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4.2.6.2 Datation et interprétation

Para o senso comum da maioria do público do cinema, um filme histórico retrata uma verdade histórica objetiva. Sob tal ponto de vista o filme é uma representação de um passado morto. Ainda assim o filme de ficção está a serviço da História, porém utilizando uma objetividade própria de quem o produziu e que tem o direito de contar as coisas como acha que ocorreram, sob uma interpretação carregada do ponto de vista do autor, que pode enxergar os fatos históricos a partir de seu ângulo de visão e dar a eles uma especificidade própria, como nos ajuda a compreender White:

121 BETTO, Frei. Batismo de Sangue: os dominicanos e a morte de Carlos Mariguella. Rio de Janeiro:

Os acontecimentos são convertidos em história pela supressão ou subordinação de alguns deles e pelo realce de outros, por caracterização, repetição do motivo, variação do tom e do ponto de vista, estratégias descritivas alternativas e assim por diante - em suma, por todas as técnicas que normalmente se espera encontrar na urdidura do enredo de um romance ou de uma peça. Por exemplo, nenhum acontecimento histórico é intrinsecamente trágico; só pode ser concebido como tal de um ponto de vista particular ou de dentro do contexto de um conjunto estruturado de eventos do qual ele é um elemento que goza de um lugar privilegiado. Pois na história o que é trágico de uma perspectiva é cômico de outra, exatamente da mesma forma que na sociedade o que parece ser trágico do ponto de vista de uma classe pode ser, como Marx pretendeu demonstrar com O 18 Brumário de Luís Bonaparte, apenas uma farsa do ponto de vista de outra classe. Considerados como elementos potenciais de uma história, os acontecimentos históricos são de valor neutro [...]. O mesmo conjunto de eventos pode servir como componentes de uma história que é trágica ou cômica, conforme o caso, dependendo da escolha, por parte do historiador, da estrutura do enredo que lhe parece mais apropriada para ordenar os eventos desse tipo de modo a transformá-los numa história inteligível.122

Em Pra Frente Brasil a categoria escolhida é a dimensão trágica dos fatos históricos representados. O trágico destino dos personagens não é utilizado como mero ornamento no filme como um todo, mas como forma de transmitir e de interpretar o momento histórico retratado. Farias relata os acontecimentos de 1970 a partir de uma visão própria e por isso carregada de subjetividade, mas que ainda assim não está alheia à História, que pode ser vista de muitos ângulos. O filme é muito mais que a visão própria do autor. Existe nele todo um contexto histórico colocado à mostra e discutido, que envolve a política, a sociedade e as ideologias do ano de 1970. Os filmes são estruturas também historicamente produzidas num universo de práticas articuladas e com características políticas, sociais e econômicas próprias que determinam sua construção, sendo figuras que surgem a partir de interesses próprios, como nos ajuda a elucidar Chartier, quando afirma que:

As representações do mundo social assim construídas, embora aspirem à universalidade de um diagnóstico fundado na razão, são sempre determinadas pelos interesses de grupo que as forjam. Daí, para cada caso, o necessário relacionamento dos discursos proferidos com a posição de quem os utiliza. [...] As lutas de representações têm tanta importância como as lutas econômicas para compreender os mecanismos pelos quais um grupo impõe, ou tenta impor, a sua

122 WHITE, Hayden. Trópicos do Discurso: Ensaios sobre a Crítica da Cultura. São Paulo: EDUSP, 1994,

concepção do mundo social, os valores que são os seus, e o seu domínio.123

Reconhecemos Pra Frente Brasil como um filme histórico, muito mais que um filme policial moderno ou um filme sobre a luta armada contra a ditadura. Sua historicidade vem da forma como ele nos apresenta os fatos, mesclando a luta individual à coletiva, pois os dramas pessoais de Miguel e Marta se tornam coletivos porque dizem respeito a todos aqueles que fizeram oposição à ditadura, foram perseguidos, torturados, mortos. Ao mesmo tempo, por outro lado, a paixão entre Miguel e Mariana também é coletiva e individual. O filme nos traz um conflito amoroso, outro político; um tipo social de esquerda (guerrilheiros), outro de direita (agentes da repressão), alguns de centro, e todos dizem respeito à realidade histórica.

Há uma outra questão no filme que convida a pensar sobre coisas que normalmente não se pensam, porque existe uma tendência na idealização e atribuição do título de heróis àqueles que lutaram abertamente contra a ditadura. O filme vem colocar o dedo numa ferida que nem a esquerda, nem os intelectuais enfrentaram efetivamente, e que é a idéia de que a oposição à ditadura não foi unânime e que os Estados autoritários não nascem da vontade exclusiva de um governante. A ditadura militar se instalou e durou tantos anos no país porque encontrou bases de apoio na sociedade. E quando se fala em sociedade deve-se lembrar de todos, inclusive daqueles que possuem uma lembrança saudosa do período, por o considerarem bom para eles. Pra Frente

Brasil trata disso, mostrando que dentro da sua realidade cotidiana, o homem médio podia ser alguém consciente e muitas vezes o era, mas continuou na luta pela sua sobrevivência, vivendo no meio de um fogo cruzado entre a direita e a esquerda, e não autorizando nenhum deles a representá-lo, ou mesmo tomando o partido do governo contra os que se autointitulavam seus defensores.

O governo militar no Brasil não se armou contra a sociedade como um todo e a ditadura não foi a mesma para todas as pessoas. É esta discussão, principalmente, que faz de Pra Frente Brasil um filme histórico e detentor de uma profunda discussão sobre aspectos importantes do processo da ditadura militar e dos sujeitos nela envolvidos. E Farias a faz principalmente através da construção de seus personagens.

123 CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Lisboa: DIFEL/Rio de