DIVISION CULTURES
PAQUETS DE LIVRES
A Região Agreste de Pernambuco é extensa e compreende várias áreas arqueológicas já definidas e delimitadas por pesquisas anteriores, como o Vale do Ipanema e o Vale do Ipojuca (SILVA, 2004) e outras que não foram definidas formalmente, mas que apresentam concentração de sítios arqueológicos e vestígios. As pesquisas arqueológicas foram desenvolvidas de forma sistemática na Região do Agreste pernambucano, na década de 70, pelo Núcleo de Estudos Arqueológicos (NEA) da UFPE, através do ―Projeto Agreste‖, coordenado por Gabriela Martin e Alice Aguiar. As prospecções abrangeram os municípios pernambucanos de Brejo
15Uma área arqueológica foi definida como ―uma unidade territorial, com importante quantidade de
vestígios arqueológicos, mas para a qual não se dispõe de dados suficientes que indiquem uma ocupação humana contínua‖ (GUIDON; PESSIS; MARTIN, 1990). Uma área arqueológica apresenta as mesmas condições ecológicas e pode ser fixada pelo pesquisador (MARTIN, 2005). Já o conceito de enclave é definido como ―uma unidade territorial com densa concentração de vestígios arqueológicos indicadores da presença humana em diacronia contínua‖ (GUIDON; PESSIS; MARTIN, 1990).
da Madre de Deus, Taquaritinga do Norte, Alagoinha, Pedra, Venturosa, Paranatama, Brejinho, São Bento do Una e Passira, e São João do Tigre e Cacimba de Areia na Paraíba (AGUIAR, 1986). Este projeto objetivava a localização de sítios com pinturas rupestres da tradição Agreste, realização de sondagens em sítios selecionados e posterior escavação total dos mesmos (LUFT, 1990).
Os resultados do projeto demonstraram a identificação de uma centena de sítios, sobretudo os de grafismos, os quais se tornaram tema da dissertação de Alice Aguiar (1986), que elaborou uma análise dos grafismos rupestres existentes nesses sítios, identificando-os a uma nova tradição: a Agreste.
Dentre os sítios registrados por meio do ―Projeto Agreste‖ e com vestígios ósseos humanos, podemos destacar, no município de Venturosa, no Agreste Meridional, os sítios Morro dos Ossos, Pedra do Tubarão e o Cemitério do Caboclo.
O sítio Morro dos Ossos é um pequeno abrigo localizado na Fazenda Oliveira e próximo aos sítios Peri-Peri I e Peri-Peri II. Apresenta vestígios de grafismos na cor vermelha e restos de ossos humanos. Este sítio foi usado como cemitério (MARTIN, 2005a).
O sítio Pedra do Tubarão é formado por um matacão de granito e está localizado na encosta sul/sudeste da Serra do Buço. Neste abrigo, foram evidenciados resíduos de ossos humanos fragmentados, dispersos, e muito frágeis. Porém, a quase totalidade de ossos humanos encontrava-se no Cemitério do Caboclo. Para Vlademir Luft (1990), que realizou o estudo deste sítio, a Pedra do Tubarão foi um espaço utilizado como habitação.
O Cemitério do Caboclo está localizado a 200 metros do sítio Pedra do Tubarão. É um abrigo formado por um bloco e possui um painel de pintura rupestre no teto. O sítio apresentava em superfície muitos ossos fragmentados. Em profundidade, durante a escavação, foram identificados enterramentos secundários, com ossos desarticulados, queimados e quebrados. A desarticulação não permitiu a identificação do número de indivíduos, em campo. Contudo, foi possível observar algumas covas e duas áreas de queima. Nessas áreas, o número de indivíduos era
superior a dois. Os dentes também se encontravam soltos. Para Luft, este sítio foi o cemitério do grupo que ocupou a Pedra do Tubarão (1990).
Após as análises efetuadas em relação ao número mínimo de indivíduos e a idade, foram identificados quinze (15) indivíduos adultos e nove (9) jovens (LUFT, 1990, p. 118). Em relação à presença de acompanhamento funerário, foram resgatados quatro (4) pingentes em osso (de cervídeo e de ave) e sessenta e três (63) contas de colares distribuídos, quanto à matéria-prima, da seguinte forma: três (3) de osso, quarenta e seis (46) de sementes e quatorze (14) de pedra (LUFT, 1990, p. 43). Mais recentemente, em 2006, nos municípios de Venturosa e Alagoinha, foram realizadas outras pesquisas e identificados novos sítios, ainda não escavados, com vestígios de ossos humanos: a Toca da Bica e a Pedra da Caveira (PROENÇA, 2008).
O sítio Toca da Bica é um abrigo formado por blocos e está localizado no sopé do Serrote do Barbado, no município de Venturosa. Situa-se próximo a uma fonte de água utilizada pela população local. No setor norte, em uma faixa de 6m², o teto tem 50 cm de altura e, nesta área, foi constatada a presença de ossos humanos, sob a superfície do solo (PROENÇA, 2008).
O sítio Pedra da Caveira é uma caverna que foi formada por um grande conjunto de blocos. Em três áreas, dentro do sítio, foi observada a presença de ossos humanos distribuídos pela superfície. Está localizado em área de fundo de vale (PROENÇA, 2008).
Outra área, compreendida no Vale do Ipanema, com evidências de enterramentos é o Vale do Catimbau, atual Parque Nacional do Catimbau16. As primeiras pesquisas foram realizadas por Marcos Albuquerque, na década de 70, e posteriormente, nos anos 90, por Gabriela Martin e Ana Lúcia Nascimento. Desta primeira fase há escavações dos sítios PE 91 – Mxa e PE 48 - Mxa, localizados no município de Buíque. Da segunda fase foram realizadas as escavações dos sítios Alcobaça e
16 O Parque Nacional do Catimbau, criado em dezembro de 2002, abrange parte dos municípios de
Alcobaça 2, também em Buíque. O sítio PE 91 – MXa está localizado no Vale do Catimbau, no sopé da serra do Catimbau, a 700 metros de altitude. Foi escavado na década de 70, por Marcos Albuquerque. Apresentava, como vestígios, material lítico, estruturas de fogueiras, restos vegetais, ossos de animais e enterramentos. Os corpos foram enterrados em posição fletida e apresentavam como acompanhamento cestas de fibra vegetal cobrindo a cabeça (ALBUQUERQUE; LUCENA, 1991). Há cinco datações radiocarbônicas para este sítio: 2780 ± 190 BP (BaH – 1256); 3870 ± 200 BP (BaH – 1252); 4390 ± 200 BP (BaH – 1253); 6240 ± 110 BP (BaH – 1052); 6640 ± 95 BP (BaH – 1053)17.
O abrigo sob rocha PE 48 – Mxa está localizado na serra do Catimbau, a 700 metros de altitude e próximo a um olho d‘água. Foi escavado também por Marcos Albuquerque. Nele foram identificados material lítico lascado, estruturas de fogueiras, restos de cestaria, ossos de animais e enterramentos. Há uma datação de 270 ± 150 BP (BaH – 1088 - A)18.
O sítio Alcobaça está localizado no município de Buíque, distrito de Carneiro. Este sítio se destacou pela complexidade de grafismos rupestres encontrados em seu suporte rochoso. É composto por um grande painel de pinturas policromáticas, em sua maioria, grafismos puros e antropomorfos, e um painel de gravuras. A escavação deste sítio revelou a presença de enterramentos secundários. Seu estudo e as datações obtidas o tornaram uma referência arqueológica para a região do Vale do Catimbau19 (MARTIN, 2005b).
No sítio Alcobaça foram identificadas três áreas distintas de ocupação humana. Na primeira, estavam os enterramentos secundários, em covas que apresentavam ossos queimados e, como acompanhamentos, restos de uma cestaria trançada, cordões e óxido de ferro com marcas de uso; a segunda área foi caracterizada como
17 Informações do registro de sítios arqueológicos do IPHAN. Disponível em:
<http://portal.iphan.gov.br/portal/montaDetalheSitioArqueologico.do?id=PE00111> Acesso em: 25 ago. 2008.
18 Informações do registro de sítios arqueológicos do IPHAN. Disponível em:
<http://portal.iphan.gov.br/portal/montaDetalheSitioArqueologico.do?id=PE00110> Acesso em: 25 ago. 2008
19 O sítio Alcobaça foi utilizado como estudo de caso na tese desenvolvida por Ana Lúcia Oliveira
uma área de sucessão de fogueiras; por sua vez, a terceira área apresentava fogueiras estruturadas de restos vegetais.
Na primeira área foram identificados cinco (5) enterramentos, com a presença de vinte e três (23) indivíduos (identificados pelo número mínimo de indivíduos). No enterramento 1 havia ossos de seis indivíduos cremados (quatro adultos jovens e duas crianças), envolvidos em trançados de fibras vegetais. Foram encontrados, com os enterramentos, restos de cestaria, folhas de palmeira, fragmentos de cerâmica, óxido de ferro e material faunístico. Este enterramento está datado em 2466 ± 26 BP. No enterramento 2 havia ossos de dois indivíduos cremados (duas crianças) e a presença de restos de trançados, vestígios vegetais, fragmentos de cerâmica e material faunístico. O enterramento está datado em 1873 ± 24 BP. Já na enterramento 3 havia ossos de dois indivíduos cremados (duas crianças) e vestígios vegetais e material faunístico. A datação é de 1873 ± 26 BP. Por sua vez, no enterramento 4 havia ossos de seis indivíduos cremados (quatro adultos jovens e duas crianças), envolvidos em trançados de fibras vegetais. Junto a esses indivíduos foram resgatados restos de cestaria, material lítico, fragmentos de cerâmicas e materiais faunísticos. Neste enterramento, os ossos apresentavam vestígios de pintura vermelha. Este enterramento está datado em 2405 ± 30 BP. Por fim, no enterramento 5 havia ossos de sete indivíduos cremados (quatro adultos jovens e três crianças). Junto a esses indivíduos, foram resgatados trançados de fibras vegetais e dois pingentes de osso. Os ossos do enterramento apresentavam vestígios de pintura vermelha. Este enterramento está datado em 2184 ± 32 BP (OLIVEIRA, 2001, 2006).
Para Ana Lúcia Oliveira (2006, p.19), pelos tipos de vestígios associados aos mortos e pelas semelhanças nos enterramentos, um único grupo étnico ocupou o abrigo. Isto indicaria uma continuidade cultural. As datações obtidas permitiram organizar uma cronoestratigrafia para este sítio, situada entre 4851 ± 30 BP e 888 ± 25 BP. O sítio Alcobaça 2 está localizado próximo ao Alcobaça e ainda não foi sistematicamente escavado. Das primeiras campanhas foram resgatados ossos humanos em bom estado de conservação, com presença de tecidos moles ainda aderidos aos ossos, como também parte da coluna vertebral articulada, o que pode
caracterizar enterramentos primários. Pelo estabelecimento do número mínimo de indivíduos foram identificados dois indivíduos jovens, com idade estimada entre 20- 24 (indivíduo feminino) e 24-28 (indivíduo masculino), uma criança e um feto20.