O ofício docente aglutina elementos diversificados que interagem na configuração das ações desenvolvidas pelo professor. Dentre esses elementos, a nossa escuta se fez atenta ao sentimento experimentado nas relações interpessoais. O trabalho em sala de aula, longe de ser uma ação que envolva apenas a dimensão cognitiva, também requer investimento de energia e de afeto. O aluno da graduação, como qualquer outro nível de ensino, nutre expectativas em relação ao professor, também o professor alimenta expectativas e faz projeções em relação aos alunos. Esse jogo de expectativas, denominado pela psicanálise de transferência e contratransferência, contribui na criação de situações facilitadoras ou aversivas para a aprendizagem, além de desencadear emoções múltiplas em professores e alunos.
É bastante expressivo o estudo desenvolvido por Picado (2005) e que sinaliza como um dos desafios a ser encarado pelos professores nesse início de milênio a exigência de suprir ou compensar as carências básicas trazidos pelos alunos. O mesmo autor refere que tal necessidade, conforme dados de pesquisa, ainda não foi incorporada pelos professores. Desta forma, materializa-se o antagonismo entre uma educação que se propõe a preparar o sujeito de maneira integral, mas que esbarra em necessidades que precedem à dimensão cognitiva. Por outro lado, como não compreender o estresse experimentado pelo professor que se vê cobrado a ser competente em tão variadas dimensões: cognitiva, afetiva, social e política.
Talvez por isso, por não se sentirem seguros quanto ao redimensionamento do processo interativo e intercomunicacional, talvez por alimentarem dúvidas quanto à natureza das respostas que possam corresponder ás expectativas dos alunos, talvez pelo fato, ainda, de nossas instituições universitárias não estarem abertas a lidar com a diversidade e as diferenças, alguns professores podem sentir-se aquém de sua missão, o que ode contribuir para que o contato com os alunos ao invés de realizá-los profissionalmente, os deixe ansiosos e estressados:
A expressão Lidar com pessoas é a chave. […] Isso é que faz a nossa profissão estressante. Porque as pessoas, cada ser humano tem um comportamento diferente, tem a sua forma de pensar [..] cada um com sua experiência, pode ser estressante. (P1).
Não são poucos os relatos de professores que escolheram essa profissão, tendo por base e inspiração modelos de professores que marcaram positivamente suas vidas. É uma profissão, que por suas especificidades, consegue, de uma só vez, abranger um número variado de pessoas. Sentir-se ouvido, ao mesmo tempo, por muitas pessoas, além de ser desafiador, pode se constituir uma tarefa motivadora e grande oportunidade de marcarmos positivamente os alunos, não apenas do ponto de vista cognitivo, mas também do ponto de vista afetivo, psicológico e ético.
Lidar com pessoas é uma categoria emergente no discurso do professor que está inter-relacionada a um aspecto fundamental do trabalho docente, ou seja, diz respeito ao estabelecimento das relações e ao gerenciamento destas que, embora interpessoais, são alicerçadas no âmbito intrapessoal, na construção psíquica e nos processos de vinculação estabelecidos pelo professor. Lidar com a variedade de pessoas, diversidade de comportamentos, o esforço empreendido para corresponder às expectativas, a certeza de que nunca satisfaremos a todos.
No desenvolvimento da profissão valorizam-se imensamente aspectos como a formação acadêmica e titulação, contudo, embora não devamos desconsiderá-los, o aspecto humano e a qualidade das relações estabelecidas na docência são fundamentais, e às vezes esquecidos, como um valor a ser agregado no exercício do ofício. Muitos docentes esquecem a importância do qualitativo no valor destas relações.
De fato, múltiplas dimensões que se entrelaçam e se separam como forma de permitir ao professor menor vulnerabilidade frente a tantas atribuições. Podemos então encontrar um professor vibrante, coração aberto, sem medo de expressar seus afetos quando é convidado a relatar suas vivências em sala de aula. Lidar com pessoas, embora se constitua tarefa desafiadora, dada às múltiplas dimensões envolvidas, também pode ser algo apaixonante:
E trabalhar com pessoas, para mim, é uma coisa apaixonante. Eu adoro estar com gente. [..] Estar com pessoas para mim, é um fato desestressante.(..) A convivência com as pessoas , nessa aula, me faz relaxar. (P2).
É bom porque a gente aprende muito, é bom porque se a gente souber conhecer o que motiva, se souber conhecer o que as pessoas valorizam, a gente consegue conquistá-los e aí aprende [...] alguns apesar de está numa universidade privada, estarem pagando, escolherem isso, muitas vezes agente percebe que, em sala, não era isso que eles queriam, apesar de ter toda uma pratica, contanto, não
era isso, ai a gente tem que ficar. Exercer um papel meio de animador de auditório em sala de aula. (P8).
A situação que supõe um desgaste de energia torna-se momento de relaxamento e prazer. Não é à toa que Alves (1984) faz questão de afirmar em vários de seus escritos, a estreita aproximação entre prazer e dor. Esse autor assinala que, na experiência subjetiva do sujeito, os registros das sensações do prazer e da dor são tão aproximados que chegamos a chorar de alegria e sorrir de dor. O professor P2 faz dos momentos em que está com pessoas, em sala de aula, algo desestressante, apaixonante e relaxante.
Estamos cientes de que, para a boa execução de qualquer ofício, precisa-se da conjugação de três grandes conjuntos de habilidades: conceituais, técnicas e humanas. Sem desmerecer a importância de nenhuma delas, enfatizamos nesse estudo que o desenvolvimento de habilidades humanas pode contribuir e facilitar a ação docente. Essa facilidade é capaz de motivá-lo a querer ser um bom professor.
A sensação de sentir-se maravilhada, a facilidade e o gosto em lidar com pessoas, também funciona como elemento impulsionador da motivação, ou seja, a sensação é tão boa que também desperta o desejo de ser um bom professor. Uma expressão de encantamento, ao mesmo tempo em que ensina da necessidade de encantar os alunos pelo que se leciona:
Para mim é maravilhoso, eu gosto de lidar com pessoas. […] Eu
gosto demais de trabalhar com pessoas […]. Esse é um dos motivos
que me faz querer ser um bom professor, de chegar em sala e ter muita gente me ouvindo.(P3).
Eu gosto muito de lidar com pessoas. [..] Eu procuro conhecer meus alunos.Eu gosto de lidar com meus alunos, [..] a cada semestre eles mudam de turma, e cada turma é uma turma. (P4).
Eu adoro lidar com pessoas, principalmente alunos. Eu me sinto muito bem quando estou em sala de aula. (P5).
Além do convívio diário, a professora P4 refere que se interessa por conhecer os alunos e demonstra interesse por eles. Essa forma de portar-se, além de ser confortável para a professora, também é bastante saudável para os alunos, pois encontra no educador, muito mais do que alguém com quem possam estar trocando conhecimentos. Assim, a interação, como se percebe na fala de P3, funciona como re-alimentação
recíproca: encoraja o professor a buscar respostas mais sintonizadas com as necessidades dos alunos, e motiva seus alunos a realizarem aprendizagens significativas.
A relação professor-aluno é salutar para ambas as partes. É através desta relação que são criadas condições para que novos conhecimentos sejam adquiridos, e em algumas vezes, ocorre o estreitamento dos laços de amizade entre ambos. A cada nova turma, um novo desafio: formação das primeiras impressões, resistências, desconfianças, aproximações e recuos. O professor precisa desenvolver suas competências interpessoais, a fim de identificar o melhor caminho para conduzir esse processo de aproximação. Precisa ser hábil para lidar com os antagonismos inerentes ao limite, ou seja, quebrar as barreiras de aproximação, mas, ao mesmo tempo, estabelecer limites que facilitem o desempenho do seu papel. Nessa perspectiva, estar lidando com pessoas diversificadas faz do ofício docente um exercício permanente de aprendizado.
Observe-se, também, o quanto é valorizado pela professora P7 o aluno enquanto pessoa:
Eu gosto de lidar com pessoas, esta com, exercendo a profissão de professor. [...] Eu gosto de lidar com pessoas e a profissão de professor me proporciona isso.(P7).
A consciência da dimensão de que, em sala de aula, o professor é mais do que professor, e que o aluno é mais do que aluno, mas que seu processo interativo se realiza na relação de sujeito a sujeito, é priorizar, no processo de ensino-aprendizagem, os valores prioritários da própria educação.
Transformar as atividades diárias do ofício em ações prazerosas. Estamos diante de uma estratégia bastante saudável como forma de lidar com a realidade. Conseguir sentir-se bem com o que faz, além de abastecer energeticamente a pessoa que desempenha a tarefa, também proporciona bem-estar a quem está recebendo o trabalho, nesse caso, o fato do professor sentir-se bem ao entrar em sala de aula, também despertará nos alunos o conforto de um encontro tranqüilo, transformando o processo de ensinar e aprender numa experiência bastante positiva. O professor precisa ser hábil na condução das suas atividades. Tem que usar a criatividade para conseguir prender atenção, ser ouvido e tornar a sala de aula um espaço de interação.
Nada mais produtivo e recompensador em uma sala de aula quando o professor consegue prender a atenção dos alunos e interagir com eles, trazê-los para si, envolvê- los, falar e saber que está sendo ouvido e compreendido. Isso torna a atividade estimulante para todos e menos estressante para o professor. As instituições de ensino
precisam considerar com seriedade a necessidade de ajudar os professores no desenvolvimento de competências humanas. Somente boa vontade não basta, é preciso oferecer condições para que esse desenvolvimento ocorra.