3. Observations développementales
3.4. Observations méthodologiques
Uma classificação das ocorrências do verbo dar no português brasileiro é encontrada em Rassi e Vale (2013). Fundamentam-se no Léxico-Gramática, modelo teórico-metodológico associado, segundo os autores, a Maurice Gross. De acordo com essa teoria, cada item lexical possui uma gramática própria:
[...] os elementos lexicais podem se combinar gramaticalmente de formas bastante específicas nas línguas, ou seja, nem todo item lexical pode ocupar qualquer posição sintática, devendo adequar-se a determinadas restrições semânticas que a sintaxe lhe impõe, e a restrições sintáticas impostas pela semântica.
A proposta de classificação segue uma análise sintática e semântica de construções com o verbo dar. O resultado descritivo é uma tipologia constituída de seis categorias: verbo pleno, verbo-suporte, verbo causativo, construção gramatical, expressão fixa e provérbio.
À primeira categoria (verbo pleno) pertencem as ocorrências em que o verbo dar indica (i) transferência de um objeto concreto de um sujeito agente a um benificiário, (ii) um acontecimento/ evento/ ocorrência, ou (iii) um resultado numérico.
A segunda categoria (verbo-suporte) é diferenciada em relação à anterior por indicar a transferência de entidades abstratas (informações, conceitos e valores, por exemplo).
Sintaticamente, a distinção fundamenta-se na quantidade de argumentos exigidos pelo predicado: o verbo pleno dar exige três argumentos – agente, objeto dado e beneficiário –, enquanto o verbo-suporte, sendo analisado como parte de um predicado complexo (como em
dar uma informação (RASSI; VALE, 2013, p. 113)), exige apenas dois argumentos – o sujeito
agente e o beneficiário. Rassi e Vale (2013) fazem uso do termo verbo-suporte (e não verbo leve), explicando que a forma verbal dar “serve, de fato, para suportar as marcas verbais de tempo, modo, pessoa e aspecto, as quais não podem ser marcadas no nome predicativo” (p. 114).
A terceira categoria é a de verbo causal. Os autores (RASSI; VALE, 2013) compreendem uma proximidade dessa categoria com a de verbo-suporte, mas observam, aqui, o sentido de causa atrelado ao verbo dar. As ocorrências classificadas nessa categoria são transformações de orações básicas, como Ana ter sede => O exercício físico dá sede em Ana (RASSI; VALE, 2013, p. 115). São três as classes pertencentes a essa categoria: (i) a classe das doenças, (ii) a classe dos sentimentos, sensações e emoções e (iii) a classe das atribuições ou características.
A quarta categoria é a de construção gramatical. Aqui estão incluídas “expressões constituídas por uma sequência sintática relativamente fixa”. São apontadas duas construções: (i) dar para, que pode ter sentido modal (ser possível), incoativo (começar a), de suficiência e de direção; e (ii) dar de, com o sentido de oferecer.
A quinta e sexta categorias são as de expressões cristalizadas e provérbios, respectivamente. Uma expressão é classificada como cristalizada quando seu significado não é obtido mediante a soma total de suas partes; ademais, são expressões que apresentam pouca mobilidade de suas partes. Os provérbios são distinguidos pela quantidade de informação: “a EC [expressão cristalizada] substitui uma palavra ou um sintagma numa frase, enquanto o provérbio é dotado de uma proposição completa” (RASSI; VALE, 2013, p. 126).
O Quadro 7 apresenta cada uma das seis categorias seguidas de exemplos retirados do próprio texto de Rassi e Vale (2013).
Quadro 7 – Proposta de classificação do verbo dar no português brasileiro Categoria do verbo dar Exemplos
1 Verbo pleno a. Transferência de objeto
A Lourdes, psicanalista, deu um computador à sobrinha. b. Acontecimento/evento/ocorrência
Os seguranças tentaram separar e deu uma confusão. c. Resultado numérico
Dois e dois nunca dá cinco.
2 Verbo-suporte Alessandro Cambalhota deu conselhos ao atacante Maurides. 3 Verbo causativo a. Classe das doenças
Comer sal dá pressão alta. b. Classe dos sentimentos
Elogios lhe dão alegria.
c. Classe das atribuições ou características O advogado deu celeridade ao processo. 4 Construção gramatical a. Construção dar para
a. Sentido modal
Através dele dá para descobrir o jeito da pessoa. b. Sentido incoativo
Essa molecada carioca deu para aterrorizar o Rio. c. Sentido de suficiência
20kg dá para 20 soldados em combate e ainda sobra. d. Sentido de direção
Jantar no terraço do hotel, que dá para os jardins, é um prazer.
b. Construção dar de
Se tem gente com fome, a gente dá de comer. 5 Expressão fixa Deu a louca em secretários de Ilhéus e Ibirataia.
6 Provérbio O desmiolado que arremessou a lata de cerveja na cabeça de Luxemburgo deu o tapa e escondeu a mão.
Fonte: O autor (2019), baseado na classificação e em exemplos de Rassi e Vale (2013).
Analisando o estudo de Rassi e Vale (2013), observa-se um modelo de descrição que resulta em uma “lista” de significados do verbo dar, com cada significado associado a um conjunto de formas de organização estrutural da oração. Com a cuidadosa observação de que o trabalho de Rassi e Vale (2013) segue um modelo teórico-metodológico direcionado a uma descrição refinada dos vários sentidos do verbo dar, a ideia de lista é encontrada, também, em dicionário, como se percebe em consulta ao verbete dar no Dicionário gramatical de verbos do
português contemporâneo do Brasil, de Borba (1990, p. 364-368).
Uma consequência dessa descrição em forma de lista é o não reconhecimento das relações de dependência entre os diferentes sentidos realizados pelo verbo dar. Isso implica uma descrição em que processos semelhantes, distintos pelo grau de refinamento, são dispostos em classes diferentes, como acontece com as orações Os seguranças tentaram separar e deu uma confusão e Comer sal dá pressão alta, classificadas, respectivamente, como verbo pleno e verbo causativo. Da mesma forma, implica uma descrição em que processos diferentes são
dispostos em uma mesma categoria, como A Lourdes deu um computador à sobrinha e Dois e
dois nunca dá cinco, ambas classificadas sob a categoria de verbo pleno.
Um ponto crucial da descrição proposta na presente tese é a observância às semelhanças, diferenças e dependências entre os sentidos das orações com dar no sistema de TIPO DE PROCESSO, sistema esse elucidativo da construção da experiência no português brasileiro. Aqui faz-se valer o pensamento sistêmico (conferir Capítulo 2), evitando-se, por consequência, a “listagem” de categorias.