CHAPITRE V LA CONSTRUCTION DE L’OUTIL D’ENQUÊTE : LE CADRE
7.4 Synthèse de la trajectoire sociospatiale du mouvement paysan ghanéen
Playtime, Jacques Tati
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O actual paradigma social, cultural e económico suporta-nos no debate em torno da necessidade de uma introspecção sobre a relação entre o indivíduo e o contexto: ou através de uma nova interpretação da realidade ou através de uma nova adaptação dessa realidade à imagem do homem contemporâneo. A arquitectura é susceptível a esta discussão. As reflexões sobre a indeterminação na arquitectura contemporânea, patentes neste trabalho, exploram posições interventivas na complexidade caótica do tempo presente. Para os Lacaton & Vassal e para Rem Koolhaas, é possível intervir sem restringir, sendo também possível fomentar a liberdade sem existir uma tentativa de controlar o instável através da manipulação de predeterminações. Esta visão da arquitectura desenvolve uma relevante interpretação do programa arquitectónico. Como Tshumi declara, não existe arquitectura sem um programa, aceitando assim, a normal e incontornável existência deste elemento no processo projectual. Este ponto reconhece no programa a capacidade de expor e interpretar (a partir do real) as funções estáveis. Pressupõe-se, contudo, a possível omissão de determinadas ocupações e eventos que denominámos aqui de instáveis. Nos arquitectos em estudo, essas ocupações são reconhecidas e identificadas durante o processo projectual e consequentemente incorporadas nas respostas desenvolvidas. O modo como alcançam essas respostas varia em ambos os casos, o que torna este estudo atraente e pertinente a sua aglutinação aos conceitos de potencial e performance.
Estes dois conceitos, que adoptámos de modo a clarificar e emoldurar a discussão das estratégias projectuais, encontram-se debatidos por vários outros autores, identificando-as como comuns e complementares na discussão da indeterminação contemporânea. Robert Venturi e Pierre Lévy, são autores que nos falam da necessidade de nos consciencializarmos das múltiplas competências que se encontram latentes nas coisas, assim como, da pertinência da capacidade de aperfeiçoamento e actualização na cultura contemporânea. As reflexões por detrás de “isto e aquilo” venturiano, alertam para as múltiplas significações que podem estar contidas numa só forma. A virtualização, em Lévy, introduz por sua vez, uma existência anterior a
qualquer concretização, levando-nos a compará-la ao conceito de potencial. Também em Umberto Eco, através da sua exposição de “estruturas abertas”, ou em Deleuze e Guattari, onde se privilegiam e debatem o desenvolvimento de estruturas rizomáticos nos movimentos de informação, poder e energia, conseguimos indicar semelhanças com o conceito de performance.
No entanto, é sobretudo em Herman Hertzberger que nos é revelada uma dualidade muito próxima à apresentada neste trabalho: competência & desempenho, abordada no seu “manual operativo” intitulado de Lições de Arquitectura. Competência é decifrada como a capacidade de abrigar significado, levando a mais vastas interpretações; desempenho, neste caso, é encarado como o modo como as coisas se comportam perante determinadas variáveis e determinadas finalidades. Este duplo conceito encontra-se muito próximo do que é reclamado aqui com os conceitos de potencial & performance. Hertzberger torna-se, assim, preponderante para uma certa validação na relação criada pelos dois conceitos.
Durante o trabalho, a apresentação destes conceitos é feita separadamente e acompanhada por uma estratégia projectual distinta e que consideramos exemplar. Contudo, ambos são reconhecidos como complementares, encontrando-se presentes nas duas estratégias projectuais. A separação pretende apenas possibilitar uma mais focada avaliação das estratégias projectuais, à imagem do conceito base a que estão ligadas. Tanto em Lacaton & Vassal como em Rem Koolhaas, potencial e performance, na forma como são aqui interpretados, apresentam-se de forma activa no modo como lidam com as problemáticas arquitectónicas.
O potencial é analisado como a competência implícita dos elementos manuseados no processo projectual. O conceito não conhece um actual estado de concretização mas a capacidade em corresponder a diversas realidades. Em Lacaton & Vassal é explorado como base da sua estratégia projectual. Sem dúvida, podemos igualmente identificar em Koolhaas um pertinente uso do potencial dos elementos projectuais. Podemos visualizar tal abordagem no modo como não se conforma com a finalidade predefinidade de um dado mecanismo. Certos sistemas construtivos e tecnologias usadas nos seus projectos, suportam a simulação e a artificialidade como formas de potencialização espacial. A plataforma hidráulica na Casa de Bordeaux ou o
sistema de treliça (vigas vierendeels) estudado para a proposta do ZKM em Karlsruhe, são exemplares disso. Se a plataforma móvel é adoptada para um programa habitacional, deve-se ao reconhecimento de competências que se adequam ao programa e à circunstância projectual. No ZKM, o sistema de treliça serve de resposta estrutural mas também de resposta a uma necessária reorganização vertical das infra-estruturas através do seu redimensionamento, transformando-o num piso habitável –uma estrutura de grande dimensão e grande capacidade sem os contras envolventes ao possível espaço que ocupa.
Seguidamente, se abordamos a performance como a obtenção de configurações que permitam a natural complexidade de ocupações sem no entanto restringir qualquer função específica, então poderemos associar toda a estratégia de potencialização dos Lacaton & Vassal de forma semelhante. Na Escola de Arquitectura de Nantes o desenvolvimento de um sistema de rampas e plataformas que abrigam o programa arquitectónico, que por sua vez potencializa o espaço-extra intersticial de forma a catalisar o que é reconhecido como ocupações instáveis mas reais, reflecte uma estratégia que muito se identifica com a performance debatida em Koolhaas.
Contudo, no exemplo de Nantes, não se pretende a criação de um sistema autónomo e catalisador do paradigma contemporâneo de congestão como em Koolhaas, mas apenas uma resposta à reconhecida instabilidade programática: uma intervenção no que os arquitectos reconhecem como controlável mas de modo a constituir um sistema aberto ao descontrolo. O produto destes dois objectivos –o de Koolhaas e o de Lacaton & Vassal– dá, no entanto, origem a um semelhante sistema de relações.
Sumariamente, o potencial, ao reconhecer competências múltiplas nas coisas manuseadas durante o processo projectual, demonstra-se à vontade em lidar com características virtuais (ou seja, por concretizar) tal qual as ocupações instáveis. A performance, tal como a função, reconhece na especificidade funcional do espaço o lugar para o desenvolvimento de necessárias respostas mecânicas, automáticas e eficientes. Contudo, e ao contrário da normal interpretação funcionalista, a importância em criar um sistema capaz de adaptações, adequações e actualizações, é fundamental na resposta às indeterminações projectuais.
Não poderemos também deixar de salientar algumas pertinentes distinções entre potencial e performance. O potencial é uma característica reconhecida, inerente a0 elemento observado e com que se lida. Apenas o processo de adequação e de actualização, apresentam uma intervenção livre por parte do arquitecto. Contudo, e como já referido, estas já pertencem a um acto de concretização e não a instrumentalização da “pura” potência latente.
Contrariamente, a performance é um “exclusivo” produto do arquitecto. Esta deriva das finalidades que se pretendem alcançar e que foram anteriormente identificadas. Daqui a ideia de catalisador e intensificador de ocupações instáveis.
Poder-se-á deduzir que potencial se encontra fora do controlo do arquitecto, cabendo a este apenas identificar e explorá-lo. Performance é, no entanto, uma criação deste profissional.
Talvez neste ponto seja pertinente reflectir sobre o modo como Lacaton & Vassal e Koolhaas vêem a arquitectura. Se os Lacaton & Vassal podem ser comparados com a personagem do bricoleur –pragmático e prático nas escolhas; objectivo e directo nas soluções que formaliza– Rem Koolhaas, por seu lado, deixa-se influenciar pela irracionalidade e pelo inconsciente, sempre apoiado por uma poderosa intelectualização e teorização das suas acções.
Também nas reflexões sobre Lacaton & Vassal, podemos encontrar o que aparenta ser uma estratégia projectual completamente estabelecida. O modo sedutor e empírico com que a expõem, deixa de parte um trabalho mais teórico –o que não significa que não seja pensado. Isto choca com a nossa segunda estratégia projectual. Koolhaas difere aqui através dos seus interesses nómadas, do seu imenso suporte teórico e, especialmente, da sua adaptabilidade e flexibilidade à circunstância projectual. Podemos porém, ressalvar nestes dois casos de estudo, uma grande necessidade de formalizar e tornar operativo os seus pensamentos –a tal valorização do agir em detrimento de uma pura intelectualização que anteriormente defendemos como variável na escolha destes arquitectos– mas também uma visão que coloca a arquitectura em primeiro plano, remetendo-a à matéria da cidade, e não uma arquitectura influenciada pela cidade.
Um outro dos sub-temas sensíveis do trabalho, remete para a definição de “organizador”, na actividade profissional do arquitecto. Terá então o acto de organizar um objectivo puramente ordenador? Diríamos que não, se considerarmos o objectivo como a obtenção de uma ordem reguladora. Se observarmos estas duas estratégias projectuais, ambas propõem o desenvolvimento de estratégias formalmente organizadoras para abarcar a aceite indeterminação inerente no processo projectual. Este ênfase no aspecto formal pretende contrapor-se com ideias de “flexibilidade universal”, baseada na mutabilidade formal do espaço, na resposta a este problema.
Aparenta, então, ser possível responder ao instável e indeterminado sem deixar de parte a especificidade e a eficiência que normalmente não se encontram agrupadas. É então fundamental criar uma distinção: a indeterminação aqui abordada relaciona-se com a natural instabilidade programática, ou seja, as estratégias aqui mencionadas não pretendem, nem reconhecem, a pertinência em criar soluções para todas as ocorrências possíveis num edifício –a principal premissa das propostas que defendem a “flexibilidade formal universal”.
A especificidade espacial, usualmente excluída do debate em torno da necessidade de maior flexibilidade espacial perante as ocupações indeterminadas é, por estes arquitectos, aceite assim como instrumentalizada, tornando-se num elemento fundamental na elaboração de uma resposta projectual. Tal deve-se ao reconhecimento da especificidade como catalisador e criador destas ocupações instáveis: não existe instabilidades sem ordem, assim como não poderá existir ordem sem que se crie desordem. Daí a denominação de ocupações intervalares ou “in-between” como Tshumi as denomina. Consequentemente e perante a consciencialização da incapacidade de previsão de tais actividades e da sua importância num sistema global de relações, é na análise do programa arquitectónico que ambas as estratégias se focam.
Pretende-se, em sintese, manter e reforçar a posição do arquitecto como organizador espacial afastando-se da discussão em torno da dissolução deste profissional na complexidade dos fluxos contemporâneos, mas também a validação da eficiência e da especificidade funcional no debate relativo à flexibilidade em resposta à indeterminação na arquitectura.
ADVERTÊNCIAS AO LEITOR
escolha deve-se à pessoal fase de adaptação em que esta alteração se encontra, apesar de já se encontrar estabelecida. Assim, e de forma a facilitar a leitura e a elaboração do trabalho, foi decidido adoptar as regras anteriores a este acordo.
Relativamente às traduções, por razões de coerência e clareza, mantivemos a maioria das citações na língua original de onde foram retiradas, salvo algumas excepções: no caso da língua alemã e francesa, foi decidido optar por uma tradução para português de forma a tornar mais acessível o texto. Outra excepção, engloba a tradução de pequenas frases e expressões de forma