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ele; algum amigo pegou o cel (sic) dele, se mandou e a foto espalhou; em relação ao culpado da história, eu fiz a escolha de não colocar a culpa em ninguém e ficar em paz; o menino errou ao tirar a foto quando eu estava inconsciente; todo mundo que espalhou a foto foi extremamente desrespeitoso; vadia é quem não tem caráter e não pensa nos outros.

VIOLÊNCIA: Relato – violência virtual.

JULGAMENTO DO OUTRO: Relato – metade dos meninos que eu convivo, não namorariam uma menina por ela ser ‘fácil’, dar pra muitos, ser atirada; anormal é espalhar a intimidade do outro ou ter preconceito com quem faz o que quer com o próprio corpo; quem te humilha (...) não é pessoa que mereça seu respeito; você que já espalhou fotos/vídeos íntimos de outras pessoas, que acha legal compartilhar (...) para AGORA!; pra mim, vadia não é quem faz o que tá com vontade com o próprio corpo.

AUTOJULGAMENTO: Relato – extremamente vergonhoso;

constrangedor; sou muito feliz e depois de quase 1 ano dessa história quase não lembro mais dela; eu também errei por ter chegado a esse nível de embriaguez; acho que se eu tivesse ficado procurando culpados, seria pior; fazer sexo, tirar foto pelada, é normal; pode parecer pelo meu texto que eu ache que só tem problema se isso acontecer com menina, claro que não,

para ambos os sexos é horrível, só acho que a mulher sofre mais preconceito, pro homem é, infelizmente, mais aceitável.

DESCONHECIMENTO:

Relato – não lembrava de nada; não sabia direito o que tinha acontecido; não tinha ideia que existia uma foto minha pelada; nunca tinha tirado foto nenhuma; sabia que a única vez que fiquei pelada e não lembrava foi daquela vez.

Há semelhanças entre o primeiro e o segundo relatos, como as reações ao saber ter “caído na net” e aos julgamentos públicos. Em decorrência do autojulgamento e do julgamento de si mesma, ela chama atenção de outras meninas que possam passar pelo assédio: “você vai se sentir nojenta e humilhada”.

Ainda que pareça não se importar com as consequências da pornografia de vingança, a jovem deste relato traz posicionamentos e sentimentos contraditórios, perceptíveis em determinadas passagens. Ela afirma ser muito feliz, passado um ano do episódio traumatizante, mas diz ter medo que algum menino a rejeite por conta da foto vazada. Segundo o depoimento, a garota fez a escolha de não creditar a culpa a ninguém, mesmo tendo procurado o parceiro que a fotografou, e justifica seu posicionamento como uma forma de “ficar em paz”.

Ela credita a responsabilidade a este garoto, mas ao mesmo tempo faz seu autojulgamento: “Em relação ao culpado da história, eu fiz a escolha de não colocar a culpa em ninguém e ficar em paz. Sim, o menino errou ao tirar a foto quando eu estava inconsciente. Sim, todo mundo que espalhou a foto foi extremamente desrespeitoso. E sim, eu também errei por ter chegado ao nível de embriaguez que cheguei”

Embora a vítima reconheça o absurdo da exposição indevida e a responsabilidade do agressor, ela acaba por também se reconhecer como responsável, pelo que ela imagina ser uma maneira de “favorecer” a ação de seu agressor. Embora esta ideia possa soar machista, entendo que afirmar a mea culpa dessa vítima, calcada no que leu e escutou de outros, nos estigmas recebidos e num machismo incrustado há séculos na sociedade, retira a agência desta mulher. Aqui, ela avalia sua embriaguez como algo errado e, consequentemente, passível de ser punido. Uma punição que pode vir pelo seu exame de consciência:

se sou meu próprio dono, sou também meu próprio obstáculo, o único responsável pelos reveses ou alegrias que me cabem. Esta é a

consciência, infeliz, do homem contemporâneo: diante de qualquer derrota, entregar-se à autocrítica, ao exame de consciência, fazer a lista das falhas, dos erros, e chegar à mesma constatação – é minha culpa! (BRUCKNER, 1997, p. 34).

É claro que nos casos de revenge porn, essas culpas ultrapassam o simples dilema do “homem” contemporâneo, ela é o problema das “mulheres” contemporâneas, assim como foi problema da mulher da modernidade, do passado... a culpa por sermos mulheres, com capacidades, ações e sexualidades vigiadas e questionadas. Simone de Beauvoir (apud BUZZI, 2015, p. 21) enfatiza que “a iniciação sexual da mulher e do homem é profundamente diferente. Assim, mesmo que sinta, pense, deseje, a moça não deve jamais demonstrar interesse sexual. O recato e a virgindade são imposições inquestionáveis, e uma garota sexualmente ativa é depreciada pelos próprios rapazes que a buscam”. Na Figura 5, a jovem diz “até hoje sofro com medo de algum menino me rejeitar”. Ou seja, ela mesma se deprecia com o pensamento de que fez algo errado e de que um rapaz somente a aceitaria se ela não estivesse nua em uma fotografia. Sem se atentar, ela cede ou deve ter apreendido desde muito menina onde está o valor da mulher para o homem, no recato, numa postura quase casta.

Neste sentido, a garota do último depoimento escreve: “tenho consciência que metade dos meninos que eu convivo não namorariam uma menina por ela ser ‘fácil’, dar para muitos, ser atirada. E isso é triste”. Os adjetivos trazidos por ela, para descrever uma menina livre em sua sexualidade, são visivelmente fruto de um julgamento permeado de machismo. Ela mesma aciona as diferenças entre as sexualidades masculina e feminina ao fim de seu depoimento: “pode parecer, pelo meu texto que eu ache que só tem problema se isso acontecer com menina, claro que não, para ambos os sexos é horrível, só acho que a mulher sofre mais preconceito, pro homem é, infelizmente, mais aceitável”.

Mais adiante falarei sobre como a revenge porn tem sido um fenômeno percebido enquanto “violência de gênero”, mas pretendo dar continuidade às análises das postagens especificamente. No terceiro relato postado pelo For You, em 21 de julho de 2014, a categoria “violência” não se repete no enunciado:

Este foi o relato que alcançou o maior número de comentários, 12 no total. Por motivo não exposto, as moderadoras do For You postaram um coment no qual diziam: “NENHUM comentário de ódio será tolerado. Não deixaremos sua opressão ser mascarada de opinião. Não aqui. Beijos, adms”. Decerto, algum comentário com essas características foi feito, mas imediatamente excluído pelas administradoras. Após o alerta, os seguintes comentários acerca do depoimento acima:

Após ler este aviso do For You, comecei a me atentar para o fato de não ter percebido nenhuma opinião contrária às militâncias da fanpage nas postagens. Se houve, devem ter sido prontamente retiradas. Talvez

porque o objetivo da página, e isto está claro desde o princípio, seja o auxílio às mulheres vítimas de pornô de vingança e não dedicar-se a discussões com quem ainda pudesse questionar as culpas ou a sexualidade das mulheres. Retornando à análise de categorias, neste post foram quatro as categorias localizadas (Quadro 3):

Quadro 3 – Análise do terceiro relato anônimo e comentários

VÍTIMA:

Relato – vítima; espalhou diversas coisas negativas sobre mim; diversos grupos no Whatsapp, perfis no Facebook e Instagram exibindo a minha foto e me humilhando; foi horrível; medo de sair de casa, de entrar nas redes sociais, de conversas com as pessoas; medo até mesmo do bom dia de qualquer estranho na rua; estremecia ao pensar que as pessoas (...) me julgariam por ter meu corpo exposto; choque inicial é a pior parte; o tempo sempre nos cura e nos fortalece.

CULPADO: Relato – todos erramos e somos dignos de perdão e respeito.