oobjetode estudo e o marco teórico da pesquisa apontam para a pertinência de
utilizar a metodologia qualitativa de enfoque etnográfico, que propicia uma aproxi- mação substantiva do bairro de atuação dos ACS e uma participação ativa na vida dos atores, tal como proposto por Geertz (1978).
O trabalho de campo para esta pesquisa foi conduzido em um dos 22 bairros que formam o Subúrbio Ferroviário de Salvador, Bahia, região assim conhecida por se estender ao longo da ferrovia que margeia a orla da Baía de Todos os Santos.
A escolha do bairro deu-se pelo fato de ele abrigar uma das primeiras USF a se instalar no município de Salvador e, também, pela facilidade decorrente da exis- tência de um contato prévio com uma pessoa moradora do bairro que se tornou um informante-chave.
Foi a partir deste informante que a pesquisadora identificou mulheres e homens interessados em participar da pesquisa. Essa estratégia de identificação das pessoas do bairro para as entrevistas foi um dos cuidados tomados para que a pesquisadora não fosse vista como uma profissional da saúde, fator que poderia de algum modo enviesar as respostas. Além disso, os primeiros contatos para as entrevistas foram iniciados antes que a pesquisadora passasse a percorrer as ruas ao lado de agentes de saúde.
Optou-se, neste texto, por trabalhar com as categorias empíricas de “mulher” e “homem”, embora se reconheça a necessidade de que os estudos ultrapassem a fixidez dos discursos binários da biomedicina moderna e da heterossexuali- dade compulsória para incorporarem as diversas formas de estar no mundo que ganharam visibilidade na contemporaneidade.
A investigadora acompanhou com regularidade o trabalho dos agentes comuni- tários de saúde junto às usuárias e usuários da USF que moram no bairro, no período de junho a outubro de 2007. Em vários momentos, a pesquisadora residiu no bairro com o propósito de se aproximar do cotidiano local, compreender algumas
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características dos meios e modos de comunicação que circulam no bairro e, assim, identificar o ideário sobre gênero nas falas e gestualidades espontâneas. Neste sentido, a pesquisadora participou de eventos para os quais foi convidada, como festas de aniversário, apresentações culturais, ou almoços organizados nas casas de algumas pessoas entrevistadas.
O gênero como categoria de análise emergiu com as críticas feministas às abor- dagens que justificavam a assimetria de poder entre mulheres e homens, a partir das diferenças aparentes na anatomia sexual. Esse conceito veio, então, para contestar o suposto “alicerce biologicamente determinado” que serviu (e serve) para construir socialmente a relação hierárquica entre mulheres e homens, onde às mulheres está reservada a condição de “ser reprodutivo” e a posição de “ser inferior ao homem”. (HEILBORN; SORJ, 2002; SCOTT, 1990)
A produção sobre gênero no Brasil e no mundo é vasta. Ciente de que, diante da complexidade e das construções multifacetadas relativamente ao gênero, é neces- sário priorizar concepções que norteiem as análises dos discursos sobre gênero pro- duzidos nas interações comunicacionais. A perspectiva adotada no presente estudo se aproxima das abordagens de Heilborn (2003), Heilborn e Sorj (2002), Scott (1990), Bourdieu (2003) e Goffman (1976, 1977) a respeito dos efeitos da socialização dos gêneros nos corpos e suas expressões.
Para analisar discursivamente a categoria gênero, além dos aportes de Bourdieu, também foram fecundas as reflexões de Tannen (1996), onde a autora analisa a cate- goria de estilo conversacional. Nesse livro, Tannen afirma que “[...] o exame das ope- rações do estilo conversacional na interação pode ajudar a explicar como a domi- nação se cria realmente na interação” (TANNEN, 1996, p. 22) e que justamente por essa razão é que a interação é importante de ser analisada. De acordo com a autora, descrever as diferenças identificadas nos estilos conversacionais de mulheres e homens não significa afirmar que elas sejam determinadas biologicamente. Pelo contrário, Tannen argumenta que as fontes de diferenças de poder relacionadas com o gênero não são apenas linguísticas, considerando que a socialização ou expe- riência cultural é a principal influência formadora dos modelos impregnados de gênero nos modos de falar.
Os aportes teóricos relativos ao campo da comunicação interpessoal derivam da obra de Goffman (1970, 1974, 1976, 1977, 1981, 2007), de quem se traz os con- ceitos de interação e de displays de gênero, assim como da teoria de Bourdieu (1994, 1996, 2003, 2004) e seu conceito de incorporação de habitus. Ambos se referem
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às expressividades na comunicação: Goffman reconhece nos displays de gênero o “peso das estruturas”, enquanto Bourdieu fala do trabalho social de construção das posturas e demais dimensões dos habitus nos contextos de dominação masculina. Neste sentido, os habitus encravados nos corpos e nos esquemas de percepção e ação são, neste artigo, vistos como discursos.
A categoria analítica relacionada à comunicação interpessoal é apreendida de Goffman (1976, p. 77,), que, analisando displays de gênero, sustenta que qualquer cena é uma ocasião para palavras e gestos descreverem uma “[...] multiplicidade de ‘generismos’1 de ‘expressões’ de feminilidade (ou masculinidade).” Na opinião
do autor, além de exprimir a dominação masculina e a submissão feminina, essas expressões de “generismos” nos contam que a função social desses signos consiste em entreter a expectativa de que a assimetria de gênero se assenta na natureza.
As ferramentas analíticas fornecidas por Goffman (1970, 1974, 1976, 1977, 1981, 2007) são apropriadas a este estudo, uma vez que, ao viabilizarem a apreensão de componentes expressivos das interações, permitem analisar expressividades e impressões, relativamente a gênero, produzidas no cotidiano de algumas das ativi- dades de uma USF.
De acordo com Bourdieu, as relações interpessoais não são relações de indivíduo a indivíduo, ou de confrontação singular entre dois agentes particulares, até porque a interação nunca reside inteiramente na interação. O autor afirma:
As práticas mais estritamente voltadas, na aparência, para as funções de comu- nicação pela comunicação [...] estão sempre orientadas também para as fun- ções políticas e econômicas. [...] A recepção (e, sem dúvida, também a emissão) depende [...] da estrutura das relações entre as posições objetivas dos agentes em interação na estrutura social estrutura esta que comanda a forma das interações observadas numa conjuntura particular. (BOURDIEU, 1994, p. 52-53)
Para Bourdieu, as interações não estão isoladas das relações de força simbólica e de força política, que perpassam os habitus “[...] sem dúvida pressentidos a partir de índices imperceptíveis da héxis corporal.” (BOURDIEU, 1994, p. 74)
A noção que adotamos aqui de disposições estruturadas de gênero indicará atitudes, posturas do corpo, gestualidades e falas conformes as regulamentações do gênero e observáveis mediante a incorporação do que a sociedade considera
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masculino e feminino, tais como: para a mulher, gestos delicados, tom de voz baixa, pouca assertividade e curiosidade, postura inclinada e cabisbaixa, dentre muitos outros; para o homem, gestos e falas diametralmente opostos aos da mulher. Similar e inversamente, serão referidas como “disposições transformadoras de gênero” as enun- ciações mediante as quais se exprime a desobediência àquelas regulamentações, pela problematização ou alteração em relação aos padrões tradicionais de gênero.
A investigação realizada articulou técnicas de pesquisa de consulta a fontes secundárias da USF, de observação participante com roteiro orientador e de rea- lização de entrevistas com roteiro semiestruturado, sem deixar de dialogar com outros estudos e referenciais teóricos. Nas entrevistas, a categoria gênero foi aces- sada por meio de questões em torno dos termos “ser mulher” e “ser homem”. Nas interações, a categoria foi observada a partir das expressividades, verbais e não ver- bais, projetadas nos contatos face a face de profissionais da saúde e usuários dos serviços prestados na USF do bairro.
A investigação limitou o campo de pesquisa à região adscrita à USF escolhida, cujos profissionais acompanham cerca de 6.400 pessoas distribuídas em 1.725 famí- lias cadastradas. (SISTEMA DE INFORMAÇÃO DA ATENÇÃO BÁSICA, 2006) De acordo com os relatórios dessa USF, existe um relativo equilíbrio numérico entre homens e mulheres em quase todas as faixas de idade. As maiores discrepâncias encontram-se no grupo com menos de 10 anos, no qual predomina o sexo masculino, e na faixa de 10 a 49 anos, onde as mulheres respondem por 52%. Aproximadamente 70% das pessoas que habitam o bairro estão em idade reprodutiva, uma vez que cerca de 20% estão abaixo de 10 anos, e 10% com 50 anos ou mais. As estatísticas da USF não informam a raça, a cor e a etnia dos residentes, mas basta percorrer o bairro para per- ceber que a área pesquisada é predominantemente constituída por residentes negros.
Em sua maioria (99,29%), as casas são construídas com tijolos ou adobe. Cerca de 95% delas são beneficiadas pela energia elétrica. O abastecimento de água pela rede pública beneficia 99,65% das famílias, mas somente 69,54% das famílias cadas- tradas utilizam água filtrada no domicílio, enquanto 2,3% recorrem à fervura, 0,59% à cloração e 27,51% à utilização de água sem tratamento. A coleta pública de lixo beneficia 97,76%% das famílias; as demais queimam, enterram ou despejam o lixo a céu aberto. (SISTEMA DE INFORMAÇÃO DA ATENÇÃO BÁSICA, 2006)
Quanto à observação participante, foi utilizada nas situações cotidianas da USF, bem como no acompanhamento do trabalho executado por agentes de saúde, ou seja, nos cenários que correspondem às reuniões de equipe nas unidades básicas de
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saúde, às visitas domiciliares e às ações educativas e de comunicação, individuais e coletivas, nos domicílios e demais espaços comunitários (escolas, associações, entre outros). Essas ações constituem as de orientação quanto à utilização dos serviços de saúde, de promoção da saúde, de prevenção e busca ativa de doenças e agravos, de vigilância à saúde e de mobilização e participação da comunidade para o controle social. Quanto à comunicação no interior da equipe de saúde da família, além das reuniões acima mencionadas, ela também foi observada nas conversas informais dos profissionais com os agentes comunitários de saúde, nos “bastidores”, como afirma Goffman (2007).
Diariamente fez-se a observação da ambiência e funcionamento da unidade, privilegiando aspectos relacionados a gênero. Foram também observadas 85 visitas domiciliares, 5 visitas de supervisão, 5 consultas de planejamento familiar, 8 reu- niões de equipe, uma ação de formação da equipe de agentes comunitários de saúde em temas de saúde sexual e reprodutiva, 2 campanhas de prevenção, assim como algumas conversas de bastidores.
Além disso, 28 entrevistas semiestruturadas em profundidade foram realizadas, 17 com residentes do bairro (11 mulheres e 6 homens com idades variando entre 20 e 50 anos), e 8 com agentes comunitários de saúde, das quais 4 com agentes mulheres e 4 com agentes homens. Entrevistou-se ainda três profissionais respon- sáveis pela supervisão dos ACS. As entrevistas foram gravadas e transcritas para permitir a sistematização dos dados e a análise das informações produzidas.
A análise dos resultados consistiu na interpretação dos padrões discursivos, par- ticularmente o que se disse e o que se fez ao dizer, à luz do contexto social e do aporte teórico fornecido por Goffman (1970, 1974, 1981, 2007) e Bourdieu (1994, 1996, 2004). Para a análise dos resultados, recorreu-se a conteúdos das palavras, frases, gestualidades e marcas sonoras (posturas, posições dos corpos, entonações e silêncios) e demais modos de operação observados. A pesquisa enfatizou a obser- vação dessa produção discursiva quanto à sua direção (normalização ou negociação de sentidos), seu foco (no indivíduo ou contexto social) e os esquemas de percepção das pessoas entrevistadas relativamente a gênero.
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