Chapitre 2 - Les déterminants des choix modaux (étude 1)
1. Problématique et hypothèses
A teoria da vinculação foi introduzida por Bowlby (1969/82) para explicar a natureza e a função adaptativa da relação que se estabelece entre a criança e o seu cuidador (normalmente a mãe), concebida como uma relação de vinculação.
Central para a compreensão da vinculação é a noção de sistema comportamental que se refere a um programa neurológico inato, de base evolutiva que gere a ativação e a desativação de sequências comportamentais específicas dirigidas a determinados objetivos relacionados com a adaptação do indivíduo. Deste modo, perante determinados estímulos, são ativadas sequências comportamentais destinadas a um objetivo específico e as mesmas são terminadas quando esse objetivo é alcançado. Bowlby (1969/82) distinguiu vários sistemas comportamentais e centrou-se na análise do sistema comportamental da vinculação. Este tem como função proteger a criança do perigo e assegurar a sua sobrevivência, a qual é cumprida através da ativação de comportamentos de procura de proximidade – designados comportamentos de vinculação – em situações ameaçadoras (efetivas ou eventuais), os quais aproximam o indivíduo de uma pessoa capaz de proporcionar conforto e proteção. Quando estes sentimentos são reestabelecidos, o sistema é desativado. Deste modo, a estratégia primária do sistema de vinculação quando a pessoa precisa de proteção é a procura de proximidade.
O sistema comportamental da vinculação é inato e o seu funcionamento torna-se evidente desde cedo, na primeira infância, quando a fragilidade e a vulnerabilidade do bebé aos perigos e ameaças do meio tornam imperativa a necessidade de proteção. Assim, em condições desconfortáveis ou ameaçadoras, o bebé mostra uma série de comportamentos de vinculação (ex., chorar, palrar, sorrir, chamar, procurar com o olhar, marcha) que procuram trazer a mãe até si e/ou aproximá-lo desta e, à medida que a mãe reconforta e tranquiliza o bebé, transmite-lhe a segurança – felt security (Sroufe & Waters, 1977) – necessária para a desativação do sistema. Da regularidade desta interação, emerge uma relação em que o cuidador se torna progressivamente uma figura que cuida e protege – figura de vinculação – e o bebé uma figura que recebe esses cuidados e essa proteção – vinculada. Assim, a figura de vinculação é concebida como sendo mais forte e mais capaz de lidar com as adversidades, e que, através das duas competências que a caracterizam – (1) sensibilidade aos sinais de apelo da criança, no sentido de os identificar e interpretar adequadamente e (2) responsividade aos mesmos – proporciona segurança, conforto e
ajuda, sempre que necessário (Ainsworth, 1989; Bowlby, 1969/82). Têm sido distinguidas quatro características nucleares da figura de vinculação (Ainsworth, 1991; Hazan & Shaver, 1994; Hazan & Zeifman, 1999): (1) é alvo da procura de proximidade, de modo que as pessoas tendem a procurá-la e a beneficiar com a sua proximidade, em momentos de stress ou preocupação; (2) funciona como refúgio de proteção em momentos de necessidade (proporciona proteção, conforto, apoio e alívio); (3) funciona como uma base segura, permitindo que a criança ou adulto explore objetivos não relacionados com a vinculação (ou seja, ative outros sistemas comportamentais), num ambiente seguro; (4) o seu desaparecimento real ou esperado despoleta perturbação, isto é, as pessoas reagem com stress intenso à separação ou perda real ou potencial e não desejada da figura de vinculação. Assim, o indivíduo só se torna uma figura de vinculação quando proporciona um refúgio de proteção e uma base segura, em situações percecionadas como ameaçadoras ou perigosas.
Esta ligação emocional que se estabelece com a figura de vinculação e tem subjacente a articulação entre dois papéis – procura de cuidados (careseeking role) e prestação de cuidados (caregiving role) – foi designada por Bowlby (1969/82) como relação de vinculação. A vinculação é então uma ligação emocional forte e duradoura, de carácter recíproco, com uma figura específica e insubstituível (figura de vinculação), com quem o indivíduo deseja manter proximidade e a partir de quem consegue obter a segurança e proteção necessárias para poder explorar o meio de forma autónoma. Deste modo, fica claro que, tal como as figuras de vinculação não se referem simplesmente a parceiros de relações próximas, também nem todas as interações com a figura de vinculação são interações relacionadas com a vinculação. De facto, a existência do laço ou ligação de vinculação (attachment bond) pode não ser sempre evidente, pois quando nenhum dos elementos da relação se sente ameaçado, desmoralizado ou com necessidade, ambos parecem ser autónomos e as suas interações podem ser de carácter mais afiliativo ou exploratório. Mas quando uma pessoa se sente perturbada e, sobretudo, se houver ameaça de separação ou se ocorrer uma perda, o laço de vinculação torna-se visíve (Bowlby, 1969/82).
Embora, e como anteriormente referido, o funcionamento do sistema comportamental da vinculação seja mais evidente na infância, Bowlby (1988) assumiu que ele está ativo durante todo o ciclo de vida. De facto, há uma tendência para o ser humano, em geral, procurar conforto, sobretudo em momentos de ameaça, sofrimento ou necessidade, junto de figuras próximas afetivas, apoiantes e reconfortantes. A perda dessa proximidade constitui uma fonte de stress e perturbação.
Ao longo da vida, o objetivo do sistema de vinculação é constante – obter o sentimento de proteção e segurança que permite o funcionamento adaptativo (exploração).
Este sentimento de segurança consiste num estado psicológico segundo o qual a pessoa se sente segura, valorizada e cuidada. Este estado permite-lhe dar atenção a outras coisas para além da autoproteção, explorar situações novas e assumir riscos, porque está confiante de que, em caso de necessidade, a ajuda estará disponível. Quando as relações de vinculação funcionam adequadamente, a distância e a autonomia tornam-se compatíveis com a proximidade e a confiança nos outros.
Quanto ao funcionamento deste sistema ao longo da vida, pauta-se por contornos mais complexos e organizados. Inicialmente, ele consiste numa organização comportamental simples cujos comportamentos são inatos, rígidos, independentes uns dos outros e manifestados de forma indiscriminada em relação à figura de vinculação. Progressivamente, à medida que se intensificam e complexificam as experiências relacionais, a par do desenvolvimento físico e cognitivo, os comportamentos passam a estar organizados no que Bowlby (1969/82) designou de sistema corrigido por objetivos (goal-corrected system). Isto significa que o sistema de vinculação passa a ser um sistema de controlo, com uma componente cognitiva que organiza de forma progressivamente mais complexa os comportamentos de vinculação. Deste modo, a resposta à ativação do sistema passa a ser cada vez mais intencional, na medida em que a pessoa avalia o progresso em relação ao seu objetivo e corrige o comportamento de modo a seguir a sequência de ação mais eficaz. Este ajustamento e adaptação do comportamento exige três operações cognitivas: (1) avaliação e monitorização de ameaças internas e externas, (2) avaliação e monitorização das respostas da figura de vinculação à procura de proximidade e (3) avaliação e monitorização da eficácia dos comportamentos escolhidos. Na idade adulta, a proteção e a segurança podem ser alcançadas, não só através de comportamentos de vinculação, que agora adquirem uma natureza e expressão diferentes das da infância, mas também através da representação mental de pessoas que regularmente as proporcionam. Assim, a procura de proximidade adquire uma dimensão simbólica que permite lidar, de forma adaptativa, com a ausência física da figura de vinculação.
Face ao exposto, a vinculação refere-se ao sistema comportamental que organiza os comportamentos de vinculação e que está na base da relação da vinculação. Quanto à relação de vinculação, além de esta assumir características particulares que a distinguem de outras ligações emocionais, nem todas as interações com a figura de vinculação são interações relacionadas com a vinculação. Uma relação de vinculação refere-se, especificamente, ao recurso a outra pessoa como uma figura de vinculação, ou seja, como alguém que proporciona um refúgio de proteção e uma base segura quando necessário.
1.2 Diferenças individuais no funcionamento do sistema comportamental de