3. Observations développementales
3.3. Discussion concernant les différences inter-linguistiques
gramatical, e reconhecendo que, na proposta desta tese, são recorrentes orações metafóricas
com o verbo dar, é importante saber qual a forma congruente de uma oração como Eu vou dar
uma descansada (bfammn10). Afinal, como aponta Halliday (1994), o pressuposto é o de que
para cada expressão metafórica há uma outra correspondente que seja congruente. O correlato mais evidente dessa oração seria Eu vou descansar. No entanto, como se percebe a não completude do processo descansar, uma outra realização congruente poderia ser Eu vou
descansar mas não vou descansar muito bem. Para validar essa segunda forma congruente,
deve-se considerar que o grupo nominal uma descansada encapsula, além do processo, também o sentido não muito bem.
Figura 32 – Alternativas de formas congruentes
Fonte: O autor (2019).
Aqui, no entanto, adota-se como forma congruente a primeira. Considerar a segunda expressão seria querer uma forma congruente com o mesmo sentido, e essa tarefa poderia ser dificultada em alguns casos, como em deu um empurrão. Prefere-se adotar o pensamento de que a natureza da metáfora é “enfatizar e suprimir vários aspectos da experiência, o que implica dizer que a transferência exata é extremamente improvável” (RAVELLI, 2003, p. 46).
Considerando o Quadro 4 (p. 64) extraído de Halliday e Matthiessen (1999), percebe- se que as construções metafóricas envolvendo o uso do verbo dar fazem uso dos tipos 2 e 12. Isso pode ser atestado por meio do exemplo anterior em que o processo descansar é representado como coisa (processo => coisa – que implica, gramaticalmente, a mudança de função Processo => Ente e a mudança de classe verbo => nome) e é implementado o processo
dar (Ø => processo).
Um ponto, no entanto, deve ser considerado com relação às orações metafóricas aqui analisadas. Nesse tipo de metáfora apenas parte da figura é reconstruída como participante, como pode ser atestado na comparação das reescritas da oração eu vou descansar (Corpus Brasileiro), na Figura 33:
Figura 33 – Metáfora gramatical de parte da figura
Fonte: O autor (2019). Oração eu vou descansar extraída do Corpus Brasileiro.
Nesse caso, o participante Eu não compõe o participante uma descansada; para haver uma composição metafórica da oração congruente em questão em que a figura fosse totalmente representada como um elemento participante, dever-se-ia ter algo como Meu descanso futuro. Em razão das construções metafóricas com o verbo dar não envolverem a reconfiguração da figura como um todo, fazem parte do que Halliday e Matthiessen (1999) classificam, conforme o Quadro 5 (p. 65), como figura com processo ==> figura com processo como coisa (ou seja, da figura, o processo necessariamente é coisificado; a figura não é transformada, por completo, em elemento (figura ==> elemento), como é o caso do exemplo Meu descanso futuro). (Se fosse considerada a segunda forma congruente apontada na Figura 32, ter-se-ia mudança de sequência para figura; aqui, no entanto, não haveria uma explicação coerente para a forma metafórica assumida pela conjunção mas nem pela circunstância não muito bem.)
Ravelli (1988), ao analisar um conjunto de textos a partir de uma classificação própria de metáforas, confirma a hipótese de que textos pertencentes à modalidade falada são gramaticalmente intrínsecos, enquanto aqueles pertencentes à modalidade escrita são lexicalmente densos (ou seja, possuem um número maior de itens lexicais por oração). No entanto, a autora desconsidera, em sua análise, alguns casos com a configuração transitiva Processo + Extensão, como make a mistake (cometer um erro) e take a walk (fazer uma
andada), argumentando que estas são “metáforas mortas” (RAVELLI, 1988, p. 142), o que
implica dizer que já foram absorvidas pela língua inglesa e, portanto, são as formas típicas de realizar tais significados81 (Halliday e Matthiessen (1999, p. 270), por seu turno, nomeiam tais construções como “completamente codificadas”). Ravelli (1988) conclui que no modo escrito é mais comum a representação de processos como participantes, evitando-se, desse modo, a complexidade gramatical, que necessitaria do uso dos sistemas de orações complexas.
A fim de que o objeto desta tese fique devidamente entendido e localizado no quadro de estudos da metáfora gramatical pela LSF, veja-se que orações metafóricas com o uso do verbo
dar se diferenciam do que é privilegiado pela autora, pois é um fenômeno também característico
da modalidade oral e não envolve a ação de encapsular duas ou mais orações em uma única oração.
3.5 Considerações do capítulo
Neste capítulo, apresentou-se, inicialmente, a forma como o conceito de metáfora gramatical é caracterizado teoricamente por Halliday a partir da segunda publicação do livro
An introduction to functional grammar, bem como a maneira como o mesmo autor analisa e
classifica as metáforas até trabalhos mais recentes (HALLIDAY, 1998; HALLIDAY; MATTHIESSEN, 1999). Foram vistos, ainda, trabalhos de outros autores que discorrem sobre o tema: Ravelli (1988, 2003), que prioriza a ideia de composto semântico (realização lexicogramatical metafórica sendo composta por duas ou mais opções semânticas), e Heyvaert (2003), que defende a descrição de construções metafóricas formadas por nominalização a partir da identificação de conjuntos de agnatos.
O capítulo ainda evidenciou os três modelos usados para a representação da metáfora gramatical: (i) o modelo em tabelas compostas pelas funções da forma metafórica e da forma congruente, (ii) o modelo em diagramas com sistemas interligados por setas e (iii) o modelo em
81 Em Ravelli (2003), a autora expressa a dificuldade existente em dizer se uma metáfora é ou não morta, reconhecendo, portanto, a simplicidade com o qual o tema havia sido tratado em Ravelli (1988).
redes de sistema. Quanto ao terceiro modelo (para o qual, inevitavelmente, o segundo objetivo desta tese nos guia), percebeu-se seu não uso por parte de Halliday (1994, 1998) e Halliday e Matthiessen (1999, 2004) e a dificuldade de representação demonstrada por Ravelli (1988, 2003) e Taverniers (2003).
Neste capítulo também recorremos a algumas orações que fazem parte do nosso objeto de estudo e, com isso, atingimos dois propósitos: (i) exemplificamos a teoria e (ii) tivemos um primeiro contato, aos olhos da LSF, com as orações metafóricas constituídas da forma verbal
dar. Essa recorrência esteve diluída ao longo do capítulo, mas ainda reservamos a seção final
(3.4) para melhor localizar as orações metafóricas com o verbo dar no quadro geral apresentado com base na LSF. Com isso, temos já uma introdução que nos torna conhecedores e nos orienta para a análise e a descrição propostas no Capítulo 7.
No capítulo seguinte, serão apresentados alguns trabalhos dedicados ao estudo do verbo
dar. Essa apresentação será relevante não somente para que haja um entendimento de orações
com dar em outras perspectivas teóricas, como também para situar esta tese, demonstrando sua contribuição a partir da descrição baseada na LSF.
4 ESTADO DA ARTE
Neste capítulo são abordados alguns estudos dedicados ao verbo dar. As duas seções iniciais apresentam duas propostas de classificação do verbo dar: a primeira é a de Rassi e Vale (2013) e Rassi (2015), que propõem uma classificação abrangente das construções com dar a partir da teoria do Léxico-Gramática; a segunda é a de Tucker (2014a), que apresenta um estudo preliminar sobre a variação de sentidos do verbo dar fundamentando-se na LSF (em especial uma “variante” (FAWCETT, 2000) da LSF, denominada Gramática de Cardiff). A terceira seção discorre sobre a subclasse dos verbos leves. A quarta e última seção resume o estudo de Scher (2004), que segue a teoria gerativa na abordagem da construção dar uma -ada. Com este capítulo, o propósito é não apenas ter um conhecimento de alguns trabalhos já desenvolvidos em torno do verbo dar, como também, por consequência, distinguir a proposta de estudo sistêmico-funcional evidenciada nesta tese.