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3. POUR LA SUITE DU MONDE : L’ENGAGEMENT

3.2. Pour la suite du Monde : l’exposition

3.2.2. Mise en espace de l’exposition

[...] a que figuras, a que dispositivos, a que linguagens recorremos para que, pela mediação do Outro, um pouco de sentido, de vez em quando, nos faça subitamente presentes a nós mesmos?

E. Landowski

Os modos de presença criados para a figura da prostituta Daspu, pelo destinador da marca são discutidos nesse ítem. Os modos de visibilidade atribuídos a ela no website institucional foram mapeados e relacionados para elucidar as relações entre seus simulacros e os do social, que também é inscrito no objeto, cristalizando as axiologias culturais que lhe permitem existir.

No próximo tópico (3.2) serão estudados os modos de visibilidade criados para a prostituta Daspu pelo destinador do jornal Folha de S. Paulo.A relevância do estudo dos modos de mostrar a prostituta Daspu em ambos os destinadores é o potencial comparativo de suas bases axiológicas, para estabelecer um comparativo entre as articulações discursivas que criam para essa presença feminina. Esse comparativo permite saber qual é o valor da visibilidade midiática almejada pelos destinadores enquanto mecanismo comunicacional e de significações que faz circular valores entre sujeitos no contexto social. A esse respeito, afirmou Landowski (1992):

Os dispositivos que organizam especificamente as relações de “visibilidade” podem, de fato, ser considerados como simples traduções, no plano figurativo, de dispositivos mais abstratos, relativos à comunicação (ou à retenção) de um certo tipo de saber entre os sujeitos. 98

Dessa forma, os modos de presença articulados por cada destinador são colocados em ambas as mídias como traduções das axiologias que engendram para construírem os simulacros da prostituta Daspu que desejam tornar visíveis. Quando

98 LANDOWSKI, E. A sociedade refletida: ensaios de sociossemiótica. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Educ-Pontes, 1992, p. 88.

essas “imagens” de mulheres são inseridas nos respectivos meios, integram uma dinâmica na qual coexistem seus destinadores e os destinatários, que lhes são pressupostos. Assim, os valores instalados nas figuras de prostitutas Daspu pelos destinadores são dados a ver aos destinatários que lhes apreendem no contexto mídiatico, os fazendo circular no social.

Essa remissão de valores na sociedade pode atualizá-los na cultura de duas maneiras: sob o prisma de renovação dessas axiologias, em que configuram uma transformação nos valores vigentes, ou sob o da manutenção dos valores no seu materializar o status quo. Aparentemente, o destinador do website de Daspu buscou conferir uma visibilidade atualizada, “nova” às figuras de prostitutas que representa. Mas, teria sido ele eficiente na lógica da promoção dessa visibilidade?

No que diz respeito à intencionalidade do destinador da marca em querer-

fazer-ver o seu modelo de mulher no seu website, observa-se, de acordo com o

mapeamento da produção de sentidos realizado no capítulo 1, que os modos de visibilidade construídos para a prostituta Daspu se organizam da seguinte forma:

A posição do quadrado que contém o “querer-ser-vista” corresponde ao modo de visibilidade da prostituta-modelo, que exerce tanto a prostituição como a atividade de modelo em âmbitos profissionais. Nessas esferas, devem, portanto, serem respeitadas por outros sujeitos sociais, como prega a letra da canção Funk da

Daspu: “Se você quiser um quete/ Não esqueça o din-din/ Porque a parada é

profissa e princesa são as mina”. Ainda, sob o prisma dessa valoração positiva, a prostituta Daspu mostra sua sexualidade no palco do cabaré vestindo sua própria moda, tematizada pelo querer, saber e poder-fazer mostrar essa sexualidade de maneira desinibida.

A posição contraditória a essa posição contém o modo “não-querer-ser- vista” da prostituta, também tornada presente pelo destinador quando se refere à prostituta que “Sempre aguenta uma dura, Duracell, pilha forte/ Guenta o tranco, corre atrás de peitinho lindo e short” na mesma canção. Essa é a prostituta não valorizada socialmente. Não exerce a profissão por que quer. Aguentar o tranco, com pique, como propõe o emprego da figura da pilha forte, que funciona por horas a fio, é sua única opção. Não pode fazer diferente, pois é a sua maneira de garantir seu sustento. Essa figura de prostituta também existe no social e é mostrada pelo destinador como contraponto ao seu ideal de mulher, aquele materializado na prostituta-modelo que é prostituta porque quer, não porque não pode fazer diferente. A posição do quadrado na qual consta o “querer-não-ser-vista” corresponde à prostituta vitimizada pelo social. É explorada pelo masculino e desvalorizada socialmente pelo exercício da atividade. Ela também é mostrada pelo destinador do

website no discurso verbal que comenta sua luta “pelo acesso aos serviços públicos

e a outros bens da sociedade sem discriminação, pela elevação da auto-estima, prejudicada pelo estigma.”

Ora, se não possuem acesso aos serviçoes públicos e a outros bens da sociedade é porque não fazem parte de uma política abrangente de seu grupo social, sendo excluídas, marginalizadas em seus direitos sociais, alem de serem discriminadas moralmente e prejudicadas pelo estigma. Para ilustrar essa figura, nos traz o pensamento de Simmel (2001):

Ora, a sociedade burguesa faz exatamente assim, as prostitutas são bodes expiatórios que se punem pelos pecados cometidos pelos homens da “boa sociedade”. É como se uma curiosa deformação ética oferecesse uma expiação à má consciência social, fazendo a

sociedade rejeitar cada vez mais as vítimas de seus pecados, submergindo-as numa desmoralização cada vez maior: ela se arroga o direito de tratá-las como criminosas. É um caráter constante de nossa sociedade cobrar as mais elevadas exigências, em matéria de firmeza de caráter e de resistência às tentações, precisamente daquelas a quem ela mais priva das condições de moralidade.99

Na posição do “querer-não-ser-vista”, de acordo com o autor, a sociedade burguesa designa um lugar social axiologizado negativamente para as prostitutas, no qual elas figuram como sujeitos compensadores da lógica opositora do bem ao mal regulada pela própria burguesia, detentora de uma certa moral e dos “bons costumes”.

Nessa esteira, resta às prostitutas serem subjugadas à definição de bem e mal vinculadas à castidade, isto é, o lugar social atribuído à prostituição é o da mulher-objeto, cuja função é a satisfação dos desejos eróticos masculinos sem laços afetivos. Esse é o dever social pelo qual cumpre um desempenho de papel, apresentado pelo autor como hipócrita, já que a sociedade a vitimiza, privando a prostituta de opções profissionais para ser e estar no contexto social de forma diversa à objetal que lhe afasta da “boa moral” conceituada e convencionada pela própria burguesia.

A posição contraditória a essa é ocupada pelo modo “não-querer-não-ser- vista”, no qual a figura da prostituta Daspu é recoberta por uma outra função, a de ativista social da ONG Davida. Sua atuação é mostrada no discurso verbal do

website, na referência à linha de camisetas batizada de “ativista”. Esse valor é

reiterado no sistema gráfico da mesma mídia, na presença dos preservativos masculinos dispostos sobre as mesas do cabaré. Essa conjectura estabelece a regulamentação do sexo seguro prescrito pelo destinador para essa mulher, de modo que seja configurada pelo destinador como praticante e promotora do sexo seguro.

Ao acrescer a prostituta Daspu da função de ser um agente da saúde, essa figura tem seu modo de visibilidade não-desvalorizado socialmente, já que promover a saúde é uma ação culturalmente convencionada como positiva. Ao sair de seu escopo de atuação como profissional do sexo, a prostituta Daspu é vista como um sujeito social dotado de um fazer diverso àquele da vitima social, que encontra na

prostituição o único modo de subsistência. Nessa posição, ela não executa o ativismo porque deve para sobreviver, e sim, porque quer fazê-lo.

Observa-se entre a posição do “não-querer-não-ser-vista” e a “querer-ser- vista” a construção de uma visibilidade apreciável da prostituta. A construção dessa apreciação é atravessada pelos fazeres de modelo e ativista social, que não são tradicionalmente vinculadas à prostituição em si. Dessa construção é possível inferir, portanto, que a prostituta é apreciável desde que não seja apenas prostituta, assuma outros papéis e fazeres com outros modos de existência axiologizados positivamente no âmbito sociocultural em que se insere.

A edificação do sentido na posição oposta a essa, entre “não-querer-ser- vista” e “querer-não-ser-vista” é a da prostituta depreciável, que abrange aquelas que praticam a prostituição não por sua própria volição, mas porque a tem como única alternativa a um modo de subsistência miserável, diante da escassez de recursos financeiros e outras opções de trabalho.

Entre as posições “querer-ser-vista” e “querer-não-ser-vista” observa-se a construção da prostituta transfigurada, isto é, a prostituta que é vista como transformada de seu lugar de vítima, valorado negativamente no âmbito social, para um lugar positivo, no qual ela é vista como modelo e empreendedora da moda que cria.

Em oposição ao termo complexode prostituta transfigurada, encontra-se a

prostituta estereotipada, fornecido pelas posições “não-querer-não-ser-vista” e “não-

querer-ser-vista”. Essa é a prostituta que o destinador não quer-fazer-ver. Tanto em seu fazer resiliente, em que se submete à rotina de muitas horas dedicadas ao trabalho sexual porque não pode fazer diferente, quanto em seu fazer como ativista social, que lhe confere um modo de ser-vista valorado positivamente, a prostituta não tem os pormenores da profissão detalhados pelo destinador, ou seja, ele oculta as características referentes às performances profissionais da prostituta, conferindo- lhe uma visibilidade estereotipada, no que concerne o exercício de sua sexualidade como profissão.

Das posições estruturadas no esquema e dos sentidos produzidos para as figuras que o preenchem, conclui-se que o lugar de apreciação construído para a prostituta Daspu figurativizada no website é viável desde que ela não seja somente prostituta, mas atue como modelo ou ativista social. Isso implica na análise do uso

de dois sistemas: o da moda e o da organização saúde, uma promoção da classe das prostitutas.

Ora, se não bastasse ser prostituta e exercer a sexualidade em caráter profissional, como se faz em qualquer outra profissão, a atuação como modelo e como ativista social foram adicionadas a essa figura na construção do ideal de mulher da grife, de modo a criar pelo emprego dessa visibilidade, um saber sobre o lugar social por ela ocupado, no qual ela é apreciada por outros sujeitos e atualiza seu modo de ser e estar no contexto sociocultural por meio da prática de uma visibilidade desejável – nas passarelas de moda – ou como benfeitora, em sua ligação com a causa da saúde.

O próximo tópico discute os modos de visibilidade conferidos à prostituta

Daspu e às prostitutas não-Daspu pelo destinador da mídia impressa Folha de S. Paulo, de modo que se possa depreender a eficiência do destinador do website na

postulação de um ideal de mulher a ser apreendido e colocado em circulação entre esses meios.

3.2 Prostituta emergente, prostituta midiatizável: condições de visibilidade