ENGAGEMENT ET RAISONNEMENT
6. METHODOLOGIE DE L’INTEGRATION
É notório que os homens e as mulheres relegados à margem não são os que ditam narrativas dos livros sobre a história oficial do Brasil. A arte é um dos veículos que permitem aos excluídos terem voz para repercutir seus universos. Em vista disso, o
apreço de Ozualdo Candeias por desenvolver uma arte em que há denúncias sobre a ausência de bem-estar dos cidadãos brasileiros está atrelado à concepção de se exercer plena liberdade na ficcionalização de histórias que questionaram elitismos e que protestaram contra o regime militar.
Cônscio dessa possibilidade, Candeias agregou ao tratamento da exclusão social críticas a ditadura civil-militar por meio de médias-metragens e um curta, denominados como Trilogia Proibida. Dos três filmes, dois estão datados antes da adaptação do texto teatral Milagre na Cela, que culminou no filme A Freira e a Tortura. A trilogia proibida é composta pelas seguintes obras: Zézero (1974), O candinho (1976) e Senhor Pauer (1988). Películas que Candeias não enviou para a censura avaliar e que não foram exibidas em salas de cinema.
Zézero é uma advertência que Ozualdo Candeias faz às atitudes do governo militar. Neste média, o cineasta critica a loteca esportiva como uma das ferramentas que os militares utilizavam para alienar a massa social. O personagem Zézero é um homem que deixou a família no interior e se mudou para a cidade para trabalhar como operário de obra. Após ganhar um prêmio na Loteria Esportiva, o protagonista compra vários bens e retorna para o campo, porém encontra toda a sua família morta.
Em O candinho, Candeias forjou questionamentos contra a religião e contra a política econômica adotada pelos militares. O protagonista Candinho é um personagem louco, que, após ser expulso da fazenda em que trabalhava, vai para a cidade e emplaca uma busca, na qual acredita que encontrará Jesus Cristo. Candinho é alvo de explorações, uma vez que os fazendeiros e o homem que se passa como Cristo aproveitam da sua simplicidade.
O candinho mantém diálogo intertextual com outras películas nacionais, como Vereda da salvação (1945), de Anselmo Duarte. Esse filme foi adaptado a partir da peça de mesmo título do dramaturgo Jorge Andrade. No filme Vereda da salvação, predominam temáticas acerca da religião, da loucura e da realidade de trabalhadores humildes. Assuntos que coincidem com os abordados em O candinho.
A trama do curta-metragem Senhor Pauer se passa na capital paranaense em torno de uma greve de ônibus. É mais uma crítica que Candeias consolida ao ficcionalizar a desigualdade social do Brasil, contextualizando o filme no período da ditadura civil- militar. Um homem bem vestido se aproveita de um casal de catadores de papel. O
burguês torna-se passageiro da carroça que é utilizada pelo casal e exige que os mesmos atendam aos pedidos dele, em uma conotação que expressa o quanto o pobre está à mercê do poder do rico. A divisão social é ainda mostrada pelos pontos turísticos de Curitiba em contraste com cenas que mostram a periferia da capital paranaense.
Os filmes comentados foram poucas vezes exibidos. As ocasiões em que o público pôde assistir aconteceram em espaços restritos, como em universidades. Devido às tensões advindas da repressão, em algumas universidades, os filmes da Trilogia Proibida eram bem recebidos; em outras, no momento em que seriam exibidos, surgia alguém para proibir. Em um debate de que participou na Universidade de São Paulo, o cineasta relatou:
E depois começou o debate, mas quando faziam perguntas meio políticas, alguém da mesa dizia: muda a pergunta, esta não está boa. Eu percebi que havia um medo do que eu respondesse e não ia dar certo. Alguns eram muitos visados naquela época. (REIS, 2010, p. 109).
Juntamente com a experiência de seus três filmes subterrâneos, Ozualdo Candeias dirigiu, em 1983, o filme A Freira e a Tortura. Para elaborar essa película que faz menção ao regime militar, o cineasta tomou contato com o texto teatral Milagre na Cela (1977), do dramaturgo Jorge Andrade. O fato de Candeias ter se apropriado do texto de Andrade para elaborar A Freira e a Tortura possibilita posicionar o cineasta perante o conceito de influência elaborado por Paul Valéry. A pesquisadora Sandra Nitrini (2010) expõe que Valery (1960), ao tomar a imagem do “leão feito de carneiro assimilado”, incita a pensar o tecer artístico como originalidade e, não, como imitação.
Nitrini (2010) comenta que para Valéry (1974), a originalidade é um “caso de estômago”, ou seja, é pela digestão “da substância dos outros” que se marca o limite entre originalidade e plágio. Nesse sentido, Candeias, ao ler e interpretar a obra fonte, Milagre na Cela, elege determinadas passagens para construir, via adaptação, ressignificados do texto de Jorge Andrade, pois, como afirma o cineasta: “[...] coloquei minhas metáforas pra contar a perseguição de um delegado a uma freira durante o regime militar.” (REIS, 2010, p. 101).
Em A Freira e a Tortura, a personagem da freira Joana, interpretada pela atriz Vera Gimenez, e os demais personagens constituem-se em instrumentos para representar e contestar o ambiente político do regime ditatorial. Para realizar um contraste à beleza física da freira que está expressa na atriz Vera Gimenez, o cineasta
construiu os outros personagens com aspectos repulsivos. Candeias acoplou aos elementos grotescos o desprezo à dignidade humana, materializado em cenas de tortura, em cenas rudes de sexo e por indivíduos mentalmente perturbados, sedimentando uma trama sórdida.
A freira Joana, vítima das torturas praticadas pelo delegado, interpretado pelo ator David Cardoso, é tratada como subversiva após ser encontrada em uma favela, na qual lecionava para crianças e adultos. A freira é interrogada, porém não aceita confessar que pratica atos subversivos, o que desencadeia o início das torturas. Além das torturas, há várias cenas em que os personagens da trama aparecem nus e tentando manter relações sexuais dentro das celas. Em alguns momentos, o tom sórdido dessas cenas é intensificado pelo desatino que há em personagens como Jupira e Miguel. Ocorrências que assemelham o espaço da prisão a uma jaula em que prepondera a animalização dos indivíduos.
Na cena final de A Freira e a Tortura, um dos detalhes que se destaca é que Joana e o delegado aparecem correndo sem destino. Essa é uma característica que ocorre com frequência nos filmes de Candeias. Em obras como A margem (1967), A opção ou as rosas da estrada (1981) e As belas das Billings (1987), a perambulação dos personagens pelas cidades ou pelos acostamentos das estradas é conteúdo regular das representações que o cineasta forjou.
As características que Candeias impregnou em seus filmes colocam seu cinema como exemplo de uma arte em que o humano e o desumano atuam como elementos fustigadores das realidades sociais. Filmes como os da Trilogia Proibida e A Freira e a Tortura, além de ensejarem intertextualidade em torno das condições de vida dos marginalizados e das perseguições do governo militar, veiculam sentidos e reflexões. Fatores que permitiram a Candeias interferir no tempo em que produziu seus filmes, garantindo representações para que a sociedade conheça e reconheça episódios da história do Brasil.
3 CAPÍTULO 2: O TEXTO TEATRAL MILAGRE NA CELA: