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2. LE CONCEPT DE MODÉLISATION

2.2 La modélisation comme démarche d’investigation scientifique particulière

2.2.1 La démarche de modélisation inductiviste-applicationniste

Os conflitos no Salso são oriundos de dois processos que se complementam. O primeiro é o de valorização das terras, que tem como uma das causas a expansão da região metropolitana de Curitiba. O segundo é a ideia de que a “vida” em torno das práticas de uso comum é tida atrasada diante da “vida” centrada no uso individual, que vem ganhando adeptos entre os moradores que vem de fora (chacareiros).

As compras de terras no Salso, para fins de lazer, de especulação e de comercialização (eucalipto, soja, milho e fumo), têm se tornado cada vez mais constantes, principalmente a partir da década de 1990. São vários os conflitos que isso gera, pois a racionalidade trazida pelos moradores “que vêm de fora” não se ajusta às regras consensuais dos moradores antigos do Salso. Esta denominação foi encontrada com muita frequência entre os entrevistados. O “que vem de fora” refere-se ao sujeito que não ingressou na comunidade pela via do parentesco, herança ou do casamento. É um sujeito “estranho” que, por uma relação exclusivamente de compra e venda de terras, se tornou vizinho dos mais antigos. No ambiente urbano, a relação pura de compra e venda da morada predomina. Entre os camponeses, a relação de compra e venda também existe, mas ela vem acompanhada de diversos significados. Os “de fora” também são conhecidos comumente como chacareiros ou chacreiros pelos faxinalenses.

Sob a alegação do direito da propriedade privada, eles fazem o fecho, plantam dentro do criador e cercam a lavoura em áreas que são destinadas ao uso comum. Dependendo do tipo cerca75 que delimita esses fechos, os animais de menor porte acabam invadindo a lavoura, o que ocasiona desentendimentos entre os moradores, ocorrendo desde a matança dos animais invasores até processos judiciais.

Nas palavras de uma faxinalense do Salso, conforme o faxinal ia sendo povoado as terras iam diminuindo. Há uns 40 anos atrás, cada família possuía, em média, 10 alq. (24,20 ha) dentro do criador. As terras eram abundantes e os animais ficavam vários dias sem serem encontrados pelos seus donos. Isso provocava certo desconforto para os moradores porque um determinado serviço, que necessitava dos animais de maior porte, tinha que ser adiado. Em alguns casos, prendiam-se os animais - não por falta de espaço dentro do criador, mas para eles não irem muito longe.

Nas palavras dos faxinalenses, os que vêm de fora, quando se instalam na comunidade, buscam as facilidades da vida urbana no faxinal:

Antes era só nós aqui. Agora eles vêm e já armam a barraca aqui dentro do criador. Compram terra dos outros. Os outros vendiam pra eles e eles colocavam a casa aí. Chegavam oferecendo dinheiro. Vinham pra criar, criar porco. Eles pensam que criação cria com o vento. Todo mundo que vem aqui quer morar aqui, né. Quer pegar o bicho e soltar aí, não sabe que tem que trabalhar pra cuidar dos bichos, né (R.T., faxinalense do Salso, Quitandinha).

A especulação já está fazendo parte do faxinal do Salso. Contam os faxinalenses que um morador chacareiro comprou terras no Salso com o objetivo de obter lucro. Este comprou 12 litros (0,72 ha) por $ 18.000, ocupou 7 litros e resolveu vender para outro morador de fora, 5 litros

75 A cerca mais comum encontrada é a de quatro fios de arame. Esta não impede a

passagem dos animais menores. O ideal para conter a passagem desses animais é a de dez fios ou mais.

(0,42 ha) por R$ 30.000. Nota-se que as propriedades vão sendo divididas, ficando cada vez menores no tamanho e cada vez maiores no preço, para que possam cumprir a finalidade de chácaras de veraneio (FOTO 7). Isso vem se tornando comum em diversas comunidades, tanto na região metropolitana de Curitiba quanto em outras regiões do estado.

FOTO 7 – Chácara de veraneio, cercada, com cães cumprindo a função do vigia no criadouro comunitário do faxinal Meleiro em Mandirituba, maio de

2012. Fonte: Marcelo Barreto.

O fortalecimento de uma unidade pela construção da identidade ofereceu aos moradores do Salso a possibilidade de implementarem sua luta em outras esferas, visto que em âmbito local as dificuldades de se fazer entender eram constantes, principalmente no que se refere à resolução de conflitos com moradores que não aprovam mais o uso comum nos criadores.

Como foi demostrado, até então o Salso, bem como outras comunidades com terras de uso comum na RMC, recebia a denominação

de “criadores”. Ao assumirem a identidade de faxinalense os moradores do Salso incorporaram uma série de elementos que permitiram que a resistência aos processos supressórios adquirissem outras formas, e que suas práticas definidas pelos costumes compusessem a territorialidade específica. Os moradores acataram, assim, um conjunto de regras definidas em reuniões da associação. Essas regras constituiriam o “Acordo Comunitário”.

Quando os moradores de uma determinada comunidade assumem a existência enquanto povo tradicional faxinalense, estes precisam criar uma associação (caso não exista uma) e elaborar o acordo comunitário. Todos os faxinais que assumem a identidade política de faxinalense possuem um acordo comunitário em que são descritas as regras a serem acatadas por todos os seus moradores. O acordo comunitário, elaborado no Salso em 2007, foi o primeiro instrumento que deu aos faxinalenses do Salso o fortalecimento da sua unidade enquanto grupo social. Antes da organização em associação, os acordos que visavam a preservação das práticas eram acatados verbalmente entre os moradores. Os faxinalenses afirmam que antes os acordos eram consensuais, e que as práticas eram determinadas pelos costumes. Mesmo no passado, quando novos moradores se integravam ao Salso devido a casamentos e proximidade de parentes, as regras eram acatadas consensualmente. Com a vinda de moradores movidos pela compra e venda de terras as regras acatadas consensualmente perderam o seu valor.

Segundo faxinalense do Salso,

Depois que a comunidade ficou organizada para criar as regras do acordo comunitário - na verdade nós não tínhamos, só ficava na conversa. Mas antigamente o pessoal era tudo de acordo. E não tinha o pessoal de fora. Não precisava criar acordo comunitário. Era isso que queria. Todo mundo trabalhava junto – preservava. Mas aí chega um ponto que vai vindo chacareiro, plantador de eucalipto, e a gente é obrigado a mostrar pra eles, e o caminho era fazer o acordo comunitário para impor os limites, na verdade os

limites do que pode e do que não pode. Se não impor os limites, de repente o que vai acontecer? É fecho e mais fecho, cria corredor, só fica pra cá as características de um faxinal porque tem a mata a daí fica tudo cortado pela cerca. Por isso que tem que fazer o acordo comunitário. Ou se adota o sistema do faxinal na produção, mas só que daí ele tem uma área muito pequena, só que nós não vemos a quantidade pequena de terra, quem tem mais, quem tem menos, pra nós não interessa, se um tem uma quarta, se outro tem dois, três alqueires. Nessa parte ninguém se importa (C.T.).

Assim, os faxinalenses do Salso se organizaram em associação. A criação do acordo comunitário se tornou imperativo para que seus moradores pudessem continuar vivendo segundo os seus costumes. Mais adiante, o mesmo faxinalense afirma,

Se vai buscar alguma coisa a nível de município ela funciona. Pra nós é bom isso aí porque você veja, ela dá resultado porque aqui em Quitandinha não tem esse tipo de organização. Até mesmo o poder público, eu já percebi que quando se depara com uma comissão assim agindo eles sentem o peso. Daí eles abrem mão, por isso que a gente consegue alguma coisa. Não muito, mas consegue (C.T.).

Nesta passagem, percebe-se o peso do movimento social quando se busca algo na esfera municipal. O ser faxinalense, projetado em escala estadual, ganha força nas relações com o município.

Pra quebrar o tabu de que era mais difícil, levantamos aí na Articulação Puxirão boletim de ocorrência. Antes para registrar boletim, nossa senhora! Os caras batiam o pé e não queriam fazer, porque eles enxergam os animais assim confinados. Pra eles como tá assim não tem sentido, não tem por que. A gente falava que os animais machucavam que eles matavam. Aí eles perguntavam: “mas entrou na propriedade deles?” “Entrou!” “Mas, aí quem tem que ter responsabilidade pelos animais é o dono.” Eles não entendiam a nossa linguagem. Isso é que era o complicado e eles nem queriam entender. Nessa parte foi difícil para quebrar esse tabu. Mas com a comissão ali junta vai e

mostra como que é o faxinal e agora como que é, amparado pelas leis. Também tinham os advogados trabalhando para nós, da “Terra de Direitos”76. Aí foi quebrando, né. Aí ficou

mais fácil de fazer o boletim. (C.T., faxinalense do Salso, Quitandinha) Grifo nosso.

Neste sentido, está sendo no reconhecimento que se busca o amparo para resolver os problemas localizados. Por um lado, é no reconhecimento enquanto faxinalenses que os antigos moradores do Salso conseguem resolver problemas cotidianos. Por outro, os órgãos municipais de Quitandinha, para resolver esses mesmos problemas, precisam da interferência em escala estadual para conseguir enxergar uma relação que está presente há tempos no município. As terras de uso comum, que sempre estiveram na localidade, tornam-se algo estranho ao município, mas que depois é reconhecida, não localmente, mas em nível estadual. Os governos estadual e federal precisam dizer para o municipal o que acontece dentro dos seus limites e como eles devem ser tratados.

De acordo com o acordo comunitário, é permitido cercar apenas 20% das terras no criadouro comunitário. Atualmente, no Salso, cada novo morador que ingressa na comunidade recebe uma comissão, montada pelos membros da associação, que procura levar informações a respeito das práticas cotidianas no faxinal e do aparato jurídico que sustenta essas práticas. É um movimento novo. Agora, para que os costumes possam prevalecer, é necessário que eles adquiram caráter jurídico.

No caso do Cerrinho, que foi formado pelos antigos moradores do Salso, não foi acatada a decisão de ingressar no movimento social. Os moradores dessa comunidade não entraram em um acordo diante da proposta feita pela APF. Percebe-se que no Cerrinho existem fatores que

76 A ONG Terra de Direitos estabeleceu um convênio com a APF. Por meio deste

convênio, eles fornecem advogado para tratar de problemas nos faxinais ligados ao Movimento Social.

contribuem para o fim das terras de uso comum e existem fatores que ainda demonstram a sua permanência.

Embora não possua acordo comunitário, a associação do Cerrinho mantém as regras muito bem definidas. Uma delas diz respeito à quantidade permitida de animas. Por um lado os moradores afirmam que “se todo mundo pensar em ter cavalo ou gado dentro do criador ele incha, não dá para viver” (B.T.), por outro lado está ficando cada vez mais difícil manter os animais devido à diminuição do criador. Mas a insistência em manter os animais soltos é recorrente, pois se percebe que a manutenção da prática do uso comum vigora entre os moradores.

A cerca que delimita o criador é mantida - ainda é feita na forma de puxirão. A manutenção da cerca é feita por grupos. Comumente, em faxinais, a manutenção da cerca é feita individualmente na parte que corresponde a cada família. Ainda é possível observar os valos no Cerrinho – o que não existe mais em grande parte dos faxinais.

O morador entrevistado, que é o presidente da associação dos moradores do Cerrinho, afirma que mesmo que um dia as terras de uso comum venham a acabar naquela comunidade, enquanto houver o criador ele vai defender e manter. No entanto, ele não demonstrava tanto otimismo quanto a permanência das mesmas. “Não adianta a gente pensar e o outro vizinho não pensar. Não tem coisa melhor do mundo do que a nossa criação ali – porco, cavalo, cabrito tudo solto. Mas é assim, a vida é essa!” (B.T.).

Buscou-se perceber as diferenças e semelhanças entre o Salso e o Cerrinho. Algumas diferenças se processam basicamente na elaboração das regras. Enquanto que se acatou no acordo comunitário que no faxinal do Salso não seria permitido secador de fumo e granja de frango, no Cerrinho não existe restrição quanto ao uso dos secadores de fumo e demais atividades ligadas ao benefício próprio da família.