Approches du roman policier méditerranéen
I.2.1 La Méditerranée : lieu de rencontre et de culture
I.2.1.2 La rencontre entre l’Occident et l’Orient ?
Nos inúmeros depoimentos existentes sobre Vianinha o que mais chama a atenção é a lembrança de alguém intenso, amável, apaixonado e coerente. Essas características podem ser apreendidas em todos os seus trabalhos, e os professores que analisaram as obras de Vianinha (aqui abordados), em algum momento de seus textos, observam esse perfil do autor. Mas, por mais que se constate o perfil humano e carinhoso de Vianinha, nos trabalhos estudados até aqui nada é dito sobre o menino, o
61 filho, as “diabruras” da infância, as inconstâncias da adolescência ou as dúvidas da vida madura.
De todas as obras sobre o autor, duas se ocupam quase que exclusivamente de aspectos íntimos de Vianinha. A primeira é o emocionado livro de memórias de Deocélia Vianna69 e a segunda é a biografia Vianinha, Cúmplice da Paixão70.
Companheiros de Viagem, de Deocélia Vianna, foi escrito após a morte de Oduvaldo Vianna (1972) e de Vianinha (1974). Segundo palavras da própria autora, o sofrimento imposto pela morte do marido fez com que ela sentisse a necessidade de escrever “uma espécie de livro de memórias, narrando nossa vida, nossas alegrias, nossas tristezas, nossas lutas, nosso envolvimento político”71. Por esse tempo Vianinha
adoece e o projeto é abandonado em razão dos cuidados que a doença do filho exigia. Dois anos mais tarde, em 1974, Vianinha falece e, incentivada por Maria Célia Teixeira72, Deocélia reúne forças e documentos para registrar a sua vida ao lado de seus dois companheiros Oduvaldo e Vianinha.
Deocélia inicia sua narrativa contando sobre a própria infância em Curitiba, sobre o sofrimento causado pela separação dos pais e consequente mudança da mãe para São Paulo. Finda a infância, o capítulo seguinte é dedicado à sua juventude e à sua inserção no mercado de trabalho. É nesse período que ela conhece Oduvaldo Vianna. Ele estava casado quando ela foi contratada para organizar seus papéis. Desse convívio, nasce o amor que leva Oduvaldo a se separar da esposa e casar-se com Deocélia.
A “estrada”, a partir desse ponto, é percorrida de mãos dadas com Oduvaldo e Vianinha e com todos os companheiros que vão surgindo no caminho. Deocélia narra sua vida de idas e vindas ao lado do marido, as perseguições, os projetos de trabalho de
69VIANNA, D. Companheiros de Viagem. Coord e pesquisa: Maria Célia Teixeira. São Paulo:
Brasiliense, 1984.
70 MORAES, D de. Vianinha, Cúmplice da Paixão. Rio de Janeiro: Record, 2000. (Edição revista e
ampliada)
71 VIANNA, D. 1984, p.7.
72 Companheira de trabalho de Vianinha na TV Tupi e parceira na pesquisa para a escrita da peça Rasga
62 Oduvaldo, que incluíam a produção cinematográfica, a candidatura do marido a deputado estadual pelo PCB, em 1945, e a relação paradoxal entre Assis Chateaubriand (presidente do Grupo Associados) e Oduvaldo Vianna: aquele, empresário de comunicação sem convicção política, mas certamente alguém muito distante do Partido Comunista, e este, um dramaturgo e comunista convicto e atuante, em quem Chateaubriand sempre depositou muita confiança. Em meio aos acontecimentos de sua vida com o marido, vão sendo narradas as “diabruras” do pequeno Vianinha. Suas leituras prediletas, seus super heróis, suas brincadeiras e amizades.
Em final da década de 1950, Deocélia e Oduvaldo retornam para o Rio de Janeiro. Vianinha fica em São Paulo. As cartas trocadas nesse período vão sendo transcritas e nelas vemos o jovem dramaturgo contar as suas descobertas profissionais no Teatro Paulista dos Estudantes e, posteriormente, no Arena. Mas, se nessas cartas estão apontamentos do dramaturgo que surgia, estão nelas também coisas que só uma correspondência entre mãe e filho pode guardar. As cartas, como bem ressalta a historiadora Michelle Perrot, “mostram o avesso do espetáculo, as fadigas do herói, suas dúvidas e seu dia a dia”.73 Assim, “ouvimos”o jovem saudoso da comida da mãe, o
homem que por diversas vezes se envergonha de não ser capaz prover o próprio sustento, a dúvida diante das escolhas, o nascimento do primeiro filho e a forma carinhosa de tratamento de Vianinha com seus pais.
Na continuação de seu livro de memórias, Deocélia descreve a luta pela legalidade do PCB em 1961, o golpe militar de 1964. Os registros são feitos a partir do cotidiano dessa mulher e nesses apontamentos personagens da história política do país vão sendo desenhados. Mas, se os fatos políticos são relatados, neles está também o cotidiano da família Vianna. A ida de Vianinha para o CPC, as dificuldades enfrentadas, o casamento desfeito, a paternidade comprometida, as alegrias e, mais uma vez, as dúvidas do já não tão jovem dramaturgo.
Por fim, Deocélia dedica o último capítulo à narrativa de sua relação com os netos, com Oduvaldo Vianna em seus últimos anos e com Vianinha. Nesse capítulo, a
73PERROT, M. As Mulheres ou os Silêncios da História. Trad. Viviane Ribeiro. Bauro/SP: EDUSC,
63 autora descreve, entre outras coisas, a descoberta da doença, o tratamento, a esperança de cura e a reincidência. Vianinha dita o último ato da peça Rasga Coração à sua mãe, lá está o grande dramaturgo, mas está o homem deitado no leito, a última palavra, o sofrimento dele e, de forma quase silenciosa, o imenso sofrimento dela. Mãe e filho, mais que dramaturgos.
O livro de Deocélia Vianna, mais que um rememorar, é documento para aqueles que estudam Vianinha, Oduvaldo e a própria autora. Ainda que escrito em primeira pessoa, mesmo com todos os riscos que o rememorar impõe, - num momento de tantas perdas - o livro, tomados os cuidados impostos aos historiadores diante de qualquer documento, é fonte rica de informações tanto sobre o dramaturgo Vianinha quanto sobre o filho, pai, cidadão, marido e amigo Oduvaldo Vianna Filho.
Menos intimista, Vianinha, Cúmplice da Paixão, de Dênis de Moraes, é a referência de biografia entre os estudiosos de Vianinha. Mobilizando documentos que vão desde depoimentos de amigos e familiares de Vianinha a entrevistas, textos dramatúrgicos, críticas jornalísticas e declarações do autor74, a obra conta a vida do dramaturgo tanto pelo seu trabalho quanto pelos seus aspectos pessoais.
Dividido em vários capítulos, o livro de Dênis narra a vida de Vianinha desde a infância até a morte. Da infância apreende-se o gosto pela leitura, a amorosa relação com os pais, a amizade com os primos, o gosto pelo futebol.
Juventude e maturidade são descritas em períodos que marcam as mudanças do autor em sua carreira. Assim, a vida de Vianinha vai sendo narrada levando-se em conta os períodos vividos no Arena, no CPC, no Opinião e no pós 1968. Em cada um desses períodos vão sendo referidas obras do dramaturgo, bem como vários aspectos da sua vida pessoal: o primeiro ano de faculdade, o início da carreira, as conquistas amorosas, a paixão por Vera Gertel, o primeiro filho, as descobertas com Boal, a experiência do Arena, o divórcio, o CPC, o medo no primeiros dias do golpe, a luta pela redemocratização, a relação com o partido e com a luta armada, entre muitos outros aspectos da vida do dramaturgo.
64 Como bem salienta Alcione Araújo, no prefácio da obra, Dênis de Moraes dá mais relevo aos aspectos sociológicos, políticos e históricos do período em que Vianinha viveu que à relação entre esse período e a sua obra. Esse talvez seja um ponto positivo do texto, nele a obra se faz presente, mas não condiciona ou é condicionada de forma direta pela vida do autor. O relevo está na pessoa de Vianinha, que ultrapassa o autor.
As duas obras são leituras obrigatórias para os estudiosos de Oduvaldo Vianna Filho. Delas, o leitor apreende os momentos importantes da carreira do dramaturgo, seus textos e debates, bem como percebe o homem que escreveu o texto.