Diante do objetivo proposto, entendemos ser fundamental adotar uma postura interdisciplinar. No que tange à construção de um conhecimento crítico interdisciplinar, é preciso lembrar que se trata de levar em conta a disciplina
intelectualmente constituída em uma unidade bem definida do saber, sendo esta, em sua aproximação, considerada de modo detalhado, incluindo-se as possíveis relações com as demais disciplinas (JAPIASSU, 1975). Nesse sentido é que se torna importante alicerçarmos a necessidade de preservar o caráter interdisciplinar da Administração.
Justificamos a localização deste estudo num campo interdisciplinar, não multi, pluri ou transdisciplinar. Ao pesquisar sobre a multidisciplinaridade e a pluridisciplinaridade, verificamos que se baseiam na “justaposição de duas ou mais disciplinas, com objetivos múltiplos sem relação entre si, com certa cooperação, mas sem coordenação num nível superior” (JAPIASSU; MARCONDES, 2006, p. 146). Já a transdisciplinaridade21 seria a abordagem menos suscetível de ser conjugada, pois trata-se de uma concepção pós-moderna que pretende superar o conhecimento elaborado através de disciplinas (FARIA, 2010a). Ao ignorar seu fundamento, opõe-se holisticamente e paira sobre as disciplinas como se nada lhes devesse no campo dos fundamentos, razão pela qual Faria (2010a) enxerga este como um projeto gnosiológico de natureza metafísica22, porque está apoiado em bases epistemológicas inconsistentes. Por
21 A transdisciplinaridade envolve “uma coordenação de todas as disciplinas e
interdisciplinas em um sistema de ensino inovado, sobre a base de uma axiomática geral. É um tipo de sistema de níveis e objetivos múltiplos. A coordenação propõe uma finalidade comum dos sistemas” (IRIBARRY, 2003, p. 484). Sua preocupação, segundo o físico Basarab Nicolescu, seria com “uma interação entre as disciplinas, onde cada uma delas busca um além de si, um além de toda a disciplina” (IRIBARRY, 2003, p. 485).
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Engels (1987, p. 64) define a metafísica como um método especulativo, portador de antíteses desconexas, em que não se podem pensar os objetos e as imagens senão como objetos de investigação separados, fixos, imóveis, estáticos, unilaterais. A transdisciplinaridade não incorre na classificação de Engels por afirmar excessivamente o domínio da particularidade, mas por fazer o contrário, por ignorá-la a priori, de modo imediato, sendo que um preceito basilar da dialética ensinada por Hegel é que o universal não pode florescer sem pressupor a mediação do pleno desenvolvimento do particular: “precisamente pelo fato de que o princípio da particularidade se desenvolve para si até a totalidade, ele passa à universalidade e tem exclusivamente nesta a sua verdade e o direito da sua realidade efetiva positiva. Essa unidade (...) é precisamente
tais distinções, como ficará mais claro no desenvolvimento deste trabalho, é que não pretendemos imprimir, como se fossem equivalentes, um sentido multi, pluri ou transdisciplinar ao presente estudo, mas sim interdisciplinar.
Os intentos da interdisciplinaridade diferem dos demais enfoques, uma vez que a localizamos como “um método de pesquisa e de ensino suscetível de fazer com que duas ou mais disciplinas interajam entre si” (JAPIASSU; MARCONDES, 2006, p. 146) a partir de suas metodologias e conteúdos. Nessa dinâmica, segundo os autores, há a possibilidade de estabelecer complementaridade entre métodos, conceitos, estruturas e axiomas fundantes de práticas científicas, tendo como objetivo utópico a formação de unidade do saber. Seria, portanto, uma forma de enfrentar o “esfacelamento do saber” provocado pela “especialização sem limites” (JAPIASSU, 2006).
Encontramos uma aplicação dessa perspectiva na Administração em Faria (2010a), que defende uma concepção interdisciplinar para estudar as relações de poder nas organizações do ponto de vista da Teoria Crítica. O autor argumenta que, por meio dessa abordagem, as disciplinas podem operar em conjunto em uma direção convergente, tendo em vista que o procedimento interdisciplinar “consiste na interação dos diversos campos do saber (...) de tal forma que as disciplinas operam conjuntamente” e convergem a uma direção (FARIA, 2010a, p. 28). Destacamos a perspectiva interdisciplinar como guia importante em nosso estudo à medida que pretendemos preservar as disciplinas em si, permitindo o uso dos seus elementos a favor da construção de um conhecimento permeável. Com isto, contrapomo-nos ao enfoque disciplinar reducionista, acusado pelo pensamento de Carlos Nelson Coutinho como aquele motivador de
por isso, não enquanto liberdade, mas sim enquanto necessidade, a de que o particular se eleve à forma da universalidade e nessa forma procure e tenha o seu subsistir” (HEGEL, 2003, p. 18).
cisões disciplinares [que] tendem a resultar em estratégias de produção e conhecimento defendidas corporativamente, como se apenas os iniciados pudessem interferir nos seus territórios específicos. Disso decorre, muitas vezes, um certo ensimesmamento mais profissional e/ou pedante do que curioso (FONTES, 2012, p. 178).
Diante deste apelo, atentamos à dialética23, que interrelaciona forma e conteúdo e que não legitima uma afirmação genérica a revelia de uma necessária passagem pela mediação da particularidade, isto é, o não domínio absoluto da particularidade não pode significar a sua exclusão a priori. Preservar a particularidade em seu desenvolvimento até o extremo de si para chegar à sua reconversão na unidade do todo, no complexo ou no universal concreto, como Marx (1982, p. 14) o denominou enquanto “síntese de muitas determinações”, é a visão que nos oferece possibilidades de desdobramentos mais ricos à interrelação de perspectivas.
Mutatis mutandis, nisto podemos ter e pensar, dialética e legitimamente,
o lugar da interdisciplinaridade, também claramente sustentada por Adorno quando desconsidera a constituição de fronteiras intelectuais desde sua própria autodefinição como um filósofo que fazia Sociologia e como sociólogo que fazia Filosofia. Assim, o pensamento de Adorno se transformou em referência para que
seus leitores desenvolvessem pesquisas em campos distintos de saberes, colaborando com isso para a transformação da Teoria Crítica em base maior para a reflexão sobre a contemporaneidade e seus desafios. Uma transformação que influenciou de maneira decisiva a constituição de tradições de pesquisa no Brasil, a partir sobretudo da década de 1960 (ALMEIDA et al., 2008, p. 8).
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A dialética enquanto epistemológica é considerada na tradição marxista como um método científico (BHASKAR in BOTTOMORE, 1983, p. 101), sendo capaz de, ao contrário da lógica formal, incluir em seus conceitos elementos da contradição e da transformação (FREITAG, 1990, p. 49). Como categorias históricas da dialética, Magalhães (2005, p. 216-217) lembra a ação recíproca e a conexão universal, a transição da mudança quantitativa para a qualitativa e a unidade e luta dos contrários, que geralmente é apresentada como “tríade dialética”, ou relação tese-antítese-síntese.
A interdisciplinaridade é, portanto, o primeiro aspecto importante que anunciamos para o tratamento do nosso objeto. Constitui-se numa perspectiva que abre um flanco para pensarmos a partir de um particular reflexivo, não hermético, o que nos conduz a uma configuração mais ampla e, consequentemente, a uma compreensão mais rica do nosso objeto.