A professora Cora, responsável pela turma acompanhada durante a pesquisa, diariamente faz um cabeçalho na lousa, colocando local, data, o nome do aluno ajudante do dia e uma lista de rotinas a ser seguida, por exemplo: 1) Leitura, 2) Correção, 3) Ateliês, 4) Informática, 5) Lanche e 6) Artes. Esta tarefa inicial é uma forma de situar os alunos sobre as atividades que serão realizadas naquele dia. Na lousa, a professora também escreve as palavras “Meninos”, “Meninas”, “Total” e “Faltas” e o aluno responsável por auxiliar ela nos afazeres da sala contabiliza os alunos e preenche os espaços para cada um destes itens, enquanto as demais crianças copiam tudo que está sendo feito no quadro. Estas ações cotidianas têm como objetivo estimular nas crianças o treino da leitura, da escrita e das operações matemáticas básicas, de modo a demonstrar a importância dessas ações no dia a dia delas.
Na leitura dos textos, chama dois alunos para lerem cada trecho e interpretar teatralmente as falas dos personagens. Quando lê ou explica um conteúdo novo, solicita que eles questionem, tirem suas dúvidas, discordem e organizem suas ideias acerca do tema discutido, expondo o que pensam e entenderam sobre ele.
Inspirada na pedagogia Freinet10, todos os dias, Cora organiza a sala em
ateliês, isto é, atividades em roda feitas em grupos alternados de alunos, com a função de promover a integração, o aprendizado escolar, a autonomia e o desenvolvimento de cada um. Durante toda a semana, há um conjunto de ateliês organizados em fichas individuais, nas quais cada aluno preenche em qual já foi e qual irá, visando cumprir o seu objetivo de aprendizado. Nestes cartões constam os dias da semana, os tipos de ateliês feitos, o que precisam melhorar e quais objetivos pretendem alcançar, como um modo de autorreflexão sobre o ensino e de ajuda ao aluno na escolha do ateliê que melhor responda a suas demandas para aquela semana. Nesta ficha também há um espaço para que a professora e os pais de cada criança possam preencher conforme percebam alguma
10 Célestin Baptist Freinet foi um pedagogo francês (1896-1966) que almejando modificar os métodos de ensino utilizados nas escolas de sua época, propõe um trabalho em sala de aula dividindo-a em grupos de alunos – os chamados ateliês. Neles ocorriam variadas práticas, nas quais os alunos trabalhavam, por exemplo, a Escrita a partir de textos livre, ou digitação de textos; a Matemática com o “fichário autocorretivo”, a “problemoteca”, ou jogos; entre outras atividades propostas em que os estudantes são os atores principais, desenvolvendo a mediação do conhecimento entre eles e o educador (BUSCARIOLO, 2015).
necessidade de aprendizado específica. Nos dias em que estive presente, ocorreram diversos tipos de ateliês, sendo que os seguintes me chamaram a atenção: a Ficha de Matemática (folha com diversos exercícios de soma e multiplicação), o Texto Livre (espaço para os alunos escreverem uma estória tematizada pela professora), a Leitura (ateliê fora da sala de aula, no qual os alunos escolhiam livros infantis, dentre os dispostos em uma caixa), o Jogo Nota 10 (desafio de somar as quantias de notas de “dinheiro” dadas a cada um).
Na entrevista concedida à pesquisa, a professora Cora defende que, para haver um bom trabalho com ateliês, é importante as salas não terem tantos alunos, de modo a ser possível dar uma atenção diferenciada, e ter, se possível, um ajudante ou um estagiário para dividir as tarefas, assim como ocorre na turma lecionada. Segundo ela, os métodos de Freinet contemplam sua prática no sentido de os alunos não terem que realizar as mesmas atividades em tempo simultâneo, visto que, como possuem diferentes ritmos, conseguem respeitar o momento de cada uma das crianças nos diversos ateliês disponíveis. Cora também reconhece nesta prática a possibilidade de trabalhar a linguagem de modo não mecânico, pois a utiliza de acordo com a sua verdadeira função, a comunicativa, trazendo sentido ao ensino difundido. E, mesmo dentro do ateliê, cada um faz a atividade a seu tempo, sem se comparar ou se sentir comparado ao outro no grupo. A professora também relata a importância do trabalho em grupo, como, por exemplo, numa atividade de roda em que os alunos estão olhando olho no olho, discutindo, trabalhando em pares. Dessa forma, o professor consegue acolher e ouvir melhor as demandas e opiniões do aluno, afirmando o papel fundamental que a coordenação e gestão da escola também desempenham nessa causa.
Um fator que auxiliou no desenvolvimento da nossa proposta foi o fato de a professora Cora fazer atividades em grupos de alunos a partir dos ateliês de diferentes temas, baseados na perspectiva de Freinet. Ela se mostrava focada em contribuir no processo de desenvolvimento da autonomia dos alunos, para além da aprendizagem escolar. Neste mesmo sentido, ela defendia a todo instante uma postura democrática, com a participação dos estudantes em todas as ações escolares. Ou seja, havia a oportunidade de eles falarem ou opinarem, de maneira organizada, sobre cada assunto ou debate levantado na aula. A realização disso se dava por meio de um acordo já firmado entre
todos de erguer o dedo, indicando a intenção de dizer algo e de ganhar o direito a palavra. Assim, percebeu-se que a professora proporcionava um ambiente de parceria e compartilhamento, no qual as crianças, além de poderem dar a opinião em diversos temas, podem participar do próprio processo de ensino. Dessa maneira, o investimento em atividades grupais permite que os alunos auxiliem uns aos outros e possam refletir acerca do aprendizado atual e da forma como é possível melhorar de modo a investir em seu desenvolvimento. Tais elementos foram essenciais para a pesquisa realizada, já que o trabalho exercido pela professora facilitou a contextualização e a efetivação das atividades de intervenção. Além disso, ela demonstrou ser muito receptiva, dando espaço para as intervenções necessárias, disponibilizando os materiais utilizados em aula, tirando dúvidas sobre procedimentos realizados por ela em sala e nos incluindo em todas as atividades desenvolvidas naquele semestre.
Sobre as avaliações de seus alunos, Cora argumenta que, pela pedagogia do Freinet, ela não precisa esperar uma prova final ou o encerramento do ano para saber como cada um progrediu. O panorama de desenvolvimento dos alunos se dá no decorrer deste processo, a partir de cada atividade acompanhada. Ao concluir uma tarefa proposta, como, por exemplo, a escrita de um texto, a criança lerá sua produção a todos da sala e, ali mesmo, a professora consegue analisar o andamento do aprendizado. Esta visão também sustenta a nossa posição de compreender o processo de aprendizado e desenvolvimento do aluno em contrapartida à espera de um produto específico formulado pelo mesmo, como uma resposta correta em uma avaliação determinada11.