No capítulo ŖLa Sociologie de la Réceptionŗ da obra La Sociologie de la Littérature (2014), Gisèle Sapiro afirma que a recepção constitui um processo que ultrapassa o limite da produção de uma obra, no tempo e no espaço, nomeadamente através de reedições e traduções (La Sociologia de la Literatura 112). Este processo permite a sobrevivência da obra ao longo do tempo, mediante as transformações sucedidas e decorrentes de diferentes linhas de pensamento. Assim, a leitura de uma obra encontra-se dependente da importância por esta adquirida num dado contexto. Ao revisitá-la, as várias interpretações realizadas permitem atribuir-lhe novos sentidos e transformar o presente através de uma revisão do passado.
No contexto da sociologia da recepção, a crítica afigura-se muito importante, pois, através dela, os leitores apercebem-se da fortuna literária de uma obra. Se, por um lado, os números de vendas e as consecutivas reedições constituem um indicador da aceitação por parte do público, por outro, os artigos de opinião que circulam na imprensa dão conta da posição assumida por personalidades reais e, em princípio, com capacidade para dar expressão às tendências do gosto do público.
Ainda segundo Sapiro, a crítica constitui uma das maiores mediações no processo de recepção e valoração de uma obra (La Sociologia de la Literatura 114), sendo que os critérios para avaliar as obras dependem da posição tomada pelo emissor do discurso crítico, no campo literário. Assim, os discursos variam consoante dois factores que estruturam o âmbito literário. O primeiro opõe os Ŗdominantesŗ aos Ŗdominadosŗ, na medida em que, ao tomar uma posição dominante, o crítico tem uma maior tendência para adoptar um discurso caracteristicamente académico e, portanto, respeitador das regras do debate intelectual. Por outro lado, ao assumir a posição de dominado, o crítico revela uma maior tendência para adoptar um discurso de natureza política, denunciando o conformismo face a pontos de vista dominantes. O segundo factor opõe heteronomia e autonomia, dividindo-se os discursos críticos entre, por um
O CASO DOS RELATOS DE TAINE SOBRE A GRÃ-BRETANHA
118 lado, os que se focam no conteúdo da obra (o enredo e os valores morais) e, por outro lado, aqueles que conferem mais atenção à forma e ao estilo (115).
No cruzamento destas duas posições, obtêm-se quatro tipos de discurso. No pólo da heteronomia, o discurso dominante assume o valor de um juízo moral, enquanto o discurso dominado toma o valor de um juízo político. Já no pólo da autonomia, o discurso dominante assume o valor de um juízo estético, sendo que o discurso dominado denuncia uma conformidade absoluta do discurso dominante relativamente à preservação das formas literárias. Deste modo, ao tomar o valor de um juízo crítico, o discurso dominado procura a renovação das formas literárias como meio de subversão social (115) (Fig. 60): Discurso Dominante (Discurso Académico) Autonomia (Discurso focado na forma e estilo da obra) Juízo Estético Juízo Moral Heteronomia (Discurso focado no conteúdo da obra) Juízo Crítico Juízo Político Discurso Dominado
(Discurso de Natureza Política)
Fig. 60. Tipos de Discursos Críticos. (La Sociología de la Literatura).
Após a recolha das amostras e da organização, por ordem cronológica, dos artigos críticos que saíram na imprensa francesa e britânica, no período compreendido entre 1871 e 1900, tornou-se possível, a partir do quadro teórico acima descrito, classificá-los por tipo de discurso.
Deste modo, verificou-se que nos artigos apresentados nos subcapítulos 3.1.2.2 e 3.1.2.3. predominam juízos morais, isto é, o crítico adoptou frequentemente uma posição dominante que favorece o autor e os conteúdos da obra. Contudo, a crítica, muitas vezes acompanhada de um juízo moral, assumiu simultaneamente o valor de um juízo extraliterário, de cariz político, face aos fenómenos sociais em causa. Por outras
O CASO DOS RELATOS DE TAINE SOBRE A GRÃ-BRETANHA
119 palavras, sempre que se tratava de um juízo moral, o crítico usava determinados aspectos contidos na obra como instrumentos para fazer crítica social.
Assim, complementando, de certo modo, o pensamento de Sapiro, considera-se a coexistência, num único artigo, de duas categorias: a) a categoria dos juízos literários, proposta por Sapiro, que inclui os juízos de teor estético/crítico e moral/político; b) a categoria dos juízos extraliterários, aqui proposta, os quais podem ser apenas de teor moral/político e coexistir com juízos literários também eles de teor moral/político.
Nestas circunstâncias, afiguram-se possíveis duas hipóteses: 1) o crítico recorre a um juízo literário de teor moral (o que se encontra em conformidade face a um ponto de vista literário) para justificar um juízo extraliterário de teor político (o que denuncia aspectos da vida social); ou 2) o crítico recorre a um juízo extra-literário de teor moral, (que se encontra em conformidade com aspectos sociais) para justificar um juízo literário de teor político (que denuncia a conformidade do discurso face a um ponto de vista literário). Atente-se no exemplo apresentado abaixo (Figs. 61 e 62):
Afirmação do Autor Opinião Crítica
Nós admiramos a estabilidade do governo inglês. Os seus representantes são os pilares da nação.
A França já não tem representantes naturais idênticos aos que, segundo o autor, prevalecem em Inglaterra. Mais do que nunca precisamos deles.
Fig. 61. Afirmação. Opinião Crítica.
Classificação da Opinião Crítica
Juízo Literário Moral Juízo Extraliterário Político
O discurso encontra-se em conformidade com um ponto de vista literário.
O discurso denuncia um aspecto da vida social.
Fig. 62. Classificação da Opinião Crítica.
Deste modo, verifica-se que, por vezes, num artigo de opinião coexistem duas vozes, a da crítica literária e a da crítica social. A identificação destas vozes permite perceber a intenção subjacente a cada tipo de juízo. Por exemplo, a partir das Figs. 61 e
O CASO DOS RELATOS DE TAINE SOBRE A GRÃ-BRETANHA
120 62 torna-se possível perceber que, na conjugação de um juízo literário moral com um juízo extraliterário político, o crítico visa claramente subverter as instituições sociais alvo, usando a obra em causa para o justificar. Assim, o quadro ficaria completo da seguinte forma: Discurso Dominante Discurso Focado na Forma e Estilo da Obra Juízo Estético (conformidade do discurso face à preservação das
formas literárias)
Juízo Moral
(conformidade do discurso face a um ponto de vista
literário) Discurso Focado no Conteúdo da Obra JUÍZO LITERÁRIO Juízo Crítico (denuncia a conformidade do discurso face à preservação das formas
literárias)
Juízo Político
(denuncia a conformidade do discurso face a um ponto
de vista literário) Discurso Dominado ❌ Juízo Político (denuncia aspectos extraliterários, designadamente, sociais) JUÍZO EXTRA-LITERÁRIO ❌ Moral
(conformidade com aspectos extraliterários,
designadamente sociais)
O CASO DOS RELATOS DE TAINE SOBRE A GRÃ-BRETANHA
121 Fig. 63. Tipos de Discursos Críticos (v2).
Tendo estes pressupostos em mente, passar-se-á, em seguida, à exposição das amostras recolhidas, acompanhadas das respectivas classificações, do ponto de vista do discurso, a par de alguns comentários.