html>. Acessado em: 15 ago. 2009.
Figura 3 - Idem.
Figura 4 - Idem.
Talvez a cena mais emblemática da tirania de intimidade como conceituou Sibilia (2008a), do caso Isabella Nardoni tenha sido a entrevista concedida ao Fantástico, do casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, em 20 de abril de 2008. Elegidos como celebridades mórbidas, pela mídia, compactuam com a atual "fome de realidade" explicitada por Sibilia:
Uma intensa "fome de realidade" tem eclodido nos últimos anos, um apetite voraz que incita ao consumo de vidas alheias e reais. Os relatos desse tipo receberam grande atenção do público: a não-ficção floresce e conquista um terreno antes ocupado de maneira quase exclusiva pelas histórias de ficção (SIBILIA, ibid, pág 35).
Semanas depois da morte da criança é decretada a prisão do casal e dia 8 de maio de 2008 estes chegam à delegacia. Após a prisão, as imagens cotidianas do caso Isabella foram minguando, até que, como num passe de mágica, desapareceram por completo da mída televisiva e impressa. Porém, permanecem as homenagens póstumas a menina Isabella. Proliferaram em sites como o YouTube e outras comunidades on-line, como o Orkut, por exemplo, potencializando a espetacularização do crime e a hegemonia das imagens redundantes.
Figura 5 - Perfil em homenagem a Ana Carolina de Oliveira e Isabella Nardoni