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3.   Une grande diversité d’inscriptions institutionnelles et de modalités

3.1.   Panorama institutionnel des douze structures visitées 31

É, então, adequado afirmar a possibilidade de encontrarmos esse critério dentro de nós; que ele é imanente à nossa estrutura originária e nos permite julgar nossa própria humanidade. As circunstâncias vividas direta ou indiretamente pela pessoa devem ser confrontadas com esse critério originário, primário da natureza humana, chamado por Luigi Giussani de experiência elementar:

Trata-se de um conjunto de exigências e evidências com as quais o homem é lançado no confronto com tudo o que existe. A natureza lança o homem na comparação universal consigo mesmo, com os outros e com as coisas, dotando-o – como instrumento de tal confronto universal – de um conjunto de evidências e exigências originais, tão originais que tudo o que o homem diz ou faz depende delas.

20 Cf. Luigi GIUSSANI, O senso religioso, p. 57-61. 21 Romano GUARDINI, O fim da Idade Moderna, p. 68.

A elas podem ser dados muitos nomes, através de diversas expressões, como: exigência de felicidade, exigência de verdade, exigência de justiça, etc. Seja como for, são como uma centelha que põe em ação o motor humano; antes delas não ocorre nenhum movimento, nenhuma dinâmica humana. Qualquer afirmação de uma pessoa, desde a mais banal e quotidiana até a mais ponderada e plena de conseqüências, só pode ser feita tendo como base esse núcleo de evidências e exigências originais.22

A experiência elementar é afirmada por Giussani como a marca interior comum a todos os homens. Para além das diferenças culturais, de temperamento, personalidade e gosto, toda pessoa humana a possui. Faz parte, então, da estrutura original da natureza humana que, traduzida e vivida das mais diversas maneiras, é substancialmente a mesma.

Todo ser humano afirma, ainda que inconscientemente, um desejo de felicidade e, portanto, de justiça, de verdade. Poderíamos também dizer de amor, de beleza, de sentido, de ordem, isto é, um desejo de realização total e plena, pois uma felicidade autêntica, não se concretiza sem essas outras implicações.

Em outras palavras, o humano é exigência de infinito e, por isso mesmo, exigência de eternidade. Em um olhar atento ao nosso próprio eu em ação, à nossa própria experiência cotidiana, podemos reconhecer em nós esse desejo expresso no verso final de um poema de Adélia Prado: “Para o desejo de meu coração/ o mar é uma gota”.23

A exigência estrutural, em Giussani, identifica-se com o desejo, pois o finito se apresenta sem a plenitude de significado e a definitividade que poderiam aquietar o coração humano. A pessoa, então, experimenta o desejo como caráter exigencial de sua estrutura humana. É essa a centelha que move o homem singular: uma expressão do impulso de toda a humanidade. Encontramos também essa concepção em Guardini:

O meu ser tem um profundo desejo de realização. Posso defini-la de diversos modos: desenvolvimento, satisfação dos valores, plenitude, felicidade. Em cada caso esses conceitos buscam algo em direção a que se move o meu ânimo desejoso de significado. Não me chega estranho, do exterior, mas o meu ser é orientado em direção a ele e o antecipa com desejo. Não posso renunciar a ele, porque o sentido da minha existência depende disso.24

22 Luigi GIUSSANI, O senso religioso, p. 24. 23 Adélia PRADO, Poesia reunida, p. 187. 24

As exigências ou os desejos enraizados no profundo do nosso ser são, em seu conjunto, sentidos como evidentes, pois o eu os sente, percebe-os. Reconhecê-los, então, significa afirmar a existência de uma evidência original na estrutura humana. Podemos acrescentar o caráter finito da nossa vida como algo evidente, pois, ao olharmos para trás – não existíamos – e para frente – deixaremos de existir um dia – tomamos conhecimento de um fato indubitável e definitivo.

A própria vida é um exemplo de evidência. Ela nos é dada, não somos capazes de dá-la a nós mesmos. Ela está aí, é sentida, é perceptível, vivida. Somos, por assim dizer, arremessados nesse mundo. Vivemos aqui e agora, ou seja, encontramo-nos em um determinado lugar no mundo, delimitado pelo tempo e pelo espaço. E não sabemos porque aqui estamos e qual o seu sentido. De maneira simples sabemos que viver é o que fazemos, nossas ações, nossas escolhas; e isso requer decisões. Decidimos das pequenas coisas às grandiosas. Diante das escolhas, das decisões a serem tomadas, nascem as interrogações, as incertezas, o não contentar-se com as coisas. Portanto, viver consiste em compreender, em buscar a transparência de tudo que nos rodeia e de nós mesmos. Podemos afirmar, então, que é da natureza do homem buscar o saber, o querer conhecer – é um dado evidente.25

A experiência elementar é o impulso à realização total e plena. É um chamado de atenção que a existência dá ao ponto mais vital do homem: o coração. Esse é o critério fundamental para julgar a própria experiência, a circunstância, a cultura e as ideologias que nos cercam, “em vez de aplicar categorias e fórmulas que preconcebemos na nossa cabeça”.26

Um olhar atento à própria experiência em ação possibilita a descoberta de que a “necessidade é a premissa de toda a questão; não necessidade disto ou daquilo, mas de tudo”.27 Toda a questão da vida é percebida e sintetizada por essa necessidade, desejo e

exigência de tudo, de totalidade. É essa exigência de totalidade que define o coração do homem, onde se encontra a origem do indefinível incômodo, de uma inquietude sem fim e que nos faz sentir a vida como incompleta e fragmentária. A identificação da experiência elementar com o coração é explicada por Giussani como:

25 Cf. José ORTEGA Y GASSET, O que é a filosofia? p. 166-167; 203. 26 Hannah ARENDT, Responsabilità e giudizio, p. 31.

... algo que tende a indicar de maneira acabada o ímpeto original com o qual o ser humano se lança na realidade procurando identificar-se com ela por meio da realização de um projeto que imprima à própria realidade a imagem ideal que o estimula interiormente.28

O mesmo foi descrito acima por Guardini: o meu ânimo é direcionado a buscar o significado, que chega do exterior e não é estranho ao meu ser. Giussani, por sua vez, aprofunda essa visão, ao acentuar que o coração ou experiência elementar é o critério último de juízo com o qual a natureza lança o homem na comparação de tudo: qualquer tentativa de resposta deve responder a essa carência. A exigência de bondade, de justiça, de verdade, de felicidade, são constitutivas da natureza humana. Elas consistem na energia propulsora com a qual todos os homens de qualquer tempo e lugar se aproximam de tudo.

Podemos vislumbrar em Charles Taylor algo análogo, denominado de “hiperbens” intrínsecos à natureza humana, isto é, “bens que não apenas são incomparavelmente mais importantes que os outros como proporcionam uma perspectiva a partir da qual esses outros devem ser pesados, julgados e decididos”.29 Trata-se, portanto, de um critério capaz de proporcionar um juízo da experiência humana sobre o qual cada pessoa deve avaliar o real.

Acostumar-se a comparar tudo com a experiência elementar, para Giussani, significa um trabalho pessoal na descoberta de valores correspondentes a um crescimento maduro diante de uma mentalidade comum sustentada e propagandeada por quem detém o poder na sociedade. Por outro lado, idéias, opiniões e valores ocasionais podem influenciar e sedimentar-se sobre as exigências originais, formando uma espécie de barreira que encobre e altera a evidência daqueles critérios e significados primeiros.30

Essa postura também é defendida por Júlian Marías, que afirma a necessidade de uma “certeza radical, na qual toda certeza encontre seu fundamento; este caráter confere a essa certeza postulada certa universalidade, não por abarcar e compreender as demais, mas pelo fato de que todas se ordenem e se articulem em função da mesma”.31

28 Luigi GIUSSANI, O senso religioso, p. 26. 29 Charles TAYLOR, As fontes do self, P.90. 30 Cf. Luigi GIUSSANI, O senso religioso, p. 28-30. 31

É preciso, portanto, perfurar tais imagens induzidas pelo clima cultural no qual estamos imersos, julgar e avaliar cada proposta, cada sugestão existencial tendo como base as exigências e evidências originais, segundo Giussani.32 No contexto atual a necessidade de resgatar a experiência elementar como critério imanente à pessoa é de suma importância, pois o relativismo nos leva a uma postura de incertezas diante da vida e proporciona uma exaltação da subjetividade separada do dado real.

Por fim, o autor afirma que esse processo é um trabalho para a vida toda, uma tentativa de conhecer e resgatar o que de mais humano existe no homem.33 Assim, Maria Zambrano se expressa: “... debaixo das paixões, outras paixões mais fundamentais se escondem, e debaixo de todas, a paixão por ser. A grande paixão que obriga o homem a ser (...), quase como se fosse o prolongamento de um Deus que o criou para isso”.34

Um chamado de atenção à experiência em ação permite a descoberta dessas exigências, que podem ser abafadas pela cultura dominante, mas não eliminadas. Tudo o que o homem faz, seus erros e acertos, consciente ou inconscientemente, o faz na esperança de alcançar algo que corresponda a essas exigências.

A exigência de felicidade, de certa forma, resume todo esse complexo de exigências que define o homem. “É a grande envolvente de tudo o mais”,35 nas palavras de Marías. Esse desejo de felicidade como pano de fundo, nos move ininterruptamente.

Durante a vida nós experimentamos a felicidade de maneira fragmentária: nos relacionamentos íntimos, no nascimento de um filho, na profissão, em ocasiões especiais, etc. De qualquer forma, são momentos referentes a aspectos parciais, ocasiões de felicidades, iniciadas com esperanças de realizações dos vários objetivos que a pessoa almeja para si.

Uma atenção à própria experiência, indica-nos a existência de uma forma de felicidade superficial, pontual, passageira, efêmera, entendida pelo homem atual como momentos de felicidades e uma outra mais profunda, relacionada ao todo, de maneira incondicional, perfeita e acabada. É essa segunda forma que nos impulsiona e nos dá a

32 Cf. Luigi GIUSSANI, O senso religioso, p.28-30. 33 Cf. Ibid., p.28-30.

34 Maria ZAMBRANO, Persona e democrazia, p. 37. 35 Julián MARÍAS, A felicidade humana, p. 16.

esperança não de atingir somente objetivos pontuais e fragmentários, mas de encontrar aquilo que verdadeiramente dê unidade e corresponda às exigências primárias, elementares.

É para a busca desse nível mais profundo de felicidade que Giussani nos chama a atenção. Ou seja, a busca que nos confere uma esperança de realização não em aspectos parciais, mas de uma realização da totalidade enquanto homem, definitiva. Obviamente, para ele, a busca dessa felicidade está intrinsecamente ligada a todos os detalhes da realidade existencial do ser humano, aí compreendidas, também, as felicidades efêmeras.

Daí a insistência, por parte de Giussani, no chamado de atenção a olhar a própria experiência em ação, sem esquecer ou renegar nada, através de um compromisso com todos os aspectos da vida, procurando julgar e identificar na realidade aquilo que corresponde ao desejo último do coração.