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Les maladies ciblées

A artista Fayga Ostrower nasceu em Lodz, na Polônia em 14 de setembro de 1920. Chegou ao Brasil aos 13 anos. Logo começou a trabalhar para ajudar sua família de emigrantes judeus, refugiados da Segunda Guerra Mundial. Falava fluentemente alemão, francês e inglês, além de português, o que a ajudou a ser contratada como secretária, até se tornar, aos 24 anos secretária-executiva da empresa General Electric. Em 1947, começou a estudar artes gráficas, xilogravura e gravura em metal na Fundação Getúlio Vargas, o que a fez abandonar a carreira de executiva e se dedicar a produção em arte.

Os seus primeiros trabalhos profissionais foram ilustrações para livros e periódicos, uma delas é a ilustração para o livro O cortiço, de Aluísio de Azevedo (Figura 66). Suas obras, no início de carreira, eram figurativas e retratavam os costumes do povo brasileiro. Essa fase durou pouco tempo, pois “[...] a influência de Cézanne desencadearam um processo de transformação em sua obra. Aos poucos, foi deixando a arte figurativa e caminhando rumo à abstração” (ALMEIDA, 2006, p.273). Admiradora da obra do pintor francês Paul Cézanne (1839-1906), afirmava: "Sua visão de espaço e a problemática da forma que levanta foram uma revelação tão grande para mim, que tudo o que até então imaginava se transformou"

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(OSTROWER, 1983 apud ALMEIDA, 2006, p. 273). Nesse contexto, Fayga configura-se como precursora da abstração em gravura (Figura 67).

Figura 66 - OSTROWER, Fayga. Gravura em linóleo, em preto sobre papel de arroz, para o livro O cortiço, de Aluísio Azevedo

Fonte: Fayga Ostrower, 1960.

Em 1954, realizou sua primeira exposição abstrata. Após sua primeira exposição, Fayga começa a ser reconhecida pelas suas obras, recebendo prêmios como: o Prêmio Nacional de Gravura na IV Bienal de São Paulo e o Prêmio de Gravura da Bienal de Veneza. A partir de 1965, e ao ficar um período impossibilitada de trabalhar devido a problemas de saúde, Fayga destaca esse período importante para sua carreira:

Quando finalmente tornei a trabalhar, constatei, perplexa, que algo de fundamental devia ter mudado em mim: não só eu estava usando cores intensas, luminosas, como também a própria cor tinha se tornado, ela mesma, forma expressiva; em vez de acompanhar e sustentar certos elementos visuais na estrutura do espaço, a cor agora era o elemento predominante em minha imagem(OSTROWER, 1983 apud ALMEIDA, 2006, p. 273)

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Figura 67 - OSTROWER, Fayga. 6720. 1967. Xilogravura a cores sobre papel de arroz, 46,7 x 40 cm

Fonte: Fayga Ostrower, 1967.

A vida e obra de Fayga também é caracterizada por suas pesquisas no campo das artes, o que resultou na publicação de seis livros: Criatividade e processos de criação (1977), Universos da arte (1983), Acasos e criação artística (1990), Goya, artista revolucionário e humanista (1997), A sensibilidade do intelecto: visões paralelas de espaço e tempo na arte e na ciência (1998), e A grandeza humana: cinco séculos, cinco gênios da arte (2003).

Desse modo, destacamo-la como importante referência entre os artistas do acervo e nos estudos das relações entre arte e ciência, pois a autoraregistra em A sensibilidade do intelecto estudos e reflexões sobre o conhecimento artísticos e científicos e suas relações, principalmente no Renascimento e nos movimentos artísticos surgidos no início do século XX.

Destaca-se no Renascimento a criação da técnica da Perspectiva, influenciado diretamente o campo científico e artístico. Para Fayga, artistas renascentistas como Leonardo da Vinci e Piero della Francesca influenciaram diretamente as concepções científicas.

Ambos se caracterizaram por seu interesse e sua observação minuciosa dos fenômenos da natureza. Outrossim, tornando-se estudiosos de matemática e geografia, ambos escreveram tratados sobre as possibilidades da perspectiva, escritos estes que não só encontraram grande repercussão na época, mas também exerceram uma profunda influência sobre gerações posteriores de cientistas. (OSTROWER, 1998, p. 34-5)

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Candotti (2008) ressalta o interesse do artista e do cientista na observação minuciosa dos fenômenos da natureza destacado por Ostrower (1998), exemplificando-o a partir da relação entre o cientista Galileu Galilei e o pintor Paul Cézanne. Para Candotti (2008) tanto Galileu quanto Cézanneapoiam-se nessa observação. “A riqueza das informações sobre o mundo real registradas pelo agudo olhar dos pintores e escultores é semelhante àquela dos registros das ciências que observam a natureza” (CANDOTTI, 2008, p. 16).

Outro ponto enfatizado por Fayga, no livro, é a relação do movimento cubista e a formulação das teorias da relatividade e da mecânica quântica. Destacando as obras de Pablo Picasso e os estudos de Albert Einstein, Fayga apresenta essa relação a partir de duas passagens do texto.

O dinamismo de espaços em movimento fascinava os cubistas. Espaços sempre relativos, cujas formas se recriavam em relacionamentos recíprocos. Nas imagens cubistas surge uma realidade composta de fenômenos fragmentários. Os planos são fragmentados mais e mais, e desintegrados até chegarem a facetas diminutas e quase uniformes, como se fossem uma espécie de 'átomos' de matéria (OSTROWER, 1998, p. 47).

Nas magnitudes do universo astronômico, espaço e tempo perdem o caráter de entidades isoladas, sendo concebidos agora em conjunto na configuração de um continuum quadridimensional de tempo-espaço. Com isto o tempo perde o seu fluxo linear e uniforme, adquirindo nesta fusão certas qualidades do espaço. Por sua vez, o próprio espaço se encontra enlaçado ao tempo, na concepção da equivalência entre massa e energia, a qual foi formulada por Einstein na famosa equação: E=mc2 (OSTROWER, 1998, p. 217).

Essas concepções de espaço e tempo influenciam o surgimento do abstracionismo na arte, e refletem nas temáticas das obras da artista conforme apontado.

Outro ponto de convergência entre arte e ciência está na criatividade presente tanto no processo criador do artista quanto do cientista. Fayga reforça essa convergência, destacando a ciência e a arte como formas de conhecimento. "A criatividade, como potencial, e a criação, como realização do potencial, se manifestam de modo idêntico, independentemente dos rumos específicos que depois seguirão nas duas grandes vias do conhecimento" (OSTROWER, 1998, p. 285). Razão e intuição fazem parte da criação em arte e ciência. “O sensível e o intelectual reforçando-se mutuamente, a sensibilidade abrindo caminho para novos pensamentos e o pensamento estruturando a emoções” (OSTROWER, 1998, p. 248). Com base nisso, as reflexões da artista contribuem para o entendimento da criação como base comum da ciência e da arte.

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Figura 68 - OSTROWER, Fayga. Sem Título. Série 98/100, 1980. Litografia, 40 X 59,8 cm

Fonte: Fayga Ostrower, s/d.

A obra de Fayga, presente no acervo do Ifes. é uma litografia (Figura 68). Tem característica da fase abstrata da artista. A cor é elemento predominante e o laranja sobressai, semelhante a outras gravuras da artista (Figura 67). Nota-se também o movimento na gravura, marca característica do abstracionismo23 na obra da artista. Esse movimento pode ser percebido pelas linhas mais escuras que o fundo. Como apontamos, os estudos da artista Fayga Ostrower orientam as abordagens que adotamos para estabelecer as relações ciência e arte e determinaram as possibilidades de diálogos entre essas áreas do conhecimento nas propostas apresentadas nos demais artistas do acervo.

23 A obra abstrata abandona “toda e qualquer referência à realidade reconhecível” (STRICKLAND; BOSWELL,

2010, p. 143). O uso das cores e manchas pelo artista, sem a preocupação de representar algo identificável na natureza o que traz para a obra abstrata uma ideia da disposição livre e espontânea na produção do artista. Essa disposição livro causa a sensação de movimento ao observarmos uma obra abstrata.

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