Durante todo o ano de 1837, nos ofícios tramitados entre a presidência da Província e o Diretor Vasconcelos, nenhuma informação chegou a ser tratada em relação ao fechamento do Gabinete Topographico.
No entanto, chamou atenção a Lei nº 31, que chegou a ser redigida, decretando a abolição do Gabinete Topographico, conforme abaixo reproduzimos:
N º 3 1
A r t . Ú n i c o . F i c a a b o l i d o o G a b i n e t e T o p o g r a p h i c o c r e a d o n ’ e s t a c i d a d e , e a d e s p e z a c o m e l l e , r e v o g a d a a L e i q u e o c r e o u , e a u c t o r i s a d o o G o v e r n o a v e n d e r o s u t e n s í l i o s e l i v r o s (Arquivo Histórico da Assembleia Legislativa de São Paulo: EG 3812.1)
Verificamos que a referida Lei não chegou a ser sancionada, porque não fez parte do Repertorio de Leis aprovadas pela Assembleia Legislativa.
No trabalho realizado por Marcos Antonio Lima, “A historiografia e a revolução de 1842”, extraímos algumas informações, também vagas, a respeito do embate político envolvendo o Gabinete Topographico.
Segundo consta, na sessão da Assembleia Legislativa do dia 1º de março de 1838, foi apresentado pelo Deputado da linha conservadora, Pacheco Jordão, um projeto de lei que propunha a suspensão do Gabinete Topographico.
Alguns deputados da ala liberal da Província, como Amaral Gurgel, Tobias de Aguiar, Xavier Ferreira e Álvares Machado, se posicionaram contra a apresentação do referido projeto, realizando um abaixo-assinado contra a extinção do Gabinete Topográfico.
Ao lado do deputado Pacheco Jordão, o deputado Carlos Carneiro de Campos, proferiu discurso, em 11 de março de 1841, justificando os motivos que julgava importante para extinguir o Gabinete Topographico:
( . . . ) N ã o é f á c i l , S e n h o r e s , e m u m p a í s n a s c e n t e , e p o u c o c o n h e c i d o ; e e m q u e , p o r t a n t o , t u d o é n o v o , e t u d o e s c a s s o , p r o c e d e r c o m p r e s t e z a e ê x i t o s e g u r o n o s m e l h o r a m e n t o s q u e s e e m p r e e n d a m . ( . . . ) A i g n o r â n c i a d a t o p o g r a f i a d o p a í s , a f a l t a d e c o n h e c i m e n t o s p r o f i s s i o n a i s , ( . . . ) , a c a r ê n c i a d e b r a ç o s i d ô n e o s ( . . . ) , t u d o o b r i g a a p r o c e d e r c o m p a u s a e p r u d ê n c i a , e a c o n t e n t a r - m o s c o m o s m e l h o r a m e n t o s m e n o s d i f í c e i s e c u s t o s o s ( . . . )
Campos declarou em seu pronunciamento, que havia coisas mais importantes para serem discutidas na política que o funcionamento de um estabelecimento como o Gabinete Topographico, cujos conhecimentos profissionais e a carência de pessoas capacitadas na Província eram deficientes. Portanto, sua manutenção era dispendiosa e o objetivo do estabelecimento não poderia ser alcançado.
Percebemos, por meio dos ofícios, que os conflitos que vão resultar na suspensão do Gabinete Topographico tiveram início em 1837. Vasconcellos, em ofício datado de 16 de agosto, enviado ao presidente da Província, alegou que o Alferes José Porfírio de Lima não havia procedido a entrega dos objetos pertencentes ao Gabinete Topographico (DAESP. Ofícios Diversos. Ordem 874, Caixa 79, Pasta 02, Doc. 68: 16/08/1837).
Os ofícios que se seguiram daí por diante, tanto do Presidente da Província como os enviados por Vasconcellos, foram os de acusações e defesas.
Ao mesmo tempo, na Assembleia Legislativa, os deputados da ala liberal, liderados por Raphael Tobias de Aguiar, o criador do Gabinete Topographico, conseguiram converter a Lei de extinção do Gabinete Topographico em Lei de suspensão. Ao menos, dessa forma, haveria possibilidade de, num futuro próximo, reativar suas atividades.
A Lei de suspensão do Gabinete Topographico ficou assim constituída:
L e i n . 2 9 d e 3 1 d e M a r ç o d e 1 8 3 8 . F i c o u s u s p e n s a a e x e c u ç ã o d a L e i n . 1 0 d e 2 4 d e M a r ç o d e 1 8 3 5 q u e c r e o u u m G a b i n e t e T o p o g r a p h i c o n a C a p i t a l , m a n d a n d o o G o v e r n o p o r e m b o a g u a r d a o s i n s t r u m e n t o s , l i v r o s e m a i s o b j e c t o s p e r t e n c e n t e s a o m a n e j o d a q u e l l e e s t a b e l e c i m e n t o ( T E L L E S , 1 8 7 7 , p . 4 3 8 ) .
Enquanto tramitava na Assembleia a sanção da referida Lei, o ambiente entre o Diretor Vasconcellos e a Presidência da Província era de tensão.
No dia 20 do mesmo mês, Vasconcellos recebeu outro ofício, agora com vários questionamentos a cerca do funcionamento e dos resultados do Gabinete Topographico, remetidos pela Assembleia Legislativa Provincial, conforme abaixo:
A A s s e m b l e i a L e g i s l a t i v a P r o v i n c i a l e x i g e e s c l a r e c i m e n t o s c i r c u n s t a n c i a d o s s o b r e q u a e s s e j ã o o s o b s t á c u l o s q u e t e m t o r n a d o i n f r u c t í f e r o o G a b i n e t e T o p o g r a p h i c o : s e é f a l t a d e t e n d ê n c i a n a m o c i d a d e p a r a t a e s e s t u d o s , s e a n e n h u m a v a n t a g e m q u e d ’ a l i e s p e r ã o , s e a c a r ê n c i a d e i n s t r u m e n t o s n e c e s s á r i o s , e q u a e s o s m e i o s a d a p t a d o s p a r a f a z e r p r o s p e r a r e s t e e s t a b e l e c i m e n t o (DAESP. Ofícios Diversos. Ordem: 876, Caixa: 81, Pasta: 1, Doc.: 114, 20/02/1838).
Em resposta ao ofício, Vasconcellos rebateu as acusações argumentando que o Gabinete Topographico não era infrutífero, pois se fosse estaria com as portas fechadas nos dias e horas próprias; não seria freqüentado por alunos e que ali não tivesse quem lhes passasse e tomasse lições e tivesse já formado alunos prontos para servir a Província como “engenheiros d’estrada” (DAESP. Ofícios Diversos. Ordem: 876, Caixa: 81, Pasta: 1, Doc.: 114, 20/02/1838).
Quanto à saída de alguns alunos do Gabinete Topographico, entre os quais constavam filhos de militares, Vasconcellos declara que as dificuldades eram grandes quando os egressos eram empregados na abertura de estradas pelos “certões”, realizando seus trabalhos entre selvagens “tudo precário sem estabilidade alguma, além de estarem expostos as observações e sarcasmos da maldade da ignorância e da petulância dos que tudo sabem” (DAESP. Ofícios Diversos. Ordem: 876, Caixa: 81, Pasta: 1, Doc.: 114, 20/02/1838). A m o c i d a d e d ’ e s t a P r o v í n c i a n ã o é i n f e r i o r e m t a l e n t o s a o s d a s o u t r a s P r o v í n c i a s , e a p r o v a m o m e n t â n e a h é q u e q u a t r o C a d e i r a s d a s A c a d e m i a s d a C o r t e s ã o r e g i d a s p o r q u a t r o P a u l i s t a s q u e b e m o s c o n h e ç o p o r s e r e m d o m e u t e m p o , s e m r e m o n t a r - m e a o u t r a s e p o c a s , e a o u t r a s p e s s ô a s , q u e m e a p a r t a r i ã o d o o b j e c t o d a q u e s t ã o
Em relação à carência de material, Vasconcellos declarou que “com a chegada de alguns [livros e instrumentos], e esperança de breve virem outros ao menos os mais necessários” vai se diminuindo as necessidades, mesmo assim, conseguiu suprir tudo aquilo que era necessário, sem paralisar as atividades do Gabinete Topographico.
Questionando a Lei de Suspensão, Vasconcellos acabou revelando que havia na mesma época discussões acerca da presença de ingleses na Província e seus projetos, provavelmente, o de instalação de estradas de ferro, declarando que:
C o m t u d o s e a A s s e m b l e i a P r o v i n c i a l j u l g a r e m s u a s a b e d o r i a , e s p e r a n ç a d a n o s E n g e n h e i r o s d e L o n d r e s , q u e e s t e E s t a b e l e c i m e n t o j á c r i a d o , e c o m q u e s e t e m f e i t o j á a l g u m a s d e s p e z a s s e j a d e r r i b a d o a n t e s d e c o m e ç a r a p r o d u z i r f r u c t o s : n ’ e s t e c a z o , e u f o r t e d a m i n h a c o n s c i ê n c i a , e c o m a o b e d i ê n c i a d e h u m s o l d a d o v e l h o f e i c h a r e i a p o r t a c o m a m e s m a s a t i s f a ç ã o c o m q u e a a b r i , e m A g o s t o d e 1 8 3 6
Numa tentativa de tentar demonstrar sua habilidade, mesmo com tanta deficiência de livros, instrumentos e outras de caráter administrativo, Vasconcellos indagou que, enquanto o Gabinete Topographico formava um engenheiro d’estrada em dois anos, outros estabelecimentos não conseguiam fazer em menos de cinco anos ((DAESP. Ofícios Diversos. Ordem: 876, Caixa: 81, Pasta: 1, Doc.: 114, 20/02/1838).
Para termos uma idéia dos livros e instrumentos que faziam parte do acervo do Gabinete Topographico quando da sua paralisação, Vasconcellos, em ofício dirigido ao Presidente da Província, apresentou uma relação de livros existentes no Gabinete Topographico (DAESP. Ofícios Diversos. Ordem: 876, Caixa: 87, Pasta: 1, Doc.: 111, 14/12/1838):
Quadro 16: Relação dos Livros do Gabinete Topographico de esta data
Nº Nome
25 Diccionário Crhonologico em 8º encadernado e estampas minhas
16 Diccionarios francez d’Academia em 3 Volumes 17 Taboas de Berlin em 3 Volumes em 8º e meia brochura 12 Astronomia Física de Bret em 3 Volumes encadernado 19 Geodesia de Peusant em 2 Volumes encadernados 21 Taboas logarithmicas de Callet em 8º encadernado
26 Arithmética hidráulica de Belider em 4 Volumes encadernado 22 Obras de Magalhaens 1 Volume em 4º meia brochura
23 Curso de Construcção por Mr Navier 8 º encadernado 24 Taboas das Cordas por Bauduen 1 Volume encadernado 25 Arte de pintar a olio por Berdivel 1 Volume em Brochura
Fonte: ofício enviado ao Presidente da Província por José Marcellino Vasconcellos, datado de 14 de fevereiro de 1838.
Nesta listagem podemos verificar que nem todos os livros indicados para aquisição foram adquiridos, mas apesar de pequena bibliografia, está foi a primeira biblioteca pública da Província de São Paulo especializada em estudos matemáticos e de construção.
No quadro abaixo, reproduzimos a relação de instrumentos que foram adquiridos pela Província para o acervo do Gabinete Topographico:
Quadro 17: Relação dos Instrumentos que possui o Gabinete Topographico té esta data
Nº Nome 1 Chronometro de caixa de prata nº 2053 em caixa de madeira
sem sua chave
2 Barometro centigrafos em caixa de metal dentro de outra de madeira
3 Bussola com seu tropico e óculo acromático 9 Prancheta
Fonte: ofício enviado ao Presidente da Província por José Marcellino Vasconcellos, datado de 14 de fevereiro de 1838.
Nesta listagem, também verificamos que a quantidade de instrumentos que foram adquiridos pela Província, em dois anos de atividades, foi muito pequena em relação às listagens emitidas por Müller e por Vasconcellos.
Contando com tão poucos livros e instrumentos, é provável que muitas aulas ficassem mesmo na parte teórica, mas Vasconcellos, segundo informou, realizava com os alunos “cópia de projetos, mapas, plantas e figurinos para todas as Villas”.
Conforme consta, Vasconcellos declarou que não conseguiu fazer aquilo que mais desejava, que era a “Planta da Cidade, Nivelamento e Projeto de esgotamente da Varzea do Tamandatei, e Projeto de Paredão do morro do Carmo, etc, tudo isso por falta de instrumentos” (Arquivo Histórico da Assembleia Legislativa de São Paulo: EE 3812.1).
Com as atividades suspensas, Vasconcellos foi dispensado das suas funções. Os documentos não apresentaram informações a respeito de quem ficou como responsável pela manutenção dos livros e instrumentos.
CAPÍTULO IV