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Construction de la topologie du r´eseau

8.3 Mod`ele d’´evolution

8.3.1 Construction de la topologie du r´eseau

Seguindo a tradição oral helénica, Aristóteles reconta que a comédia tomou forma em Mégara e Sicião, cidades onde as pessoas se destacavam pelo seu humor áspero e pelo sentido do ridículo [Aristóteles 2011]. Susarion, poeta real ou personagem de ficção e alegadamente natural de Mégara, surgia na tradição ática como um dos primeiros praticantes de comédia [Else 1957; Walker 1998]. Nas festividades populares da época, era costume passar por aldeias ou cidades, vociferando ou mesmo gozando com acontecimentos trágicos. Nas cidades era também comum, após um banquete, correr pelas ruas segurando tochas, liderados por um tocador de lira ou flauta [Rusten 2014]. Estes bandos eram conhecidos por komu, os seus membros por comoidus ou cantores komus e as canções designadas por κωµῳδία (komoidia), da mesma forma que as canções rituais dos coros de ditirambos se designavam por τραγῳδία (tragoidia) [English 2005; Aristóteles 2011] – forma lírica da qual derivaria a composição teatral que se viria a designar por tragédia. As sátiras, peças ligeiras representadas no fim das trilogias trágicas, deveram o seu nome aos coros de sátiros, seres mitológicos com características equinas, provavelmente com origens em rituais de celebração do deus Dionísio [Hanink 2014; Makres 2014]. Na época, a comédia tomou a forma de poemas, canções e até de esculturas e olarias. O gozo, os trocadilhos, as paródias, as piadas e a linguagem crua marcaram o início das comédias que ficaram documentalmente gravadas. No percurso histórico-literário entre as várias épocas da comédia helénica, esta evoluiria cada vez mais para uma maior concentração no conteúdo e na sequência narrativa, diminuindo o ataque personalizado e criando personagens operativas em vez de manter exclusivamente a perspectiva satírica em que as personagens da comédia se baseavam previamente [English 2005; Hanink 2014].

O estilo conhecido hoje por Velha Comédia tornou-se popular no século V a.C. e diferia já ligeiramente da tragédia, do ponto de vista formal. O tempo e a localização da sua produção eram distintos. As comédias gregas eram escritas para dois festivais dionisíacos, o Festival de Leneias, em Janeiro, e a Grande Dionísia, em Março [Makres 2014]. Tipicamente, a tragédia grega era composta por três actores e um coro composto por uma dúzia de membros. Formalmente, as tragédias eram compostas por um parados, um prólogo que inclui a entrada do coro, por episódios separados por elementos fixos, bem como um êxodo, o final marcado por uma canção de saída [Cowen 2002; Hanink 2014]. Por outro lado, a comédia era composta por quatro actores e um coro maior, de vinte e quatro pessoas. A estrutura formal da peça era semelhante à tragédia, com parados, episódios e êxodo. Adicionalmente, as comédias integravam debates, num quadro chamado parabasis, durante o qual o coro se dirigia à audiência [Bevis 2013], inovação que permitia ao autor criar um momento metanarrativo de discurso directo com o público, muitas vezes para discutir assuntos de actualidade política e

social, performance que se poderia assemelhar anacronicamente a um stand-up ou a um talk

show. Na dimensão da representação cénica, era usual os actores das comédias e das sátiras

usarem trajes que incluíam formas fálicas protuberantes [English 2005].

Ao nível do conteúdo, o autor poderia justificar o seu trabalho, defender-se dos rivais ou mesmo atacá-los, ou ainda comentar como desejasse os abusos da vida contemporânea. As peças da Velha Comédia apresentavam material original escrito pelos dramaturgos, não lhes sendo permitido recuperar cenas ou personagens da mitologia tradicional nem das tragédias já conhecidas [Bevis 2013]. No entanto, este impedimento inicial permitiria às comédias caracterizar-se por uma comicidade libertadora onde até os mais arrojados ou absurdos projectos de fantasia literária podiam ser apresentados como soluções plausíveis para problemas da contemporaneidade, como na peça Lisístrata, de Aristófanes [2006]. O papel do coro era proeminente, assim como o uso de linguagem e gestos obscenos [Hanink 2014]. Os autores colocavam uma ênfase muito forte na sátira política e social, relacionando-a com uma preocupação vigorosa com os acontecimentos da época. Os críticos clássicos reconhecem Cratinus, Eupolis e Aristófanes como os principais dramaturgos da Velha Comédia [English 2005]. De entre a produção destes apenas onze obras do último resistiram documentalmente até à actualidade [cf. Aristófanes 2006].

Com a morte de Aristófanes e algumas alterações na vida política ateniense – nomeadamente alterações legislativas que promoviam a expulsão dos autores mais críticos – terminava o período da Velha Comédia e iniciava-se uma fase dramatúrgica comummente designada por Média Comédia. Deste período, que duraria aproximadamente seis décadas no decurso do século IV a.C., restaram apenas fragmentos que, não permitindo uma completa análise das obras, permitem perceber que a mordaz crítica sociopolítica da Velha Comédia é substituída por um discurso de tonalidade menos agressiva e com o seu olhar apontado não às personagens ou instituições políticas da cidade, mas à organização social e comportamentos do quotidiano [English 2005].

Foi durante este período que se verificou uma alteração profunda do papel social do autor cómico. A sua prolífica produção extravasara os festivais dramatúrgicos de Dionísio e Leneias e tornava-se uma actividade profissional em busca de uma audiência mais vasta [Makres 2014].

A última fase do teatro cómico helénico, a Nova Comédia, surgiria pelas inovações estruturais da narrativa apresentadas nas mais de cem peças escritas por Menandro [English 2005]. Na esteira da comédia apolítica da Média Comédia, este cómico promoveu as suas personagens a figuras mais simpáticas e distintivas, ao mesmo tempo que construía narrativas intrincadas onde assentavam em grande parte a sua riqueza humorística [Minois 2007]. Com Menandro, o odioso não recaía sobre as personagens, mas sobre as suas circunstâncias – este autor prestava particular atenção aos mal-entendidos, aos enganos e à falta de tolerância [George 2005]. As

suas peças e fragmentos conhecidos trouxeram o teatro grego a um novo patamar de realismo literário. Para além dos enredos amorosos, a Nova Comédia tratava fundamentalmente dos costumes e de pequenos conflitos entre pais e filhos, ricos e pobres, vizinhos, gente do campo e da cidade. Esta forma manteve-se popular durante vários séculos e entraria na esfera latina do Império Romano pelas mãos de Plauto e Terêncio. Onde a Velha Comédia de Aristófanes era feita de referências à situação política, datadas e localizadas, a Nova Comédia apresentava personagens e situações que consagravam tipificações universais da realidade quotidiana [Evans 2005] – pelo menos no universo conhecido à época, o da orla do Mediterrâneo.