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Interprétation des programmes par les enseignants et connaissances des élèves

Chapitre 2. Comment évaluer l’éducation 15 ?

2. L’évaluation au service des enseignants

2.2. Interprétation des programmes par les enseignants et connaissances des élèves

Para compreender a formação do espaço sagrado em Santa Cruz dos Milagres é necessário resgatar a formação do estado do Piauí, pois assim como o território piauiense, a cidade de Santa Cruz dos Milagres surgiu em decorrência da expansão da pecuária e do processo de interiorização na busca por mais terras, e para a instalação das grandes fazendas de gado no sertão nordestino que foram sendo implantadas em meados do século XVII.

O povoamento da região Nordeste ocorreu por intermédio de dois centros de irradiação: Olinda e Bahia. Enquanto a irradiação de Olinda se direcionou acompanhando a faixa litorânea, atingindo as terras da Paraíba, Rio Grande do Norte chegando até a bacia do rio Jaguaribe, no Ceará. A irradiação da Bahia se desenvolveu rumo ao interior, por meio da instalação dos primeiros currais. Somente após transpor os divisores de água do São Francisco-Parnaíba, chega ao lado oriental da bacia do Parnaíba, em que são instalados os primeiros currais, nos principais afluentes daquele rio. É nessa área que vai constituir-se o território piauiense. (Alves, 2003).

De acordo com Alves (2003), o povoamento das terras piauienses possui relação direta com a expansão e a conquista de terras empreendidas pela Casa da Torre, instituição fundada e administrada pela família Ávila, da Bahia, cujo principal objetivo era financiar

aventureiros, um misto de apresadores de índios e conquistadores de terras destinadas à pecuária, para que eles desbravassem os sertões. Conforme destaca Higino Cunha, intelectual piauiense e autor da obra publicada originalmente em 1924, “História das Religiões no Piauí”, O seu descobrimento e a sua consequente colonização foram obras dos sertanistas criadores de gado ou caçadores de índios e de pedras e metais preciosos. Algumas entradas foram precedidas de autorização legal; mas todas foram amassados no suor e no sangue dos conquistadores e dos íncolas escravizados ou exterminados ou afugentados para longe das situações nascentes. (Cunha, 2015, p. 54).

Regiões que inicialmente eram ocupadas por diversas tribos indígenas, com a chegada da Casa da Torre da Bahia e a expansão das fazendas de gado, essas tribos foram deslocadas para as capitanias vizinhas do Maranhão e Ceará, resultando em inúmeros conflitos na região.

Somente no final do século XVII surge a primeira povoação no Piauí, a freguesia de Nossa Senhora da Vitória, elevada à categoria de vila na segunda década do século XVIII. A vila da Mocha, como foi batizada, localizava-se em terras de uma das fazendas de Mafrense, às margens do rio Piauí. É ela que (mais tarde, quando o Piauí se torna uma capitania autônoma) vai transformar-se na sede do governo, recebendo o nome de Oeiras. (Alves, 2003, pp. 62-63).

As práticas religiosas desenvolvidas nos interior das províncias sofreram influência do regime de padroado estabelecido desde o início da colonização, que dava a Coroa Portuguesa o poder de colonizar e evangelizar os povos descobertos, no entanto, essas práticas por muitas vezes entraram em conflito com a política de catequização implementada pela Igreja Católica, que resultou na expulsão dos jesuítas do Brasil na época pombalina em 1760, na época estes representavam a congregação mais forte e atuante.

Com a saída destas congregações religiosas que até então eram as responsáveis pelo processo de evangelização, o que se observou foi o desenvolvimento de um movimento missionário leigo e não clerical, permitindo o predomínio de um catolicismo popular.

Enquanto que no Século XVI, a atuação dos missionários jesuítas e franciscanos foi determinante para que as romarias que ocorriam no litoral brasileiro tivessem por finalidade a conversão missionária. Assim, nos Séculos XVII e XVIII as práticas interioranas nasciam espontaneamente da piedade popular (Rosendahl, 2012).

Durante esse período: “As devoções surgem do povo, e as práticas desenvolviam-se com ampla liberdade de expressão. Os mitos, os símbolos, os gestos e as falas sagradas são criados no lugar” (Rosendahl, 2012, p. 61). Esse movimento missionário do Século XVIII se

caracterizou como não clerical, e sim leigo, os santuários surgem de um movimento popular de valorização da fé.

É nesse cenário do século XVIII que foi construída a primeira capela em Santa Cruz dos Milagres. Com isso, a devoção levou posteriormente a construção da Igreja e depois da própria cidade de Santa Cruz dos Milagres, onde as práticas religiosas são recriadas a cada ano em torno das festividades.

Para compreender o processo de disseminação da religiosidade em Santa Cruz dos Milagres, é preciso entender como o processo de romanização da Igreja Católica foi se difundido, sobretudo, no final do Século XIX e durante o Século XX no período republicano.

Apesar deste processo não ter sido tão forte em centros rurais e distantes, a romanização foi desenhando a atuação do clero nos centros de mediação, com o objetivo de centralizar as ações eclesiais e substituírem as crenças populares com a colaboração da evangelização e catequese.

Dos entraves encontrados nos centros rurais, Oliveira (1985, p. 288), descreve:

Entretanto nas capelas rurais o processo de romanização foi bem mais difícil para o clero. Não contando com a presença permanente do vigário, a estratégia de substituição gradual das devoções tornou-se pouco eficaz. Isoladas no interior, dispersas, sem contato permanente com o vigário, as capelas rurais permaneciam nas mãos de agentes religiosos leigos. Os rezadores, capelães, beatos e beatas, em suma, toda sorte de leigos que tomavam conta das atividades religiosas locais, mantinham as tradições do catolicismo popular.

De acordo com Oliveira (1985), o resultado de um processo de distanciamento que já vinha ocorrendo durante o Século XIX, agravado pela separação entre Igreja e Estado assistia- se a uma ruptura entre a profissão da fé católica do povo e a doutrina da Igreja, ocorrendo a necessidade de reestruturar a relação entre o aparelho eclesiástico e a massa de fiéis. Essa ruptura já vinha favorecendo desde o Século XIX:

[...] o desenvolvimento do catolicismo popular, cujos agentes de base – beatos, beatas, rezadores, “monges”, capelães, etc. – gozavam de grande prestígio sobretudo entre as massas rurais. Para o episcopado e o clero, especialmente devido à renovação decorrente do Concílio do Vaticano I, esse catolicismo popular era uma negação prática do catolicismo romano e não uma forma popular de praticar o catolicismo. (Oliveira, 1985, p. 277).

Como forma de combater um fanatismo religioso e estabelecer um aparelho eclesiástico capaz de atender os interesses da burguesia agrária o processo de romanização, torna-se um “[...] processo de desestruturação e reestruturação do aparelho religioso que o

torna apto a exercer a função social de hegemonia no novo contexto [...]” (Oliveira, 1985, p. 279).

Se configurando como uma tentativa de moldar o catolicismo brasileiro ao modelo romano, o aparelho eclesiástico é composto por agentes religiosos institucionalmente qualificados para a direção dos fiéis católicos e capazes de assumir o controle efetivo do aparelho religioso no seu todo (Oliveira, 1985).

Mediante o cenário de manifestações religiosas populares, a devoção em torno de Santa Cruz dos Milagres foi sendo difundida e consolidada no imaginário popular, através de mitos que foram se manifestando em meio às experiências do cotidiano do sertanejo no final do Século XIX e se estabelecendo na memória coletiva da população.

De acordo com Eliade (2010) o mito é uma história sagrada que proclama a aparição de uma nova “situação” cósmica ou de um acontecimento primordial que teve lugar no começo do tempo, ab initio. Conforme destaca: “É a irrupção do sagrado no mundo, irrupção contada pelo mito, que funda realmente o mundo”. Cada mito mostra como uma realidade veio à existência, seja ela a realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, uma instituição humana (Eliade, 2010, p. 86).

Sobre a origem do mito em Santa Cruz dos Milagres, são apresentadas 2 (duas) versões que apesar de diferentes em alguns aspectos, apresentam em comum símbolos religiosos que fazem parte da construção sociocultural coletiva dos que creem na Santa Cruz.

O mito oficial e o mais difundido sobre a origem da religiosidade em Santa Cruz dos Milagres se refere ao ensaio escrito pelo Pe. David Mendes, dirigente deste Santuário por mais de 20 anos, ele reuniu algumas referências sobre o local e de como surgiram às principais festividades religiosas da cidade. A história do Santuário não possui dada exata ou algo concreto em que a apoie. Como reforça Mendes ([n.d], p. 05):

É uma história sem registros, sem datas, inculta e analfabeta, e sem autoridade em que apoiar-se. É contada de maneira simbólica e fantástica, podendo adquirir tonalidades cambiantes e versões diversas, mas sempre apontando para um núcleo irredutível com sentido de vida e de morte, de tempo e de eternidade, para o indivíduo e para a coletividade.

De acordo com a narrativa descrita pelo Padre Mendes, no Século XIX, na região que pertencia ao município de Valença, havia uma Fazenda Jatobá, o primeiro milagre descrito está associado à presença de um beato na região, conforme Rosendahl aponta (2012, p. 171): “[...] os beatos eram pessoas comuns para o povo da época e sensíveis aos anseios dos

oprimidos, estabelecendo uma continuidade de crenças populares e das práticas religiosas, características do catolicismo popular”.

De acordo com a narrativa, o beato conduziu o vaqueiro da fazenda até o alto de um morro próximo, e pediu que este abrisse um buraco na pedra bruta que cobre quase todo o monte, ele mesmo foi ao mato próximo, trazendo logo depois uma cruz de madeira. Quando o Beato voltou percebeu que o vaqueiro não havia feito o buraco no chão, e ele mesmo traçou com o dedo um círculo de pedra, e com a mão toda, sacou um extrato da mesma, ficando aberto o buraco um tanto profundo e circular, como se pode ver ainda hoje ao lado da Igreja.

Ali o Beato fincou a cruz e disse ao vaqueiro que, por aquele sinal, um dia aconteceriam maravilhas. Em seguida, o homem desceu o morro e já próximo ao rio São Nicolau, mostrou-lhe uma nascente de água (olho d’água) que o vaqueiro não conhecia, apesar de tantos anos campeando naquela região. O Beato também falou que, por aquelas águas, até milagres ali haveria de acontecer (Mendes ([n.d], p. 5-6)

A história ainda conta que o beato seguiu viagem, ou que simplesmente tenha desaparecido depois de cumprir sua “missão sagrada”, e que o vaqueiro retomou a sua rotina cotidiana, porém algum tempo depois, a filha do vaqueiro adoece e ele sem saber mais o que fazer, então se lembra da cruz colocada naquele morro. Segundo Mendes ([n.d], p. 06), o vaqueiro “levou a criança até lá, rezou com ela e depois, no olho d’água, deu-lhe um banho e a fez beber daquelas águas límpidas. Voltou para casa com a filhinha... completamente curada”.

Em uma segunda versão retirada da obra de Manifestações Folclóricas, descrita por Nunes e Ribeiro (1995) citado por Brandim (2007, p. 41), narram da seguinte forma:

Conta-se que num certo dia de um ano que não se sabe mais qual, chega à Fazenda Jatobá um homem desconhecido. Sem dar qualquer explicação, chama o vaqueiro e vai com ele a um morro próximo dali. Os dois passam a construir uma capela de taipa, coberta de palha, e um cemitério. Em frente da capela colocaram uma cruz (cruzeiro) feito de pau-de-chapada. O desconhecido risca no duro lajedo o tamanho exato do local onde fincar a cruz e retira com as mãos o pedaço de pedra já cortado. Chama o vaqueiro e diz: “Esta cruz é milagrosa e neste lugar se darão grandes prodígios”. Em seguida desce com o vaqueiro até o sopé do morro e mostra um pequeno olho d’água junto a uma palmeira de buriti. “esta água é benta, quem dela beber, e tiver fé, será curado dos males do corpo e da alma”. Enquanto o vaqueiro se abaixava para beber, o desconhecido desapareceu “sem deixar rastro”. A notícia do fato correu o mundo. Foi o próprio Jesus Cristo que veio, pessoalmente, determinar o seu desígnio e escolheu aquele lugar, inóspito e árido, como para significar seu caráter penitencial e místico.

Embora nada garanta a veracidade dessa história e de outras tantas mais que surgiram em devoção a “Divina Santa Cruz”, ela é aceita e repassada ao longo dos anos. Lembrando que o objetivo de expor neste trabalho um pouco da história do Santuário, não tem por finalidade provar ou contestar o que aconteceu, e sim, o fato de que a fé expressa pelos fiéis da Santa Cruz, se mantém na memória coletiva dos devotos e contribuem para reforçar as práticas religiosas.

A partir do mito, podem-se identificar três personagens ricos em simbologia: o beato,

o vaqueiro e a criança, considerados protagonistas da história do Santuário de Santa Cruz

dos Milagres. O beato é um indivíduo considerado místico, por ser um homem de pregação, sua figura do beato se apresentava como uma espécie de “emissário” da fé, um representante divino que mostrava o caminho da salvação. Conforme a narrativa: “ele mesmo foi ao mato próximo trazendo logo depois uma cruz de madeira” (Mendes, [n.d], p. 6), que posteriormente seria um símbolo de esperança e fé.

A segunda personagem, que também está relacionado à vivência do sertanejo no Nordeste, é o vaqueiro, que narra à história do Santuário, testemunha e repassa a mensagem da fé presente naquela Cruz, que o beato lhe entregá-la. Segundo Brandim (2007, p. 43):

A figura do vaqueiro representa o homem sertanejo, consiste ainda no contato entre o divino e o terrestre, pois é através desse, que o beato transmite sua história. Trata-se do indivíduo capaz de abrigar alguém que vem sem destino, como o beato, mas que possibilita uma oportunidade de comunicação com aspectos e informações que são difíceis no sertão.

A figura do vaqueiro, portanto, é fundamental para a propagação da fé e da religiosidade em Santa Cruz dos Milagres, por ser uma cidade com características marcantes do sertão nordestino, o vaqueiro representa uma figura ainda muito presente na região.

A terceira personagem presente na história é a criança, figura simples e frágil, que vai ser o maior símbolo do “milagre” anunciado pelo beato. Já que o vaqueiro, ao perceber que sua filha estava doente e que mais nada podia fazer para curá-la, restava a ele a única forma de esperar a cura de sua filha, a fé, e naquele momento era ela presente na Santa Cruz e no Olho D’água. Estes três personagens configuram o mito de origem, e para Geertz (2008, p. 93), são por intermédio dos símbolos que os significados podem ser armazenados.

Tais símbolos religiosos, dramatizados em rituais e relatados em mitos, parecem resumir, de alguma maneira, pelo menos para aqueles que vibram com eles, tudo que

se conhece sobre a forma como é o mundo, a qualidade de vida emocional que ele suporta, e a maneira como deve comportar se quem está nele.

A Cruz e sua simbologia são outras particularidades da religiosidade presentes em Santa Cruz dos Milagres. A cruz que por muito tempo durante a Idade Média foi esquecida, porque retomava a ideia de Jesus Cristo crucificado, passou a ser lembrada como um sinal de libertação e de amor, a redenção de Jesus por todos. A Cruz motivo de fé e esperança, no Santuário de Santa Cruz dos Milagres é descrita por Mendes ([n.d], p. 8):

A Cruz venerada neste Santuário é simplesmente uma cruz de madeira rústica que o povo chama “chapadeiro”, aqui mesmo na região. Tem 1,50m de comprimento, com 0,80m de envergadura, presa ao centro por um prego de ferro.

Trata-se de um objeto retirado da própria natureza e fortalece a fé dos devotos. Conforme Geertz (2008, pp. 67-68) aponta, o símbolo é usado “[...] para qualquer objeto, ato, acontecimento, qualidade ou relação que serve como veículo a uma concepção – a concepção é o “significado do símbolo” [...]”, mais importante que o objeto em si, são os significados atribuídos a ele, pois são resultados de uma análise social.

Figura 04 - Símbolos sagrados do Mito de Santa Cruz dos Milagres

Fonte: Elaborado pela autora, 2018.

De modo que o mito de Santa Cruz, conforme sintetizamos na Figura 04, é composto por esses personagens e símbolos sagrados, em que seus significados são transmitidos e se perpetuam no imaginário daqueles que partilham desta experiência com o sagrado.

MITO

CRUZ

BEATO

VAQUEIRO CRIANÇA