Na ausência de literatura especializada que trate do tema da evangelização, segue uma rudimentar tentativa de definição do fenômeno em tela, utilizando-se como modelo explicativo o interacionismo simbólico preconizado por Goffman. Assim sendo, a prática
do evangelismo consiste, basicamente, na interação entre dois indivíduos ou mais, na qual uma parte tenta convencer a segunda de que a alternativa de conduta, valores, crenças e atitudes do primeiro grupo são capazes de produzir um resultado qualitativamente superior à situação na qual se encontra a parte segunda. Ou seja, através da conversão do segundo grupo ao sistema de valores do primeiro, ambos serão colocados num mesmo patamar “ideal” tendo como referência a situação social vivenciada pelo primeiro grupo quando do início da interação. No plano empírico, o cenário é composto por dois lados que se intercomunicam; de um lado está o evangelizador munido do discurso e de ferramentas subjetivas e objetivas ancoradas nos preceitos de sua religião. Do outro, o indivíduo não pertencente ao grupo que evangeliza, neste caso específico, o detento sentenciado à reclusão. No entanto, longe de ser um processo meramente restrito ao universo da retórica e do convencimento, alguns elementos estão postos no processo de interação. Tais elementos estão localizados no plano do simbólico e necessitam de algumas considerações.
4.2.1.1- Entre o Bem e o Mal
A forma como os militantes evangélicos encaram os indivíduos encarcerados não pode ser reduzida àquilo que tradicionalmente é referido como “racional”. Que os indivíduos procedem a cálculos estratégicos, elaborem discursos convincentes e antecipem os resultados de suas ações tomando como parâmetro a relação entre custo e benefício. Antes de qualquer estratégia no campo da ação, tudo parece ter origem no plano simbólico. A partir do conceito que os militantes constroem acerca da prática da criminalidade e do “ser criminoso” propriamente dito. No primeiro aspecto, os militantes
reconhecem o caráter objetivo das leis, valorizam o respeito às normas estabelecidas e costumam demonstrar algum tipo de reprovação aos que vivem em desacordo com elas. No entanto, concebem que o homem criminoso não age deliberadamente e unicamente por escolha própria. Neste percurso, forças ocultas: o mal, o diabo, a corrupção da carne e o mundo exercem um ataque violento nas fracas consciências humanas levando-as ao desejo incontrolável e à prática irracional de crimes os mais variados possíveis: “o ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (BÍBLIA, NT. João. Português. A BÍBLIA SAGRADA: Versão Almeida, Revista e Atualizada, Trad. de: Carlos Oswaldo Cardoso Pinto. São Paulo: Mundo Cristão, 1994. Cap. 10, vers. 10).
Para enfrentar essas forças tenebrosas, os militantes evangélicos buscam as armas necessárias através da prática de jejuns, oração, santificação de vida, estudo da Palavra e austeridade no modo de viver. O depoimento da evangélica que lidera o grupo anglicano no PPAB pode ilustrar o que vem sendo escrito até o momento:
“E hoje eu sei da questão principalmente espiritual, da guerra espiritual que é [a evangelização no presídio] . Eu saía dali às vezes dia de sábado, eu chegava em casa, eu tomava banho e não conseguia andar o resto do dia. Parecia assim que eu tinha levado uma surra, e eu não sabia o que era aquilo. Aí eu dizia assim: mas eu passei o dia sentada! Hoje eu sei, e aí, é aí que a gente se prepara, e aí que eu procuro me preparar para o meu ministério. A gente procura fazer um jejum na sexta-feira antes de ir, a gente procura realmente se revestir, porque ali é território; hoje eu sei que ali é território do inimigo e ele não se agrada desse trabalho, e ele vem e você tem que tá buscando mesmo o caminho de santificação para não dar brecha, porque ele vem pra cima, e vem com tudo. Cada alma que a gente ganha ali pra Jesus, ele vem, ele parte pra cima. Ele atinge filho, ele atinge família, ele atinge bens materiais”. (Entrevista com uma militante anglicana fita 01 lado A).
Cada militante parece enfrentar uma guerra pessoal contra as forças ocultas. E nesta guerra é preciso estar preparado, o jejum, a oração pela madrugada, as orações em
grupo, o estudo devocional das Escrituras são algumas das armas à disposição dos fiéis. Conforme cita um diácono assembleiano:
“Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo; porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne e, sim, contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes. Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau, e, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis. Estai, pois firmes, cingindo-vos com a verdade, e vestindo-vos da couraça da justiça. Calçai os pés com a preparação do evangelho da paz, embraçando sempre o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno. Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus; com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito, e para isto, vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos.”(BÍBLIA, NT. Carta de Paulo aos Efésios. Português. A BÍBLIA SAGRADA: Versão Almeida, Revista e Atualizada, Trad. de: Carlos Oswaldo Cardoso Pinto. São Paulo: Mundo Cristão, 1994. Cap. 6, vers. 12 a 18).
O conteúdo desses versículos é incorporado à vida cotidiana do militante evangélico, que busca atender ao chamado divino – pois ele interpreta a vocação de evangelizar as almas na prisão como um chamado de Deus. Chamado este que já não mais poderá ser ignorado. Durante as entrevistas, foram fartos os relatos de pessoas que “pagaram um preço” por negligenciar o ministério nas prisões. Também era muito forte a angústia que alguns demonstravam pelo fato de “já a alguns dias de visita nunca mais ter ganho ninguém pra Jesus, e aí eu pergunto: Senhor o que é que está faltando na minha vida? Senhor me revela, ou fala comigo através dos Teus servos!”(depoimento de um militante em início de carreira) . Neste rico universo dominado pelo sagrado, o detento é visto como uma alma perdida e, como cristão, é dever do crente resgatá-lo. O que ganha com isso? Parece ser a mesma moeda que oferece aos detentos: a salvação nesta e na outra vida, e a certeza de receber um eterno galardão. A tarefa arriscada de evangelizar em presídios, a inserção no “convívio” dos presos, a aposta na mudança de sujeitos
considerados irrecuperáveis e o amor pelas almas sebosas apenas podem ser desvelados através da compreensão da influência do poder simbólico dos valores religiosos na prática social dos indivíduos, resultados de uma tríplice obrigação de dar, receber e retribuir.