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Ao mencionarmos a narratividade, nos referimos à concepção de “sucessão”, “sequenciação”, “desenvolvimento temporal”, discutida por Motta (2013, p. 71) em seu estudo sobre a narratologia. Para o autor, narrar está relacionado ao ato de contar histórias a partir de ações sequenciais:

A narrativa põe naturalmente os acontecimentos em perspectiva, une pontos, ordena antecedentes e consequentes, relaciona coisas, cria o passado, o presente e o futuro, encaixa significados parciais em sucessões temporais, explicações e significações estáveis (MOTTA, 2013, p. 71).

Ler, assistir, escutar as estórias narradas remete a nossas experiências pessoais, nossa memória e nossos valores. Costumamos nos identificar com algumas dessas estórias a partir de acontecimentos em nossa vida. É dessa forma que ressignificamos as narrativas com as quais temos contato. Motta (2013) esclarece que isso não mudou com as estórias ditas virtuais veiculadas na internet, o processo de interpretação, ressignificação dos sentidos e experiência cultural é semelhante, ainda que essas estórias virtuais possuam algumas características divergentes das tradicionais.

O ato de narrar pressupõe uma meta, uma finalidade, trata-se de uma ação inerente à existência humana, não é uma seleção aleatória de fatos. Ele surge a partir de interesses estratégicos no discurso dos sujeitos no processo comunicativo e, por se tratar de representações da realidade, está relacionado a exercícios de poder e de hegemonia. Nesse sentido, a comunicação narrativa pressupõe que haja entre os interlocutores um

código e uma cultura em comum (MOTTA, 2013). São as representações mentais que nós, enquanto sujeitos interlocutores, fazemos sobre o mundo narrado que dá à narrativa credibilidade e legitimidade. Para Motta (2013), independentemente da inegável existência do mundo físico, o mundo cultural só existe a partir do momento em que falamos sobre ele, que o representamos de alguma forma.

Os discursos sobre o mundo, incluindo as narrativas, são práticas discursivas de construção do mundo. O mundo físico e o mundo das relações sociais são o referente imprescindível para a criação de significados, mas a referencialidade é uma atribuição da linguagem, não do referente. Os indivíduos não experimentam as suas condições sociais de existência, mas as constituem significativamente. A experiência não é fruto do impacto da realidade sobre a subjetividade, mas resultado da apreensão discursiva da realidade. As experiências por si mesmas não prescrevem condutas: só o fazem ao serem consideradas, pensadas, dotadas ou privadas de relevância (MOTTA, 2013, p. 84).

Motta (2013) esclarece que contar estórias na literatura, no jornalismo, no entretenimento em geral, não é um ato desprovido de intencionalidade. Seu intuito é primeiramente provocar efeitos de sentido no interlocutor. O autor destaca que as narrativas midiáticas, em seu contexto mais amplo, podem ser fáticas, a exemplo das reportagens e documentários, quanto fictícias, como as minisséries e telenovelas. Além disso, podem ainda ser um híbrido das duas, e como exemplo, o autor cita os programas de auditórios e entrevistas.

Exemplo de um tipo de narrativa objetiva, o jornalismo busca, antes de tudo, representar o real da forma mais aproximada possível. Diferente da narrativa ficcional que constitui uma metáfora do mundo sem a obrigação de ser tão fiel aos fatos, os narradores do jornalismo “procuram contar desde uma visão externa dos fatos, para provocar a falsa imagem que os fatos falam por si mesmos” (MOTTA, 2013, p. 89). No caso do fotojornalismo, isso se torna mais evidente com a concepção de que “a imagem fala por si só”, reforçando a falsa ideia da neutralidade jornalística e da fotografia como sinônimo de verdade.

A capacidade narrativa de uma fotografia não está relacionada apenas à quantidade de imagens em sequência, pois mesmo uma imagem fotográfica publicada individualmente pode evocar narrativas:

Mesmo quando a imagem revela o flagrante de um só momento e nenhum estado de mudança aparente, a foto pode insinuar mudança, estimular estórias ao redor do tema. Basta descobrir os indícios e as marcas do texto (da foto) que estimulam uma estória, e a narrativa saltará aos olhos (MOTTA, 2013, p. 91).

Entretanto, observamos um crescente número de galerias presentes tanto dentro da estrutura das notícias quanto em janelas específicas na página da web e o espaço dado às fotografias em sequência nas grandes reportagens publicadas nos portais de notícias e nos sites dos jornais. Um dos aspectos do jornalismo atual evidenciados pelo autor (2013) trata, por exemplo, da busca por situar as estórias por meio de retomadas de informações já divulgadas antes, os chamados “flashbacks” ou, no caso do webjornalismo, os hiperlinks intitulados como “leia mais”, “para saber mais”, entre outros, que direcionam para outra notícia ou mesmo para galerias de imagens por meio de hiperlinks como “veja a galeria completa”, por exemplo.

Sallet (2015) chama a atenção para essas possibilidades narrativas no ambiente de convergência:

Uma fotografia digital pode deixar de ser somente uma imagem inserida dentro de uma plataforma. Ela ganha potência e capacidade de interlocução com outros assuntos, podendo estimular discussões. Uma imagem, por exemplo, possui quatro cantos e, ao se passar o cursor por cima deles, poderiam surgir informações referentes ao local em que foi capturada, quem são as personagens da foto, como ela foi processada e também para outras informações, como vídeos e textos referentes ao assunto da fotografia em si. Essas possibilidades que se apresentam no mundo digital servem justamente para o fotógrafo atual se relacionar com elas e pensar as suas fotografias nestes moldes e plataformas. É claro que, se em todas as imagens houvesse algum aspecto multimedia ou hiperlinks, tudo iria ficar padronizado e sem espaço para a criatividade: o que se deve fazer com os recursos disponíveis é justamente procurar novas maneiras de se narrar, estimulando o fotógrafo a trabalhar mais como um contador de histórias do que simplesmente um caçador de “momentos decisivos” (SALLET, 2015, p. 34-35).

Diferentemente do tratamento que recebia na produção de mídia impressa, a fotografia feita para o webjornalismo possui uma maior dinamicidade, algumas vezes dispensando até mesmo a existência do texto verbal. Na verdade, segundo Henn e Sallet (2012), recursos visuais como as fotografias, os infográficos, as ilustrações, entre outros, encontram-se, no contexto transmídia, cada vez mais independentes da dimensão do verbal.

Assim, ao expandir-se para outras plataformas, a fotografia no contexto do jornalismo assume uma transmidialidade que movimenta suas narrativas. Contar histórias por meio do ambiente de cultura da convergência difere de se contar histórias por meio da mídia impressa. De acordo com Henn e Sallet (2012), essa diferença é, antes de tudo, cultural:

(...) as histórias fotográficas como narrativas fotográficas (designação que se incorpora mais aos procedimentos do jornalismo online) são muito mais abundantes em quantidade (o que não suprime qualidade, ao contrário, permite uma poética ampliada do fotojornalismo, em função das novas linguagens) do que na cultura anterior (a do jornalismo impresso) (HENN; SALLET, 2012, p. 95).

Como dizem os autores (2012), apesar de não serem exatamente novas, essas “histórias fotográficas” presentes na cultura digital caracterizam fortemente a produção de fotojornalismo na atualidade. Também chamadas de “pictures stories” (SOUSA, 2002), esse sequenciamento de imagens não segue sempre uma ordem cronológica de captura, ele é publicado a partir de um planejamento de sua narratividade, de como o veículo, o editor, o fotojornalista, enfim, a equipe, busca contar aquela história.

De algum modo, as picture stories correspondem à noção mais completa de foto-reportagem, muito embora o conceito “fazer uma reportagem fotográfica” tanto sirva para um foto-relato em várias imagens como para uma abordagem usando apenas uma fotografia. Aliás, não é menos certo dizer que alguns fotojornalistas glorificam a fotografia única em detrimento da história em fotografias, uma vez que a fotografia única bem conseguida congela um instante capaz de sintetizar tudo o que um acontecimento foi e significa. (...). Todavia, àqueles que glorificam a prática da fotografia única é possível contrapor o argumento de Sebastião Salgado, exposto no prefácio do fotolivro Trabalho: mais do que momentos decisivos, há vidas decisivas. A vida (tal como os acontecimentos) seria incondensável num instante; seria irreduzível a um instante. Realizar uma história em fotografias requer tempo. O fotorrepórter necessita de abrandar o seu ritmo não só para pesquisar, reflectir e planificar mas também para poder fazer um grande volume de fotografias (SOUSA, 2002, p. 127- 128).

Essa perspectiva defendida pelo autor (2002) se reflete cada vez mais na produção fotográfica convergente, constituindo uma narrativa ressignificada pelas potencialidades multimídia e transmídia que a cultura digital vem trazendo à prática jornalística. Discutiremos alguns casos no próximo tópico deste capítulo.