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Développement d’un cavernome

SUIVI DES PATIENTS :

A- Développement d’un cavernome

Esta é uma discussão mais detalhada do importante estudo de Eric Wolf , Europe and the Peoples

without History [A Europa e os povos sem história], utilizado no capítulo anterior. Foi publicada no Times Literary Supplement, 28 de outubro de 1983.

A famosa descoberta do menino do conto de Andersen de que o rei estava nu implicava outra proposição: ele deveria estar vestindo alguma roupa. Mas de que tipo? Não é preciso mais que o senso comum de um leigo para observar, a despeito do ceticismo historiográ co em moda, que as ciências sociais e a própria história precisam de “uma história que poderia explicar os modos pelos quais o sistema social do mundo moderno passou a existir, e que se esforçaria em dar sentido analítico a todas as sociedades, inclusive a nossa”. É preciso um esforço considerável por parte de um so sticado intelecto, grande lucidez de espírito, para não falar de um bocado de leitura e coragem, para esboçar as formas em que tal história poderia ser construída, tomando como exemplo todo o desenvolvimento mundial desde o ano de 1400 aproximadamente. O novo livro de Eric Wolf não se dispõe a fazer menos que isso.

Wolf é extraordinariamente bem quali cado para a missão. Ao contrário da maioria dos antropólogos anglo-americanos, não é tão conhecido por “sua” tribo ou região, quanto por seu objeto: a população na agricultura. Seu livro sobre Camponeses (1966) talvez seja a melhor introdução ao assunto, e ele é conhecido de um público mais amplo por um estudo sobre o elemento camponês nas revoluções de nosso tempo, Peasant Wars of the Twentieth Century [Guerras camponesas do século XX]. Publicou trabalhos não só sobre sua própria área de estudo, a América Central hispânica, sobre grandes propriedades rurais, fazendas e camponeses, mas também sobre as origens do Islã e a formação de nações. É coautor de The

Hidden Frontier [A fronteira oculta] (1974), um estudo histórico-antropológico magistral sobre

duas comunidades tirolesas vizinhas mas etnicamente diferentes, leitura essencial a estudiosos da nacionalidade moderna. Não é de admirar que tenha sido durante muito tempo associado ao primeiro periódico interdisciplinar moderno desse gênero, Comparative Studies in Society and

History [Estudos comparativos sobre sociedade e história].

A tradição antropológica contra a qual Wolf se insurge é aquela que trata as sociedades humanas (isto é, na prática, as micropopulações que foram objeto de trabalho de campo e monogra as) como sistemas independentes, autorreprodutores e teoricamente autorregulados. Porém, a rma ele, nenhuma tribo ou comunidade é ou jamais foi uma ilha, e o mundo, uma totalidade de processos interligados ou sistema, não é e nunca foi uma soma de grupos humanos e culturas independentes. O que se manifesta como imutável e autorreprodutor não é somente o resultado do enfrentamento do processo constante e complexo de tensões internas e externas, mas muitas vezes produto de transformação histórica. O que aconteceu aos mundurucu do Amazonas, que passaram da patrilocalidade e patrilinearidade para a rara combinação de matrilocalidade e ordenação patrilinear, sob o impacto do ciclo brasileiro da borracha, provavelmente aconteceu a muitas “tribos” contatadas por etnógrafos do século XIX e consideradas como sobrevivências pré-históricas ou a-históricas “primitivas”, como uma

espécie de celacanto humano coletivo. Não há povo sem história ou que possa ser compreendido sem ela. Sua história, como a nossa, é incompreensível fora de sua inserção em um mundo mais amplo (que se tornou limítrofe do globo habitado) e, certamente, no último meio milênio, não pode ser entendida exceto por meio das interseções de diferentes tipos de organização social, cada um modificado por interação com os demais.

Para historiadores dedicados à história presente em termos globais, essa abordagem tem a vantagem de lhes propiciar uma justi cativa genuína para seus esforços, que normalmente não são empreendidos por razões melhores que aquelas que levam as lojas a descrever suas mercadorias em árabe ou japonês, ou que aquelas que re etem a imagem da política contemporânea (as da instituição duplamente mal de nida das “Nações Unidas”) e da economia contemporânea e evidentemente global. Ela também reduz à insigni cância os argumentos favoráveis ou contrários ao eurocentrismo. É evidente que as forças que transformaram o mundo desde o século XV eram geogra camente europeias. Quanto espaço deveria ser ocupado por essa ou aquela região não europeia em um manual de história do mundo moderno é uma questão relativamente trivial, exceto nas salas de aula dos Estados dessas regiões, ou para os seus adidos culturais. O importante é que a história consiste da interação de entidades sociais diversamente estruturadas (e geogra camente distribuídas), que mutuamente se remodelam. A Europa e a não Europa não podem ser mais separadas que os beduínos e sedentários de Ibn Khaldun: cada uma é a história da outra.

De fato, a rma Wolf, a forma geográ ca de interação é meramente um aspecto especial de um padrão mais geral. A história das classes trabalhadoras na sociedade industrial coloca exatamente os mesmos problemas que o impacto do capitalismo sobre sociedades teoricamente tradicionais “supostamente detidas em certo platô atemporal da evolução”. “De fato, os dois ramos da história não passam de um só.” Ou, em termos ainda mais gerais, quer uma sociedade exporte ou importe o capitalismo, pertença ao “centro” ou à “periferia”, ela se desenvolveu e evolui a partir de uma pluralidade de ordenações sociais. Nesse sentido, macrocosmo e microcosmo na história são uma coisa só.

Como se deve analisar essa mescla de ordens? O principal mérito do livro de Wolf não reside em sua capacidade crítica de sintetizar a literatura sobre o mundo desde 1400, registrada em 45 páginas de bibliogra a. Outros podem fazer o mesmo tanto, correndo o risco inevitável de expor os ancos a tocaieiros especialistas. Seu mérito reside na tentativa de fornecer uma maneira de captar as “feições estratégicas d[a] [...] variabilidade” nos “diferentes sistemas sociais e convenções culturais” que o capitalismo europeu encontrou em sua expansão e, consequentemente, nos “processos centrais operantes na interação dos europeus com a maioria da população mundial”.

Dessa forma, o teste para um livro como esse não é se aceitamos sua leitura efetiva do registro histórico, ou os autores cujas descobertas Wolf aceita, modi ca ou reinterpreta. Seu interesse não seria menos signi cativo se a noção, digamos, de “ciclos de longa duração” do desenvolvimento capitalista, por ele aceita, se mostrasse insustentável, ou caso se veri casse que suas fontes sobre os mundurucu estão equivocadas. A questão é, antes, se sua abordagem analítica é superior às demais.

Trata-se inevitavelmente de uma questão sobre uma abordagem marxista da história, já que Wolf claramente atribui um lugar central a dois conceitos basicamente marxistas: produção

como “o complexo de relações mutuamente dependentes entre natureza, trabalho social e organização social”, e cultura, ou sistemas de ideias, considerada como ocorrente “no âmbito determinado de um modo de produção disposto de forma a tornar a natureza receptiva ao uso humano”. A “mente” para ele não “segue um curso independente e próprio”. Para os objetivos de seu livro, a evolução de longo prazo da humanidade, ou a possível sequência de formações sociais, são irrelevantes e não são discutidas, exceto por comentários ocasionais à sua argumentação. Ele não está preocupado com a famosa “contradição” entre o desenvolvimento das forças produtivas materiais da sociedade e as relações de produção existentes, exceto na medida em que tensões estruturais desse tipo no interior de algum dos “modos de produção” e tensões oriundas da interação entre diversos modos puderem ou não ter relação com seu problema. As ideias de Marx são aqui utilizadas basicamente para explicar as “interações globais dos agregados humanos” no último meio milênio, embora tenham evidentemente a intenção também de explicá-las para qualquer outro período.

As posições particulares de Wolf nos intensos debates marxistas internacionais sobre teoria e história não serão de grande interesse a não especialistas, o mesmo acontecendo com suas objeções específicas a diversas escolas antropológicas. As extensas notas bibliográficas, nas quais discute suas fontes e créditos, lançam alguma luz sobre essas questões. Poder-se-ia meramente comentar que seu principal interesse não reside em conexões causais, mas na variabilidade e na combinação. Daí a importância central dos vários “modos de produção” para sua análise, ou seja, da “mobilização social, deslocamento e alocação da mão de obra”. Isso porque seu valor reside precisamente no fato de que o modo de produção “usado comparativamente [...] chama a atenção para importantes variações nos arranjos político-econômicos e nos permite visualizar seus efeitos”, bem como compreender os “suportes variáveis e mutáveis” do desenvolvimento do capitalismo global, que “frequentemente eram acomodados em diferentes modos de produção”.

Três “modos” amplos desse tipo são diretamente relevantes ao seu objetivo, que, muito judiciosamente, não mostra nenhum interesse na classi cação exaustiva e — poder-se-ia acrescentar — é incompatível com a unilinearidade evolutiva: um “modo capitalista”, um “modo tributário” e um “modo parentesco”. Nenhum deles é idêntico à noção de uma “sociedade”, pois esta pertence a um nível diferente de abstração e possui um diferente alcance explanatório. Poder-se-ia acrescentar que Wolf sustenta que cada modo tende a gerar seus próprios tipos de “cultura” ou universos simbólicos que, em suas várias versões, generalizam as “distinções essenciais entre os seres humanos” acarretadas por cada modo.

Seu modelo analítico do “modo capitalista” é de uma linha marxista mais ou menos clássica. O “modo tributário” é um continuum de sistemas no qual o tributo é extraído dos produtores por meios políticos e militares que se alinham desde sistemas de poder altamente concentrado até aqueles de poder extremamente difuso, e variam pela forma em que o tributo é coletado, circulado e distribuído. O “feudalismo” e o “modo de produção asiático” do debate marxista clássico são considerados entre as possíveis variantes de um modo no qual os excedentes são extraídos de forma essencialmente não econômica. Os campos maiores constituídos pela interação política e comercial das sociedades tributárias, a rma Wolf, encontram sua contrapartida em “civilizações” ou zonas de ideologia com um modelo dominante da ordem cósmica, que tende a girar em torno de uma sociedade tributária hegemônica central a cada

zona.

A dinâmica histórica de tais sociedades, pelo menos no Velho Mundo, estava estreitamente ligada ao uxo e re uxo das populações pastoris-nômades — analisadas com argúcia — mas também “ao alargamento e estreitamento da transferência de excedentes mediante o trá co por terra”. Isso porque, com exceções um tanto raras (onde, por exemplo, todo o excedente é consumido in situ ou, como talvez entre os incas, onde praticamente não existe comércio), a distribuição do excedente normalmente depende, em parte, da compra e venda, e de grupos especiais envolvidos nessas atividades. Essa distribuição e a atividade mercantil inerente ao modo tributário exigem controle, para que a comercialização dos bens e serviços sobre a qual se assenta o poder tributário não corra o risco de “desorganizar as prioridades sociais” dos governantes políticos ou militares. Em determinadas circunstâncias, como na Europa medieval e mais tarde — quando mercadores ocidentais, respaldados por poder independente e impingidos a sociedades não europeias —, tal controle se torna difícil. Entretanto, contra Weber e marxistas do “mercado mundial” como Frank e Wallerstein, Wolf insiste na simbiose básica entre o comércio e os modos pré-capitalistas. O capitalismo apenas se torna dominante com a industrialização. Enquanto a produção é dominada por tributo ou parentesco, a atividade mercantil não leva automaticamente ao capitalismo, embora possa tender nessa direção ao tornar os produtores diretos dependentes do mercado, como na “protoindústria”, ou, indiretamente, pela extensão da escravidão. Na opinião de Wolf, “o trabalho escravo nunca constituiu um modo de produção independente importante, mas desempenhou um papel subsidiário no fornecimento de mão de obra em todos os modos”, notadamente, para o capitalismo, durante sua expansão ultramarina.

O parentesco, no “modo parentesco”, não é encarado como dispositivo essencial para o controle social da descendência biológica, nem como sistema de constructos simbólicos (embora também seja, obviamente, ambos), mas como uma maneira de organizar o trabalho social e o acesso ao mesmo. As maneiras de estabelecer tais direitos e pretensões variam muito, mas onde os recursos são amplamente distribuídos e disponíveis a toda pessoa capaz (como nas “turmas” de coleta de alimentos) é claro que são mais simples do que onde são restritos, como é o caso quando a natureza é transformada pelo cultivo de plantas ou criação de animais.

Essa segunda situação não implica apenas uma divisão social do trabalho um tanto mais complexa, mas “um corpus transgeracional de direitos e contradireitos ao trabalho social” por meio de pedigrees reais ou ctícios, e os elementos de uma ordem político-social desigual que ameaça explodir os laços do parentesco. Ela pode ser contida enquanto não houver nenhum outro mecanismo para agregar ou mobilizar mão de obra fora das relações particulares estabelecidas pelo parentesco, ou seja, na medida em que não ocorram alianças e oposições entre as classes da população e os potenciais governantes não possam recorrer a recursos externos. Seria como se o modo parentesco se convertesse em sociedade de classes, e, com isso, em sociedades dotadas de Estados, seja pela transformação das linhagens “principais” em uma classe dominante, especialmente quando tais aristocracias “crescem a ponto de conquistar e governar populações estrangeiras”, ou quando grupos do modo parentesco passam a se relacionar com sociedades tributárias ou capitalistas, que podem oferecer aos chefes recursos externos e, consequentemente, “uma possível adesão fora do parentesco e dele desembaraçada”. Daí, argumenta Wolf, a notória prontidão dos chefes em colaborar com

caçadores de escravos e traficantes de peles da Europa.

Nem a “Europa” nem os “povos sem história” em suas várias versões dos modos pré- capitalistas teriam se desenvolvido inteiramente da maneira pela qual cada um o fez sem os demais. Entretanto, se a relação é bilateral, é também claramente assimétrica. Wolf dispõe de pouca coisa além de nuanças para adicionar à enorme literatura sobre a expansão europeia e seu signi cado para o desenvolvimento do capitalismo. O que não será conhecido da maioria dos leitores, principalmente daqueles formados na história convencional, é sua abordagem das sociedades não europeias e de sua adaptação sob o impacto da penetração capitalista. O levantamento inicial do mundo em 1400 pode ser recomendado com rmeza. Não é apenas uma excelente introdução para o leigo — principalmente por seu senso da geogra a humana — mas uma análise esclarecedora e crítica, com interpretações particularmente originais sobre a Índia, sobre as forças e fraquezas das sociedades pastoris-nômades, a estrutura de castas indianas, Ásia Oriental e Sudeste asiático, além da América pré-colombiana, que é analisada, compreensivelmente, com maiores detalhes.

Grande parte do que Wolf a rma sobre a transformação da sociedade sob o impacto do comércio e conquista europeus será novidade para quem não tiver acompanhado os surpreendentes avanços recentes na etno-história e na história da África e da América indígena. Praticamente tudo o que a rma é estimulante. A total novidade histórica de con gurações culturais aparentemente “primitivas” como as dos índios das planícies (adotadas “no curso de uns poucos anos” por caçadores-coletores pedestres e pastores utilizando cavalos e armas importados da Europa); o efeito do trá co europeu de peles sobre a economia, a política e a cultura dos huronianos, iroqueses e crees; e a diferença dos efeitos entre o tráfico russo de peles na Ásia e na América: isso tudo abrirá perspectivas absolutamente novas para muitos de nós. A especialização de Wolf em América Latina naturalmente lhe é muito útil. Certamente seus colegas antropólogos, em breve, dirão se aceitam ou não suas “historicizações” de alguns dos povos que foram objeto de diversas das mais celebradas monografias na literatura a respeito.

A maior força do livro de Wolf — sua concentração na interação, mesclagem e modi cação mútua — é ao mesmo tempo sua maior fraqueza, já que o livro tende a tomar como dada a natureza do dinamismo que levou o mundo da pré-história até o nal do século XX. É um livro que trata mais de vínculos do que de causas. Ou melhor, o autor repensou mais fundamentalmente os problemas da gênese e desenvolvimento do capitalismo do que os de suas interligações essenciais. Sem dúvida trata-se de uma tarefa mais adequada a historiadores que a antropólogos. Sua explicação do desenvolvimento capitalista é uma contribuição valiosa para um debate — de modo algum con nado aos marxistas e que recentemente retomou grande ímpeto —, seu principal valor consiste em apontar claramente para questões que normalmente não são reconhecidas, tais como por que a força de trabalho do capitalismo se desenvolveu como “mão de obra livre” e não em outro sentido. A contribuição mais interessante de Wolf para o debate reside no ponto mais próximo de sua preocupação principal. É sua insistência nos contínuos “processos mediante os quais as novas classes trabalhadoras são simultaneamente criadas e segmentadas”, já que a força de trabalho é recrutada “de uma ampla variedade de antecedentes sociais e culturais e [inserida] [...] em hierarquias políticas e econômicas variáveis”. Hoje, “em um mundo cada vez mais integrado, testemunhamos o crescimento de diásporas proletárias cada vez mais diversas”. Essa frase,

como nal para um livro muito marcante, constitui uma conclusão de caráter sugestivo e aberto.

Europe and the People without History é obra de um vigoroso intelecto teórico, mas uma obra

informada por um senso vívido das realidades sociais. Por trás da análise de Wolf, de estilo contido mas expressa com um dom notável para a exposição concisa e lúcida, estende-se uma trajetória pessoal e intelectual que levou o autor, das comunidades da classe trabalhadora de Viena e do Norte da Boêmia, devastadas pela Grande Depressão, para os Estados Unidos e as fazendas e camponeses do Terceiro Mundo. Como todos os bons antropólogos, é um “observador participante” — nesse caso, da história do mundo, que é o seu objeto. Esse livro apenas poderia ter sido escrito por um “ lho da terra que treme”, para citar o título de uma das obras de Wolf. É um livro importante, que será amplamente discutido. O ano do centenário da morte de Marx ainda não acabou, mas é de duvidar que alguma outra obra mais original, exempli cando a in uência viva daquele grande pensador, tenha sido publicado em seu curso.