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6.2 Mod`eles et mesures pour les r´eseaux complexes

6.2.4 Modularit´e

Moscovici [2000] descreve a objectivação como sendo a forma como um indivíduo selecciona certas peças de informação que julga serem significativas, as transforma em imagens relevantes, que embora sejam menos informativas, são melhores instrumentos de compreensão.

Ainda segundo Moscovici [2000], uma experiência desconhecida causa nos grupos sociais uma fissura, que os indivíduos tenderão a desejar dominar. Como os seres humanos procuram sempre dar sentido ao mundo em que vivem, é expectável que a experiência inovadora venha ser assimilada e integrada nas categorias das representações sociais integradoras do conhecimento pré-existente de um grupo [Webb 2009; Perevelli e Verduyn 2010].

É importante referir que o processo de objectivação não contém apenas elementos de historicidade mas também indicadores prescritivos. Os elementos históricos podem ser compreendidos no sentido em que as representações sociais são uma realidade e que o são

em parte devido ao processo prévio de objectivação. O poder prescritivo é uma consequência da influência do passado sobre os indivíduos [McKinlay e Potter 1987]. Pode dizer-se que a realidade de ontem controla em grande parte a realidade de hoje. Por exemplo, as actividades intelectuais – entre as quais a comédia – encerram em si uma dose de experimentalismo e ensaio sobre as representações das tradições culturais pré-existentes [Barzun 2003; James 2007; Johnson 2007].

Depois do grupo ter dominado a percepção e a conceptualização do objecto estranho, segue- se um processo de familiarização desse mesmo objecto [Lowenthal e Muth 2008]. O objecto pode ser assim atribuído a uma das categorias de pensamento pré-existentes, concluindo o processo de construção das representações sociais a que Moscovici [2000] chamou ancoragem. Mediante este processo, os elementos menos familiares são adaptados de maneira a incorporá-los em categorias operacionais mais familiares já disponíveis ao processo cognitivo do sujeito.

Segundo Guimelli, «a ancoragem é uma forma de prender algo novo a outro algo previamente estabelecido, que é por sua vez partilhado por indivíduos pertencentes ao mesmo grupo» [1994: 14]. O procedimento de ancoragem encontra-se na procedência do facto de as representações sociais serem construídas à volta de um ponto de referência central, um núcleo que funciona como um protótipo ou um paradigma para determinada categoria. Assim, as representações sociais podem ser vistas como semelhantes ao conceito de protótipo, isto é, quando um grupo ancora um objecto familiar, esse processo faz-se relacionando-o com o caso prototípico que reside no centro da representação social relevante para o efeito [McKinley e Potter 1987]. Depois desse processo, no interior do grupo onde decorreu, as representações sociais desse objecto adquirem as características e formulações do conjunto a que pertence o conceito protótipo. Esta assimilação da ideia-protótipo atribui um significado ao objecto, significado que permanece inacessível enquanto se mantém no estado de estranheza.

A força moduladora das representações socias é um poder difícil de resistir. Wilson [2005] afirma que nenhuma mente consegue sobrepor-se aos efeitos do condicionamento anteriormente imposto pelas suas representações, cultura e linguagem. Este poder surge normalmente de uma combinação das estruturas presentes perante os indivíduos, anteriores ao pensamento – analogamente ao conceito de habitus [Bourdieu 1989; Eisenberg 2005] – bem como uma tradição cultural que prescreve a correcção e a incorrecção do julgamento. Por outras palavras, os indivíduos vêem apenas aquilo que as ligações estabelecidas entre a realidade, os objectos e as representações lhes permitem compreender.

A teoria das representações sociais explica os julgamentos de veracidade, mas também os ilusórios. Uma vez que os elementos icónicos formam parcialmente as representações sociais, as representações sociais não exigem seguir os ditames da lógica como a lei do contraditório.

Por esta razão, as representações sociais estão edificadas de uma forma que impede a intrusão da realidade e da veracidade nos processos narrativos e ilustrativos de um grupo ou sociedade. Significa isto que um grupo social pode impor interpretações ilusórias sobre as suas experiências ou sobre as experiências dos outros [Malpas 2005]. Ao contrário do sistema moderno de semelhanças baseado na similitude, as teorias da pós-modernidade vêem surgir um sistema de construções de significados baseados nas diferenças [Webb 2009]. A ilusão e a realidade são construções ilustradas por uma explicação comum, uma vez que se misturam na produção social das representações [Moscovici 2000].

Tal como outras produções culturais (literatura, cinema) o humor vive também do efeito da suspensão da descrença, que implica uma interpretação assumidamente ilusória das representações. Além de pedir à audiência que acredite momentaneamente na situação cómica criada, o discurso humorístico exige também que sejam reconhecidas as representações sociais, verídicas ou ilusórias, como base da compreensão mútua. Uma piada, uma paródia e uma caricatura são apenas esboços ilustrativos da realidade. Muitas vezes, um confronto simples com a realidade factual retiraria a eficácia de uma piada ou situação cómica. Curiosamente, e talvez porque o discurso humorístico tem tanta força na comunicação contemporânea, é muito raro alguém tentar desmontar o humor com a realidade – precisamente porque ninguém quer ficar na memória mediática como alguém que não entendeu uma piada ou, se entendeu, que não tem poder de encaixe. Este círculo de produção e reprodução de representações sociais sem interferência de um discurso realista pode levar à cristalização de imagens que, sendo inicialmente caricaturas de representações sociais – e que, como se viu, não são necessariamente verídicas – se tornam elas próprias representações do que um grupo considera ser a sua objectividade.

Como diz o cínico-romântico Vivian em “O Declínio da Mentira”, «nenhum grande artista alguma vez vê as coisas como elas são. Se o fizesse, deixaria de ser artista» [Wilde 1992: 45].