Chicxulub structure
III- 3-4-1 Nannofossiles calcaires
A taipa de pilão é um sistema onde as paredes são maciças e constituídas de barro socado, sendo sua espessura, em geral, superior a 40 cm. A técnica de execução consiste em armar formas de madeira, denominadas taipais, onde é inserido o barro. Em seguida, o barro é comprimido a pilão de modo que a camada de barro seja reduzida e a massa ganhe consistência. Os taipais se sucedem verticalmente, alcançando toda a extensão da construção (VASCONCELLOS, 1979).
Um dos tipos de taipa de pilão é a chamada “Formigão”, onde o barro não é peneirado e é misturado com pedregulhos maiores e menores, formando um aglomerado semelhante ao concreto (VASCONCELLOS, 1979, p. 21). Este mesmo autor comenta que em Diamantina, essas pedras “in natura” recolhidas dos rios ou dos próprios locais de construção, são
chamadas de “piruruca”. Oliveira (2005) argumenta que a taipa de formigão definida por Vasconcellos, tem a característica fundamental da presença de fração grossa de solo na composição, que difere do tratado de fortificações do Brigadeiro Diogo da Sylveira Vellozo, onde ele explica que a característica fundamental deste material era a presença de cal. Também Burton, chegando a Barroso, distrito de Barbacena, passa a noite em um estabelecimento que ele descreve como um rancho:
[...] “Essencialmente, é um telheiro comprido, tendo, às vezes, na frente, uma varanda de postes de madeira ou colunas de tijolos, e outras vezes com paredes externas e mesmo com compartimentos internos, formados de taipa, isto é, armações de madeira cheias de barro”. (BURTON, 1976, p.100 e 101)
O autor aqui descreve em uma nota o termo taipa, como sendo:
“O pisé da Bretanha e o “puddle” da Inglaterra, encontrado, via Daomé e Sind, etc., até a Austrália. A maneira da execução é quase a mesma, em toda a parte e não a descreverei, portanto. Quando o barro seca, e contém pequenos seixos de quartzo, constitui uma boa parede. Sempre exige, no entanto, ser bem rebocada, e protegida por largos beirais, para proteção contra chuva, e de um alicerce de pedra ou tijolo, para evitar que a umidade do solo desgaste sua base”. (BURTON, 1976, p.100 e 101)
Burton (1976) descreve a taipa como sendo uma técnica construtiva definida como uma armação de madeira cheia de barro. Entretanto, essa descrição também se enquadra no conceito das vedações de pau-a-pique, não podendo se afirmar que a técnica identificada pelo viajante, era realmente a taipa. Ampliando-se a análise para as notas de rodapé, onde o autor define comparativamente o termo taipa com o pisé e o puddle, é possível constatar que provavelmente a técnica visualizada realmente tenha sido a taipa.
Em Minas Gerais, essa técnica foi utilizada na construção de igrejas e algumas residências, porem de forma bem mais restrita que em outras regiões, como São Paulo e Goiás, como referenciado por Mawe (1978) em sua descrição da cidade de São Paulo, no ano de 1807 e 1808, que relata existirem numerosas praças, e lugares de devoção, como conventos, mosteiros e igrejas, muitos dos quais construídos em taipa. Segundo o viajante, essa técnica é executada da seguinte maneira:
“Erguem-se as paredes da seguinte maneira: constrói-se um arcabouço com seis pranchas moveis, justapostas, e mantidas nessa posição por meio de travessões, presos por pinos móveis e vigas, à medida que avança no trabalho. Coloca-se o barro em pequenas quantidades, que os trabalhadores atiram com pás, umedecendo-o, de quando em quando, para dar-lhe maior consistência. Cheio o arcabouço, retiram o excesso, e prosseguem na mesma operação, até rebocar todo o madeiramento da
casa, tomando-se cuidado de deixar espaços para as janelas, as portas e as vigas. A massa, com o correr do tempo, endurece; as paredes, perfeitamente lisas na parte interna, tomam qualquer cor que o dono lhes queira dar e são, em geral, ornadas com engenhosos enfeites. Esta espécie de estrutura é durável; vi casas assim construídas que resistiram duzentos anos e a maioria tem várias histórias. Os telhados constroem-se de modo a projetarem-se dois a três pés além da parede, fazendo com que a chuva corra distanciada da base [...] mas embora a região ofereça excelente argila, e lenha em quantidade, raramente cozinham os tijolos”. (MAWE, 1978, p.63,64)
A descrição deste autor sobre a execução da taipa demonstra um conhecimento e uma proximidade maior com a técnica, em função da riqueza de detalhes que o relato oferece ao leitor, sendo provável que este tenha presenciado a execução da mesma. Neste relato é interessante a descrição dos taipais e dos pinos e travessões de fixação dos mesmos. As pesquisas e práticas contemporâneas desta técnica de construção mostram como é estratégica esta fixação das formas para a boa execução da taipa. Outro aspecto de importância crucial na execução da técnica revelado pelo autor é a colocação da terra em “pequenas quantidades”. Grandes camadas de barro não permitem a correta compactação das mesmas e podem levar ao comprometimento de toda a estrutura.
Curiosa é a colocação de Mawe com relação ao uso da argila e da lenha que, apesar da abundância e da qualidade dos materiais, estes não são usados para a fabricação de tijolos. A tônica do autor sobre o texto, revela a provável admiração do uso de técnicas construtivas com terra crua, sendo que haviam condições favoráveis para que fossem utilizados os tijolos cozidos, assim como na Inglaterra.
5.2.2 ADOBOS
Segundo Vasconcellos (1978), os “adôbos” são tijolos de barro, que são compactados manualmente em formas de madeira e postos a secar na sombra e depois ao sol, devendo o barro conter uma quantidade de areia, fibras vegetais ou estrume de boi para que se tenha consistência. O assentamento e o reboco são feitos de barro, podendo receber reboco de cal e areia.
Bardou (1979) define esta técnica como sendo a fabricação de tijolos através da utilização de solo, selecionado pelos antigos construtores por sua composição arenosa, que são moldados em fôrmas de madeira e secos diretamente ao sol ou a sombra por algumas
semanas. O viajante Richard Burton, em sua descrição da cidade de Barbacena, relata sobre as casas:
“O material de construção favorito é o bem conhecido adobe, o tijolo secado ao sol de México e Salt Lake City; em Minas, é uma massa de barro, pesando uns 15 quilos. Alguns moradores têm, em suas casas, alicerces de pedra, para impedir que a umidade e as chuvas acabem provocando o desmoronamento de tais massas de barro, não levadas ao forno e arrastando-as. O beiral das casas projeta-se para a frente desmesuradamente”(BURTON, 1976, p.85).
O adobe é caracterizado pelo viajante como uma técnica conhecida, que segundo a descrição exige detalhes arquitetônicos, como os “alicerces de pedra” e a projeção do beiral, em vista da sua suscetibilidade a deterioração frente às intempéries. Entretanto, Saint- Hilaire (1975), em sua descrição da Vila do Fanado, demonstra um desconhecimento da técnica, quando ressalta que os “paralelepípedos de barro” são chamados de “adobe ou adôbos” e faz uma descrição do processo executivo.
“Não se constrói em Vila do Fanado como nas partes da província que até então percorrera [...]. As paredes são feitas de paralelepípedos de barro batido com a erva e que se põe a secar ao sol. Esses paralelepípedos têm o nome de adobes ou adôbos” (SAINT-HILAIRE, 1975, p. 222).
George Gardner, naturalista escocês que chegou ao Brasil em 1836 e aqui permaneceu até 1841, descreve a Vila das Almas, situada em um recôncavo como “consiste de poucas ruas irregulares, com casas baixas e de mísero aspecto, feitas de grandes tijolos crus, de barro misturado com grama aparada e secados ao sol”. (GARDNER, 1975, p. 151). O viajante, descreve a técnica construtiva, de modo que seja possível identifica-la como sendo o adobe, porém essa não é nomeada no texto. E novamente, ocorre uma associação entre a técnica construtiva e a indigência das edificações caracterizadas como “baixas e de mísero aspecto”.
Ao contrário das afirmações de Vasconcellos (1979) os relatos insistem nos adobes secos ao sol. Em Mali, África, constatamos também que esta é a forma de execução usada contemporaneamente neste país. Digna de nota é também a observação feita por Saint- Hiaire (1975) da adição de “erva” que realmente melhora a qualidade executiva dos adobes diminuindo as suas trincas devido à retração.