Ingressei como docente do quadro próprio do magistério superior, lotado no Núcleo de Estudos Interdisciplinares e Formação Geral (NUVEM), do Centro de Cultura Linguagens e Tecnologias Aplicadas (CECULT) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia em janeiro de 2016 ministrando principalmente o componente curricular de Língua Brasileira de Sinais (Libras) como disciplina obrigatória nos cursos de licenciatura e disciplina optativa para os bacharelados e tecnólogos. Tive a oportunidade de ministrar este componente curricular em quatro dos sete centros, isto é, CECULT, Centro de Ciências da Saúde (CCS), Centro de Ciências Agrárias, Ambientais e Biológicas (CCAAB) e Centro de Ciências Exatas e Tecnológicas (CETEC). É este último centro de ensino que o curso de Licenciatura em Matemática, na modalidade à distância, objeto de análise desta pesquisa, é vinculado. O curso é ofertado desde o início do semestre letivo 2014.2, nos sete polos de apoio presenciais credenciados ao Sistema UAB, que recebem apoio administrativo e pedagógico da Superintendência de Educação Aberta e a Distância (SEAD) da UFRB.
curso, professores formadores, professores conteudistas e tutores que atuarão no respectivo curso, há uma ação conjunta entre o CETEC e a SEAD, que seguem as orientações normativas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Neste sentido, sempre que necessário, são lançados editais para compor ou recompor a equipe profissional.
Com o objetivo de contratar um docente para ministrar o componente curricular de Libras no Curso de Licenciatura em Matemática EaD, o CETEC e a SEAD, juntas, lançaram o Edital 09/2018, processo que participei e fui selecionado para tal objetivo. Cabe mencionar que a grande rotatividade de professores, resultado das exigências de seleção impostas pela CAPES, torna a aplicação de uma continuidade nas ações pedagógicas inclusivas e acessíveis uma tarefa difícil.
Ressalto que minha relação com a EaD começou em 2009 enquanto estudante do curso de Licenciatura em Pedagogia da Unicesumar e perpassou como TILSP de vários cursos de graduação da Unopar Virtual em 2011. Assumi a vaga como docente do curso de Licenciatura em Matemática EaD no semestres 2018.2 e 2019.1, o que agregou a mim uma nova experiência.
A SEAD oferece e exige que todos docentes e tutores do curso de Licenciatura em Matemática EaD, participem de um curso de formação, que entre os conteúdos disponibilizados estão as diferentes TDIC e a formatação de um AVA. Ainda com o objetivo de orientar os docentes na formulação de material didático, a SEAD tem disponível um “Guia de Produção de Material Didático” (Anexo A) que normalmente é enviado aos professores, embora eu tenha tomado ciência desse guia apenas durante esta pesquisa. Este guia será analisado próximo tópico 4.4.
Antes do início do semestre o professor deverá enviar e disponibilizar no AVA o Plano de Curso de Componente Curricular (Anexo B) e o Plano de Aprendizagem do Componente Curricular (Anexo C). Matricularam-se no componente curricular 84 (oitenta e quatro) estudantes no semestre 2018.2 e outros 33 (trinta e três) estudantes em 2019.1. É importante que se diga que não havia matriculado nenhum estudante surdo ou com alguma deficiência sensorial que demandasse alguma adaptação na estrutura ou na disponibilização de matérias pedagógicos e avaliativos. No entanto, por se tratar de um curso de formação de professores, busquei conduzir os estudantes em colocar-se como alguém que tinha alguma necessidade de adaptação pedagógica, isto é, contemplar as necessidades dos estudantes surdos, tanto pelo uso de legendas, vídeos em Libras, AVA com identificações visuais marcantes e de fácil compreensão e identificação.
Nesse sentido, na primeira videoaula gravada, que se encontra disponível no Canal da SEAD/UFRB no Youtube (Figura 8), iniciei minha aula em Libras, sem som e sem legenda. Ao final de poucos minutos sinalizando, passei a oralizar em Língua Portuguesa. Questionei aos estudantes se procuraram aumentar o som, ou foram conferir se havia alguma falha técnica no vídeo. Depois disso relembrei aos estudantes que é assim que muitos surdos se sentem nas salas de aulas e em tantos espaços, o que inclui o próprio AVA.
Reconhecemos que embora utilizasse vários recursos no AVA (Figura 9), nesta nova perspectiva, estes parecem não ser suficientes. Há uma falha no que tange em disponibilizar os recursos necessários para a inclusão de surdos e para seu acesso no ambiente virtual. Ressaltamos que não havia estudantes surdos matriculados. Alistamos no Quadro 3, 10 (dez) aspectos nessa imagem que merecem nossas considerações e críticas.
No tocante a esta pesquisa, ressalto o ganho pessoal imensurável que obtive. Embora minha experiência com Libras e envolvimento com a comunidade surda tenha iniciado em 2004, a análise criteriosa sobre o modelo pedagógico virtual da UFRB fundamentada nos cinco pilares, trouxe à minha atenção aspectos que precisam ser melhorados em minha própria prática docente e na formulação de um AVA acessível para pessoas surdas.
FIGURA 8: 1ª VIDEOAULA
FIGURA 9: AVA DO COMPONENTE CURRICULAR LIBRAS
QUADRO 3: SISTEMATIZAÇÃO DOS RECURSOS UTILIZADOS NO AVA DE LIBRAS
RECURSO DESCRIÇÃO
01
Chat, notificação, e perfil com foto do usuário: No canto superior direito do AVA há três recursos que identificamos na Figura 9. O recurso chat foi totalmente em Língua Portuguesa na modalidade escrita, caso houvesse um estudante surdo matriculado, esse recurso deveria contemplar a tradução das discussões para Libras. As notificações também estão em Língua Portuguesa, o que pode gerar dificuldade de acesso a informações importantes repassadas pelo professor ou pelo tutor. A foto no perfil, para além de personalização do usuário, é um importante recurso que propicia sua pronta identificação. Há uma foto pessoal para proporcionar ao estudante surdo fácil identificação visual.
02
Ícone internacional de acessível em Língua de Sinais: refere-se ao ícone do tradutor automático VLibras. Com
essa tecnologia, é possível selecionar um texto em Língua Portuguesa e iniciar uma tradução automática, apresentando léxicos da Libras. Trata-se de um recurso amplamente utilizado nas páginas oficiais do governo federal, o que inclui autarquias e as universidades. No entanto apresenta fragilidades importantes. Torenzi (2017 p.221) comprova que “aplicativos de tradução automática mostraram o mesmo sinal para significados diferentes dos verbos, ou seja, mostraram uma tradução literal em contextos que exigiam uma interpretação do sentido do verbo”. Embora pareça eficaz, por traduzir em termos literais, pode gerar confusão levando o estudante a um entendimento equivocado, já que são comuns palavras polissêmicas, quando o contexto precisa ser considerado.
03
Vídeos em Libras: Trata-se de um vídeo de boas vindas
em Libras, recurso inserido pelo docente. Foi utilizado o um tradutor automático Hand Talk com o intuito de tornar o recurso conhecido. Ressalta-se que no momento da construção do texto foram eliminadas as características da Língua Portuguesa, e certificou-se de que o valor semântico da frase havia se mantido. O vídeo está em Libras com legenda em Língua Portuguesa.
04
Ícones condizentes com a proposta pedagógica: Ícones
que facilmente identificam a atividade. A exemplo, temos os ícones de fórum, hiperlink. Nesse sentido, Amorim, Souza e Gomes (2016, p.47) ressaltam a importância de se incluir ícones que sejam condizentes com o que se propõe.
05
Textos de Apoio: Espaço reservado para armazenar
material de apoio em Língua Portuguesa e em Libras. Observamos as características apontadas no ponto 4.
06
Vocabulário: Refere-se a vídeos gravados e disponibilizado pelo docente. Utilizou-se esse espaço para proporcionar vídeos de apoio e consulta a vocabulário em Libras.
07
Divisão das atividades com cores: Recurso disponibilizado pela SEAD a fim de dividir a programação acadêmica semanalmente com cores diferentes facilitando a identificação;
08
Data visivelmente identificada: Cada tópico aloca
atividades que serão realizadas no período de uma semana. As datas ficam visualmente expostas.
09
Prova presencial: Ícone incluído pelo docente para indicar
prova presencial;
10
Acessibilidade: Recurso disponível para pessoas com dislexia ou baixa visão. Estes últimos podem habilitar uma barra de recursos que envolvem contraste, cores e tamanho de fonte.
Fonte: UFRB, AVA (elaborado pelo autor).