DU CODE DU TRAVAIL DU 15 DECEMBRE 1952
4- Le recouvrement des cotisations de la sécurité sociale
A sonoridade do indie rock é complexa e diversa. Temos dentro desta rotulação guitar bands, como Sonic Youth e brincando de deus; outras que flertam com o ska, como a Vampire Weekend; outras com influências do surf music, como Little Joy; aquelas que dialogam com a música popular brasileira, como Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta; com o punk rock, como Pixies. Mas nos interessa também perceber nuances musicais estabelecidas entre elas que compartilham determinados valores, estas sonoridades são sempre agregadas como alternativas a sonoridades estabelecidas no mercado da música popular massiva, seja pela distorção, pelos valores étnicos e alternativos de determinadas sonoridades, seja pelos aspectos básicos da produção sonora em detrimentos das grandes produções fonográficas e também pela capacidade de abertura que o indie rock tem em dialogar com outras sonoridades que estilos mais estabelecidos não têm, como, por exemplo, o heavy metal. Tal como afirma Bannister (2006), o indie rock é feito por jovens brancos, normalmente homens; por outro lado, ele permite aberturas e diálogos com formas culturais que são periféricas ao mundo do rock, mas que mantêm um tom de autenticidade.
O indie rock tem fortes características ideológicas e sociais, como autenticidade, uma oposição ao mainstream, um discurso preocupado em não ser reconhecido como comercial, mas como criativo, autônomo. Mas nos interessa também perceber nuances musicais estabelecidas e reconhecidas que fazem com que se compartilhem valores, mas também regras aceitas socialmente (FABBRI, 1980). É possível perceber padrões sonoros dentro do indie rock que absorvem diversos estilos musicais, como punk rock, folk-rock, surf music. Um dos instrumentos importantes e de destaque para o gênero é a guitarra, mas também percebermos que o uso das gravações em baixa fidelidade, a preferência por tecnologia antiga e o uso de distorções são elementos que ajudam a esboçar uma musicalidade indie rock, uma estética musical que tem como “pano de fundo” um contexto econômico, no qual as bandas não tinham dinheiro e só podiam alugar o estúdio por poucas horas de estúdio, portanto faziam valer logo a primeira gravação, normalmente feita com instrumentos e equipamentos baratos. Estas condições limitavam a sonoridade, que foi transformando-se em valores de autenticidade do gênero. Para Bannister:
O minimalismo musical tornou-se uma faceta do indie rock, o seu estilo que repercute nos volumes da guitarras, sempre com uma mixagem alta, obscurecendo os vocais e dando um efeito de música ao vivo, herança do
punk rock (BANNISTER, 2006, p. 70).
O que percebemos é que a forma indie rock incorporou e se transformou na sua estética tendo como base uma limitação econômica e uma posição alternativa ao estabelecido que foram percebidas como o som do indie rock.
Dentro desta perspectiva, observamos o exemplo da banda brasileiro-americana Little Joy. A revista Trip de janeiro de 2009 trouxe uma entrevista com o cantor e compositor Rodrigo Amarante, um dos líderes da banda Los Hermanos, sobre Little Joy, novo “projeto” de Amarante com Fabrizio Moretti, baterista da Strokes. A entrevista chama atenção para as estratégias de comunicação da Little Joy e do próprio Amarante corroboradas pela narrativa do jornalista Bruno Tortuga Nogueira. A reportagem foi realizada em um meio-fio, em “um bairro de poucos recursos em Oklahoma City”, constata Tortuga (2009). O glamour, que poderia estar ao lado de um dos líderes de uma das bandas mais bem-sucedidas do rock brasileiro na primeira década do século XXI e de um dos componentes da celebrada Strokes, não existe. Amarante declara na capa da revista: “Nunca ganhei dinheiro com Los Hermanos”. E apresenta sua rotina com outros componentes da banda de rodar os Estados Unidos da América em uma van alugada tocando em clubes sem nenhuma projeção.
A agenda de shows parece rota de fugitivo. Em 38 dias, 30 shows, 29 cidades, cada dia em um hotel. Na enorme van, alugada de uma amiga, vão Rodrigo e sua mulher, Karina, a luminosa Binki Shapiro, tecladista e cantora, e Fabrizio Moretti. Se o nome do último não lhe é familiar, sua outra banda deve ser. Moretti, brasileiro, é baterista dos Strokes. No Little Joy, ele toca um raro violão tenor e capricha no backing vocal. Apresentações diárias, sempre no mesmo esquema: eles mesmos guiam, descarregam a van, montam o palco, passam o som, comem um grude, vendem merchandising, carregam o porta- malas − e de volta à estrada, a caminho de outro palco de pequeno porte (TORTUGA NOGUEIRA, janeiro/2009, Revista Trip).
Little Joy adota estratégias de circulação condizentes com um trabalho autoral, artístico, sem a interferência de toda a infraestrutura montada pela indústria fonográfica, que eles tinham acesso em suas bandas “principais”. O que o “projeto” de Moretti e Amarante faz é retornar às estratégias de circulação comuns a bandas que estão fora do mainstream.
Muito mais do que uma excentricidade de estrelas, o que está em jogo aqui é um posicionamento ideológico da banda. Eles se reapropriam de um estilo de vida (público pequeno, clubes sem notoriedade, on the road) comum ao mundo da música no circuito
independente, “o faça você mesmo”, para valorar a música com uma aura descritiva e artística. Amarante explica que:
Muita gente me pergunta por que fazemos isso. Mas a nossa condição é a de uma banda nova, e a gente não tem ilusão. A forma como essa turnê é possível − e a gente queria fazer uma turnê, tocar, mostrar nosso som − é essa. Então, vamos fazer assim. (...) Adoraria estar ganhando muito dinheiro, poder alugar apartamento em Los Angeles. Nem isso eu posso. Fico na casa de um e de outro, e por aí vai (TORTUGA NOGUEIRA, janeiro/2009, Revista Trip).
Os significados da fala de Amarante são parte de uma estratégia de legitimação para o espaço que a sua nova banda quer ocupar dentro do cenário da música independente. A turnê, a van, a montagem do palco pelos próprios músicos, a falta de grana são referências compartilhadas em torno da comunicabilidade do indie rock.
Podemos buscar referências nas regras de Fabbri (1980) para pensar as estratégias do Little Joy, especificamente as comportamentais encontradas em entrevistas, videoclipes, fotografias, relação entre artistas e jornalistas, artistas e fãs. As fotos de divulgação veiculadas pela imprensa da banda Little Joy trazem os artistas em um carro, em uma praia de Los Angeles (LA), Califórnia, os três componentes – Fabrizio Moretti, sentando com a porta de um carro de modelo antigo, olhando para o mar, em pé Rodrigo Amarante olhando para Moretti e abraçado a Binki Shapiro (namorada de Moretti), olhando para o vazio. Ela está descalça. Ao fundo se vê um píer provavelmente da praia de Santa Mônica em LA (EUA). Todas as entrevistas, fotos, vídeos mostram uma despretensão e o acaso como tudo aconteceu entre eles. Na revista Rolling Stone (2009), o texto sobre o lançamento oficial do disco diz que Amarante encontrou Moretti na gravação do álbum de Devendra Banhart. Como tanto Strokes como Los Hermanos estavam parados, resolveram tocar um projeto juntos. Outra foto traz os três sentados em uma calcada em clima de camaradagem, sorrindo (Figura 1). Shapiro de short de bolinha e camiseta, Moretti de camiseta branca e Amarante de camisa listrada. O clima sugere que a foto foi feita de surpresa, por acaso. Quando olhamos a foto de uma banda, lemos uma entrevista de um músico, podemos identificar qual tipo de música é feita ali, porque muitas vezes o gênero está ligado a determinados comportamentos e posições sociais.
Figura 1 – Componentes da banda Little Joy
Fonte: http://www.rocknbeats.com.br/2009/07/09/confirmado-little-joy-de-volta-ao-brasil/
Uma banda como Little Joy, que se posiciona como pertencente ao circuito de indie rock, dá entrevista no meio-fio, toca em “clube de rock honesto, mas fuleiro”, tem um público pequeno. O grupo está confortável neste ambiente diferenciado do mainstream. Para Shuker (1998), a música independente tem como principal característica uma oposição a tudo que está em vigor e está associada a um “conjunto de valores musicais, destacando a autenticidade52” (SHUKER, 1998, p. 172). Ao colocar em prática uma ideologia comum ao circuito do rock independente, a Little Joy utiliza de estratégias de valoração da sua música para determinadas audiências. Fazer parte da cena independente é buscar um espaço de legitimação de artista não enquadrado na lógica da indústria fonográfica.
Os gêneros são classificados pela sonoridade, por temáticas, por elementos imaginários, por clichês harmônicos e melódicos e por elementos intrínsecos, como faixa etária, estilo de vida, mas também por ideologia, por contextos sociais e históricos. Ao ouvir canções do disco da Little Joy, percebe-se uma música “praieira” com guitarra a la Beach Boys, banda dos anos 1960. Não por acaso, as fotos são em uma praia da Califórnia. O vocal de Binki Shapiro na canção Unattainable, com um violão e um coro de voz ao fundo, traz uma sonoridade próxima à das canções de praia de Elvis Presley. A voz um pouco desafinada segue a cartilha do indie rock. As canções são agradáveis, as harmonias simples e relaxadas, como também sugerem as fotos de divulgação do
52 Shuker coloca que um elemento para situar autenticidade no cenário da música popular é a divisão da
indústria fonográfica em selos independentes (mais autênticos e menos comerciais) e em grandes gravadoras (mais comerciais e menos autênticas). A autenticidade (ou não-autenticidade) também pode ser analisada na assimilação e legitimação de artistas e discos por subculturas ou comunidades específicas (SHUKER, 1998, p. 28).
álbum e as entrevistas de Amarante. Ao utilizar estratégias que funcionam como filtros para se posicionar dentro de um rótulo como o indie rock, a Little Joy mantém a circulação para uma determinada audiência que se identifica com uma sonoridade mais nostálgica dos anos 1960, por exemplo. Fabbri (1980) coloca que:
Quanto mais um gênero baseia-se num conjunto de regras complexas, mais "rico" será e irá conter os códigos e as suas regras irão durar. O oposto também é válido para os gêneros ou sistemas "pobres" dos códigos: “a mudança de regras é muito mais perceptível” (FABBRI, 1980).
Podemos levar em consideração uma unidade cultural em torno dos gêneros e as competências que cada gênero possui, tanto nas suas audiências, como em músicos, produtores e críticos.
As guitarras e os estúdios baratos, uma masterização que afetava os elementos rítmicos, o uso de pedais com guitarras dissonantes que apagavam os vocais são situações iniciais do indie rock que vão sendo absorvidas como uma forma de se fazer este tipo de rock e acabam sendo incorporadas como marcas estilísticas do indie rock posteriormente. O uso de notas repetidas, cordas com vibração, muito efeito de reverberação, guitarristas que não são virtuosos, canções harmonicamente simples e repetitivas e os vocais monótonos. Um som pouco produzido, com um vocal fraco, guitarras muito distorcidas, poucos elementos rítmicos são elementos que vão sendo incorporados como marcas do gênero e concretizando-se como o ideal indie rock para uma comunidade de conhecimento. A música é simples, direta, sem fírulas, com ênfase para reverberações, poucos instrumentos, uso acentuado de guitarras. As canções não são românticas, mas pessimistas, intelectuais, individualistas, corporificado uma música para ser ouvida como expressão artística, e não descartável e feita para vender. Sua principal marca é a rejeição ao mainstream e um olhar para a profissionalização como se fosse sinônimo de cooptação pelo mercado. As limitações técnicas e econômicas, o improviso, o underground são elementos que vão construído o idealismo do indie rock. “A idealização de incompetência servindo como uma importante função ideológica” (BANNISTER, 2006, p. 80). As limitações técnicas, as posições ideológicas (resistência, autonomia, autenticidade) fazem parte das representações do indie rock e se transformam em suas características, em uma codificação estética.