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Junior nasceu em Ramos, um bairro de subúrbio do Rio, na época um local tranqüilo. Hoje, o Complexo do Alemão, que fica lá, é o lugar mais temido do Rio de Janeiro. Junior se mudou para o centro quando seu pai se separou da mãe. Seu pai era uma pessoa que bebia muito, batia no Junior, e batia na mãe todos os dias. Depois de cada surra, ela fumava. Isso o marcou muito, porque Junior nunca bebeu um copo de álcool em sua vida e nunca fumou e nem usou droga. Sua mãe, divorciada do pai, foi e é até hoje quem lhe dá apoio.

Foi criado no centro da cidade do Rio de Janeiro, numa área de prostituição, jogatina, corrupção, criminalidade e tráfico. Junior considera que ter nascido e crescido nesse meio marginal foi muito enriquecedor, pois, para ele, foi nas ruas – e das ruas – que vêm sua cultura e sua ética. Ali cresceu e aprendeu tudo o que sabe na vida, e orgulha-se disso:

A escola não forma ninguém como cidadão. Nunca formou e nunca formará. O que te forma é tua casa, tua família, teus amigos.

Para Junior, a sua formação na rua foi importante e sempre aprendeu mais pela cultura oral que escrita. Júnior afirma ter aprendido tudo o que sabe na própria vida, já que nunca estudou. Nesse sentido, seu depoimento é um misto de orgulho e ressentimento:

Você quer ver outra coisa que é um problema? Eu não estudei. O que acontece? Quando tenho um pesadelo na minha vida, estou me vendo numa sala de aula como aluno, eu estudando o dia inteiro, eu fico na merda, isso é pesadelo. Quando eu sonho que estou numa sala de aula, como aluno, pois a minha visão de uma sala de aula é da década de 80, carteira. Não é essa sua universidade, onde se faz pós-graduação, não é isso. Aí fico me vendo como aluno, eu tenho pesadelo, eu passo mal.

O primeiro ídolo do Junior foi seu cunhado. Era uma pessoa que era viciada em heroína e era o próprio Junior quem pegava a droga pra ele nas favelas. Com cerca de 12 anos ele freqüentou várias favelas para pegar droga para o cunhado, sendo esse o o seu primeiro contato com a favela.

Junior cresceu em um lugar onde o clima era muito pesado, com muita violência. Quando ele fez 17 anos, percebeu que tinha duas opções: ou seria bandido, ou brigaria bem. Segundo ele, era como se fosse um vulcão e a coisa simplesmente explodia dentro dele.

Para Junior, ele vivia num contexto de frustração, fracasso e utopia, mas, ao contrário do que se imagina, ela acredita até hoje que esse contexto foi muito benéfico, porque criou o que ele denomina de ”campo magnético em torno dele”. Segundo ele, era da última geração que ainda brigava sem arma porque havia um respeito pela pessoa que brigava sem arma. Ele conta:

Então eu briguei muito, fisicamente falando. Já encarei até seis, sete, mas depois eu descobri isso até espiritualmente. Eu brigava muito, era muito violento. “O cara podia estar armado, mas se você chamasse para o mano a mano ele vinha. Tomei muita porrada. Meu nariz é torto. Levei uma cabeçada que meu nariz veio parar aqui (aponta para o meio da bochecha). Apanhei mas também bati muito. E fui covarde, porque entrei para o box, então eu era uma máquina de bater. E eu era muito forte e truculento”.

Nesta época, as pessoas confundiam muito a sua “truculência” com banditismo, até porque ele bateu muito em bandido, mas também bateu muito na polícia. Ele se diz fruto desse ambiente que freqüentou no passado. Até então, sentia-se completamente fracassado:

Sempre fui um cara derrotado em minha vida. Tudo que eu fazia dava errado. Era, digamos assim, um eterno perdedor.

Aos dezoito anos, percebeu que onde morava era o mais velho; os outros estavam presos ou tinham morrido. Para ele, esse foi um sinal de que precisava mudar. A partir desta consciência, Junior lança as bases para o seu processo emancipatório.

Como vimos através da abordagem teórica de Ciampa (1987), na qual o indivíduo, que nasce como ser apenas natural capaz de se metamorfosear, também nasce como ser histórico ao sofrer as determinações das constantes transformações sociais. Dentro dessa perspectiva, vemos que a identidade é um fenômeno social, logo não é possível dissociar o estudo da identidade do Eu, do estudo da sociedade.

É do contexto histórico e social em que o homem vive que decorrem suas determinações e, conseqüentemente, emergem as possibilidades ou impossibilidades, os modos e as alternativas de identidade. O indivíduo constrói a sua identidade humana, ao mesmo tempo em que age como ator social. Ele vai se tornando autor de ações que podem determinar transformações da sociedade as quais, ao se concretizarem, concretizam o processo histórico como síntese de natureza e cultura.

É assim que a identidade, considerada como um processo de constante metamorfose, pode ser compreendida à luz da Psicologia Social, pois esta apresenta a visão de ser humano como um ser ativo e em constante processo de transformação. Transformação esta em que indivíduo e sociedade se constituem reciprocamente, através de um processo dialético, um processo não linear em que os fenômenos são considerados e analisados em seus movimentos recíprocos e contínuos de interação sujeito advinda deste movimento de morte e vida, em que uma personagem é abandonada e outra surge, é que permite a superação da identidade pressuposta e a concretização da identidade como metamorfose em busca a emancipação.

A partir de agora, vamos acompanhar o processo de transformação do José Junior e o surgimento de múltiplos personagens que possibilitaram que ele abandonasse o personagem fracassado-briguento e superasse uma identidade pressuposta, afirmando, assim, a identidade do eu pós-convencional.

4. 2. O monge cósmico

Diante deste modelo visto em casa e na comunidade e, para não se revoltar, Junior começou a se espiritualizar a partir dos 14 anos de idade. Ele afirma:

Existia um fúria em mim, eu estava muito violento mas percebi que todo mundo estava morrendo e eu comecei a me espiritualizar. Nessa história de espiritualidade já aconteceu muito de policial e bandido sacar a arma para mim, atirar, e o tiro não sair. Tinha uma onda comigo muito forte, até hoje.

Segundo o próprio Junior, a sua história começou a virar na busca da espiritualização, que demorou muitos anos. Junior conheceu uma pessoa que chegou para ele e assumiu o papel de uma espécie de mentor espiritual. Esta pessoa previu que ocorreria uma “coisa diferente” na vida dele e que ele não deveria recusar.

Durante quatro anos, Junior procurou Deus em várias religiões. Freqüentou o Candomblé, a Umbanda, Quimbanda, a igreja Messiânica, o Kadercismo e Testemunha de Geová, aprendendo muito com todas elas e passado a respeitá- las igualmente. Após entrar em contato com essas diversas correntes religiosas, chegou à conclusão que “O Deus é o mesmo em todos os lugares”. A partir daí, começou a se definir espiritualmente como “eclético” e, hoje, além das religiões que citamos acima, freqüenta também a Igreja Universal, o Hare Krishna, o Budismo. Ele alega:

Se me chamarem para a igreja Universal, eu vou feliz. Ultimamente freqüento a Assembléia de Deus dos Últimos Dias, do pastor Marcos, um cara polêmico mas um dos maiores mediadores de conflito que eu conheço.

Junior possui seis tatuagens ligadas à espiritualidade. Por exemplo, tatuado no braço direito, possui Ogum, que na tradição religiosa afro-brasileira do Candomblé, é considerado um orixá guerreiro. Tatuado no seu braço esquerdo, está Shiva, que na tradição hindu é o destruidor, que destrói para construir algo novo, e o motivo pelo qual também é conhecido como "renovador" ou "transformador".

Apesar de, freqüentemente, José Junior mencionar a sua ligação com a espiritualidade, o monge cósmico talvez seja o personagem que Junior menos mostra publicamente. Entretanto, a sua afinidade com o mundo espiritual é bastante forte. Junior possui uma mente bastante especultiva e um interesse natural por assuntos metafísicos. Ele relatou que possui uma abertura mediúnica, já fez regressão para vidas passadas de forma espontânea, ou seja, sem ajuda de nenhum profissional ou guia, e que já psicografou.

Até hoje, Junior costuma passar regularmente por fases de reclusão voluntária, que considera absolutamente essenciais em sua vida. Segundo ele, esse isolamento temporário, por livre e espontânea vontade, representa uma oportunidade para que ele se re-energize e se conecte com a sua alma através de mentalizações que reliza. As técnicas de mentalização utilizadas por ele foram criadas pelo próprio Junior, ainda quando era adolescente.