acho errado enviar foto com rosto, acho errado o babaca divulgar isso.
JULGAMENTO DO OUTRO:
Relato– não importa o que te falem,
você é perfeita e vale sim muito a pena (sic); você é linda de qualquer jeito. Comentários – que forte e corajosa. Estamos contigo!; pessoas forte (sic) como você são minhas heroínas; se ela saiu ficando com todo mundo, se ela pega todo mundo, e daí? A vida é dela, ela faz o que quiser e ninguém tem nada a ver com isso (...) Outra: ela traiu o cara? Acho errado sim. Mas, de qualquer forma, não daria o direito de fazer “porn revenge”; esses homens que fazem isso não são homens, nem meninos, são pessoas desprezíveis, insignificantes que não merecem nem um tipo de sentimento além do desprezo!AUTOJULGAMENTO:
Relato – quem gosta de mim de verdade, gostaria de mim em qualquer circunstância; uma foto nua não dá título de puta, assim como a ausência dela não nos torna santos.Este é o primeiro dos casos relatados ao qual costumo denominar um “caso clássico” de pornografia de vingança: a mulher (ou menina) deixou-se filmar e/ou fotografar – ou enviou imagens – pelo, até então, parceiro (namorado, noivo, marido). Ela resolve romper com o companheiro por algum motivo e ele, inconformado com o término e numa forma de vingar-se, de demonstrar não conformar-se com o fim do relacionamento, divulga uma imagem da intimidade de ambos. Embora ele pudesse estar presente no momento da captura das imagens, normalmente ela é fotografada e/ou filmada pela perspectiva dele, ou seja, apenas o rosto dela está explícito.
Referencio como “caso clássico” por lembrar-me que nas primeiras matérias lidas por mim sobre pornografia de vingança, assim costumavam elucidar o motivo pelo qual aquela mulher, sobre a qual contavam a história, havia “caído na rede” (termo popularmente usado para se remeter às mulheres vítimas da revenge porn). Na jovem literatura a respeito da temática, não encontrei dados precisos sobre o início do uso ou origem do termo “revenge porn”, mas provavelmente este nome é dado ao passo que a divulgação das imagens íntimas de outrem (sem seu consentimento ou conhecimento) é considerada como um ato de vingança, de difamar o outro, um “lavar a honra” da contemporaneidade.
Sobre as categorias acionadas neste depoimento, mais uma vez há, na autorreflexão, a conclusão de ter cometido um erro: “todos erramos e somos dignos de perdão e respeito”. Ou seja, ainda que saiba quem foi responsável por compartilhar suas fotos, ela se arrepende de tê-lo feito, como se aceitasse as humilhações enfrentadas. Afinal de contas, a vítima passou por um medo generalizado depois da exposição não consensual. Ela diz: “Eu tinha medo de sair de casa, de entrar nas redes sociais, de conversas com as pessoas, medo até mesmo do bom dia de qualquer estranho na rua. Estremecia ao pensar que as pessoas, em primeiro lugar, me julgariam por ter meu corpo exposto, ao invés de se importar com quem eu realmente sou”.
Numa continuação do exame de consciência, na categoria “autojulgamento”, ela repensa a avaliação sobre si mesma: “quem gosta de mim de verdade, gostaria de mim em qualquer circunstância” e continua “uma foto nua não dá título de puta, assim como a ausência dela não nos torna santos”. A última frase nos traz a ideia da existência de duas personalidades femininas: as putas e as santas. Como se as mulheres vivessem exclusivamente dessa duplicidade. Como se existissem as boas
e as más, as corretas e as atiradas, as recatadas e as desavergonhadas, as que prestam e as que não prestam. Qualidades visivelmente relacionadas à sexualidade feminina:
Em sua maioria, as mulheres têm sido divididas entre as virtuosas e as perdidas, e as ‘mulheres perdidas’ só existiram à margem da sociedade respeitável. Há muito tempo a ‘virtude’ tem sido definida em termos de recusa de uma mulher em sucumbir à tentação sexual, recusa esta amparada por várias proteções institucionais, como o namoro com acompanhante, casamentos forçados e assim por diante (GIDDENS, 1993, p. 17).
Dando continuidade à análise, veremos agora o último dos depoimentos dados à fanpage. Entretanto, faço aqui uma ressalva, este depoimento não é completamente anônimo, já que a vítima permitiu às moderadoras do For You que divulgassem seu primeiro nome e sua idade, Skarllety P., 19 anos. Também sabemos, ao ler sua história, que aparentemente ela é de Formosa (mas não fica claro se Formosa em Goiás ou Santa Catarina). Estas são as únicas informações as quais temos acesso. Mas, este não é o detalhe excepcional desta postagem, a história de Skarllety também é diferente das anteriores. A jovem não teve foto ou vídeo seus divulgados, tratava-se de uma outra pessoa muito semelhante a ela fisicamente e, ainda assim, ela foi julgada. A postagem é de 6 de agosto de 2014 e também não possui comentários:
Skarllety procurou o For You buscando auxílio para sua situação. Mesmo tendo tentado obter recursos, ido à delegacia de polícia, provado não ser ela no vídeo, sofreu consequências que vítimas de pornô de vingança costumam enfrentar. Passado um ano do caso, a garota voltou a ser assediada. Vejamos na tabela de categorias (Quadro 4):
Quadro 4 – Análise do quarto relato anônimo
Ainda que a jovem não tenha sido realmente exposta, as reações descritas por ela não divergem de outras meninas. Ela diz ter sido a época