PARTIE 1 : SON ET JEUX VIDÉO
2. La musique de jeux, un élément protéiforme
2.2 Définition du “Sonore” dans un jeu : quand musique et bruitages se
A explicitação heideggeriana dos existenciais, conforme já foi exposto no capítulo anterior, possibilita também a compreensão dos modos específicos de como alguém realiza seu existir, uma vez que eles são ôntico-ontológicos, e, assim, “co- determinam justamente a descrição concreta, por exemplo, de um estado de angústia num determinado homem.” (Heidegger, 2009, p.244). Ao mesmo tempo, o filósofo ressalta que para conhecer modos singulares de existir baseado no seu pensamento é imprescindível que esta aproximação seja iluminada pela sua explicitação do projeto de ser-homem como ser-aí.
Deste modo, a compreensão do existir humano baseada na explicitação do homem como ser-aí considera as múltiplas maneiras como o homem vive e pode viver, ou seja, os vários modos como ele se relaciona consigo mesmo e com os entes que encontra. Por sua vez, o existir humano se apresenta em cada caso como uma totalidade significativa e, assim sendo, ele se mostra numa inter-relação indissociável das dimensões da existência humana expostas, anteriormente, como existenciais.
Vários estudiosos, como Binswanger, Gebsatell, Straus, Kuhn, Van den Berg, Buytendijk, Boss e Condrau34, perceberam no pensamento heideggeriano elementos importantes para o esclarecimento do existir humano sadio e patológico. Entre eles, destacamos o trabalho desenvolvido por Medard Boss, uma vez que ele teve a oportunidade de estudar e discutir diretamente com Heidegger, tanto o seu pensamento filosófico, quanto reflexões sobre a compreensão dos modos de existir sadios e patológicos, assim como a prática psicoterápica.
34 Ellenberger (1977) e Cardinalli (2004 e 2002) apresentam as ideias destes autores, mostrando as
Tendo em vista a descrição dos existenciais heideggerianos, Boss (1979) julga que os mais importantes para a Medicina e a Psicologia são a espacialidade, a temporalidade, o ser para morte, a disposição ou tonalidade afetiva, a corporeidade, o ser-com-o-outro, a abertura e o desdobramento das possibilidades inerentes à liberdade existencial. Destaca ainda que “cada história humana ocorre através do contínuo desvelamento de entes particulares que são enviados a aparecer, a se revelar à luz das relações desveladoras de sentido que constituem a existência humana.” (p. 66)
Nos Seminários de Zollikon, Heidegger reflete junto com os psiquiatras e psicanalistas sobre a importância do esclarecimento da saúde para a compreensão dos diversos modos de estar doente. Ele afirma que a doença em geral pode ser compreendida como um fenômeno de privação, quando considera que, no adoecimento, o ser sadio e o estar bem não estão simplesmente ausentes, estão perturbados. Além disso, o pensador esclarece que o fenômeno de privação é um modo específico de negação, que ocorre “quando negamos algo de forma que não o excluímos simplesmente, mas o retemos justamente no sentido de que algo lhe falta” (p. 79). Neste sentido, o filósofo mostra que o estar doente pode ser entendido como uma forma privativa do existir, quando é preservada a co-pertinência essencial de algo a quem falta algo e não apenas a nega ou a suprime.
Em trabalho anterior assinalamos que Boss inova ao considerar as doenças humanas como modalizações do existir35. Sua noção de doença não prioriza o entendimento das doenças mesmas, mas, sim, aquele ser humano que está doente. Assim, a doença ou o adoecer são pensados como uma maneira de existir que se encontra prejudicada, pois revela restrição da liberdade de alguém em realizar as suas possibilidades de ser. Os modos de ser sadios e patológicos se apresentam gradativamente, isto é, mostram, maior ou menor, liberdade na realização das possibilidades e de um si mesmo independente e responsável com aquilo que se revela em seu existir.
Nesta perspectiva, por priorizar a compreensão das especificidades da maneira como cada um realiza o seu existir, seja mais saudável ou patológica, busca-se o esclarecimento de diversas dimensões da experiência do paciente, que podem ser resumidas em três pontos: 1. Como se apresenta a liberdade de realização, considerando os diversos âmbitos do seu viver; 2. Qual é a especificidade de restrições e em qual (is)
contextos da sua vida estas se apresentam e, finalmente, 3. Como cada pessoa vive essas limitações.
Boss (1979) apresenta um esboço, que ele mesmo considera como uma exploração inicial, de um novo modo de se pensar as diversas patologias, tanto aquelas denominadas como físicas, quanto as psíquicas ou mentais. Neste esboço ele organiza as patologias em quatro grandes grupos, considerando o âmbito de realização do existir que se mostra mais prejudicado: 1. Ser doente caracterizado por uma perturbação prevalente na corporeidade do existir; 2. Ser doente caracterizado por uma perturbação prevalente na espacialidade e na temporalidade de seu ser-no-mundo; 3. Ser doente por uma perturbação prevalente na realização da disposição (tonalidade afetiva) existencial; 3. Ser doente caracterizado por uma perturbação prevalente na realização do ser-aberto e da liberdade. Ao mesmo tempo, lembramos que, como os diferentes âmbitos de realização do existir só se dão em totalidade, quando um âmbito é perturbado em sua realização, os outros também são afetados de alguma maneira.
Percebemos que as proposições de Boss oferecem elementos importantes para o esclarecimento das decorrências da violência urbana, como assalto e sequestro, quando procuramos compreender a experiência e as repercussões da violência na vida de quem as sofreu como uma maneira de existir que foi ou está afetada de algum modo. Tais proposições fornecem possibilidades ao pesquisador de observar quais âmbitos da vida destas pessoas foram mais afetados e, também, esclarecer o sentido e o significado desta experiência para cada pessoa.
Deste modo, o sofrimento e as decorrências da violência urbana são compreendidos no presente trabalho como uma maneira de viver que, segundo a perspectiva daseinsanalítica, está perturbada, revelando restrições na realização de suas atividades cotidianas, uma vez que as vítimas de violência encontram dificuldade na sua atuação no trabalho, assim como em manter as atividades de lazer e os relacionamentos afetivos e sociais.
3.2. A compreensão do fenômeno patológico: Transtorno de Estresse Pós-