• Aucun résultat trouvé

et l’invention de la dispute moderne

1.2.3. La décennie 1520 : naissance de la dispute « moderne » ?

Tal como em Freud (1996), Spitz (1971), Winnicott (2005, 2007) e outros, os estudos sobre o desenvolvimento humano, como as teorias de Vigotsky (2010b) e Piaget (1992), possuem como tese principal, o homem como sujeito ativo de seu desenvolvimento, e que, para este desenvolvimento acontecer é preciso que este sujeito estabeleça interações com o meio sociocultural.

As indagações que se pretendem explorar partem do reconhecimento em relação às teorias de Vigotsky (2010b), de seu discurso sobre a formulação de que o outro ocupa um lugar preponderante na formação do psiquismo humano. A questão básica que norteia esse momento refere-se a não dissociação da formação das funções psíquicas superiores das experiências emocionais que são vividas pelo bebê desde sempre nas suas primitivas relações.

Vigotsky (2010a) realizou trabalhos com pessoas deficientes visuais, escrevendo artigos sobre essa temática. Neles afirma que a posição social atribuída pela sociedade a pessoas cegas desempenhará papel relevante no seu desenvolvimento e revelou que a falta de visão provoca uma profunda reestruturação da personalidade.

Nas últimas décadas, as discussões na área da educação especial encontram inúmeras contribuições nas teorias de Vigotsky (2010a). Estudioso das interações sociais e do desenvolvimento contribuiu com suas pesquisas no campo da educação, quando demonstrou que o desenvolvimento humano se beneficia da aprendizagem. Sua teoria sobre a zona de desenvolvimento proximal fundamenta bem esse ponto de vista. Quando se pensa na aprendizagem como precursora do desenvolvimento, pode-se vislumbrar que cabe, então, ao professor, criar e implantar na sala de aula situações que estimulem o desenvolvimento dos alunos, não esperando somente que funções biológicas ou psicológicas estejam desenvolvidas.

Os estudos de Vigotsky (2010a, p. 33) concluem que o desenvolvimento tem uma forma própria e que este obedece a uma lógica peculiar, que se manifesta desde a mais tenra idade:

[...] desde os primeiros dias do desenvolvimento da criança, suas atividades adquirem um significado próprio num sistema de comportamento social e, sendo dirigidas a objetos definidos são refratadas através do prisma do ambiente da criança. O caminho do objeto até a criança e desta até o objeto passa através de outra pessoa.

Com relação ao deficiente visual, a teoria de Vigotsky (2010a, p. 382) mostra que o comportamento dos cegos é organizado da mesma maneira das pessoas que enxergam, “excetuando-se apenas que os órgãos analisadores ligados ao olho, que lhes faltam, são substituídos no processo de acumulação de experiências por outras vias analisadoras, o mais das vezes táteis e motoras”.

No que se refere à educação de pessoas com cegueira, Vigotsky (2010a, p. 386) diz que: “O princípio fundamental da educação dos cegos é o método da compensação social de sua deficiência. E vemos aqui, como em parte alguma a impotência radical da educação individual e a solução indolor do problema no plano social”. Este segue dando ênfase ao social, podendo por seus escritos, ser tido como um dos primeiros estudiosos a se interessar pela inclusão do aluno com deficiência visual, por perceber que esse aluno precisa de um número maior de interações para que a aprendizagem e o desenvolvimento ocorram. Com suas teorias, ele defendia uma escola que integrasse o máximo possível o aluno com deficiência na sociedade:

A educação (recebida na família, na escola, e na sociedade de um modo geral) cumpre um papel primordial na constituição dos sujeitos. A atitude dos pais e suas práticas de criação e educação são aspectos que interferem no desenvolvimento individual e, consequentemente, influenciam o comportamento da criança na escola (VIGOTSKY, 2010a, p. 87).

Com efeito, muitos professores não sabem como se comportar diante de situações que envolvem alunos com deficiência visual. Profeta (2007, p. 212 e 213) refere que:

Quando se pensa a educação, a escola, a sala inclusiva, não se pode esquecer de pensar o professor para o processo inclusivo. Que tipo de formação deve ter? [...]. Como a criança que não enxerga pode aprender? Como vai acompanhar as aulas? [...] Por essas razões é que a formação do professor para a educação inclusiva precisa ser revista, dando-lhe a oportunidade de ser capacitado para a inclusão [...]. Neste caso, nem mesmo o conhecimento teórico que foi adquirindo ao longo dos anos em sua formação, deixa os professores mais preparados para a realidade. Contudo, esse percurso precisa ser feito, como dizia Fernando Pessoa, o caminho se faz ao caminhar.

Rêgo (2000, p. 56) coloca Vigotsky entre os autores que se preocuparam em estudar a [...] “a enorme importância ao papel da interação social no desenvolvimento do ser humano”. Uma das mais significativas contribuições das teses que formulou está na tentativa de ‘explicar e não apenas pressupor’ como o processo de desenvolvimento é socialmente construído, considerando para tal, a história da espécie e a história do indivíduo.

Vigotsky (2010b) ao formular a lei básica do desenvolvimento das funções psíquicas superiores afirma que: toda função psíquica superior no desenvolvimento da criança ocorre em dois momentos: o primeiro como atividade coletiva, social, como função

interpsíquica e o segundo como atividade individual intrapsíquico, como modo interior do pensamento da criança.

É pertinente, portanto, pensar a partir de Vigotsky que é na relação com o outro que se dá o processo de aprendizagem, no ambiente cultural em que a criança está inserida, impulsionando dessa forma a evolução do desenvolvimento interior ou intrapsíquico do ser humano.

Para Vigotsky (2010a, p. 484):

[...] a aprendizagem não é desenvolvimento, mas, corretamente organizada conduz o desenvolvimento mental da criança, suscita para a vida uma série de processos de desenvolvimento que, fora da aprendizagem, se tornariam inteiramente inviáveis. Assim, a aprendizagem é um momento interiormente indispensável e universal do processo de desenvolvimento de peculiaridades não naturais mas históricas do homem na criança [...].

Em análise ao que a criança é capaz de realizar com a ajuda de um adulto ou companheiro mais experiente, tem-se um indicativo do que ela poderá fazer por conta própria, posteriormente. Esta é chamada por Vigotsky (2010b) de zona de desenvolvimento imediato,6 que demonstra o estado dinâmico do desenvolvimento, considerando não só o que ela já atingiu, mas também aquilo que está em formação. Este conceito influencia o processo de ensino e amplia as possibilidades do aluno, uma vez que é função da escola fazê-lo avançar naquilo que não está desenvolvido.

Deve-se ressaltar, porém que a aprendizagem da criança não começa quando ela vai à escola, alicerçando-se em outras aprendizagens e no desenvolvimento percorrido por esta antes de seu ingresso na escola. Qualquer situação de aprendizagem com a qual a criança se depara na escola, tem sempre uma historia anterior. Como forma de explicar a relação entre aprendizagem e desenvolvimento e quais as especificidades dessa relação na idade escolar, Vigotsky (2010b) propôs o conceito de zona de desenvolvimento imediato. Este conceito vai além do chamado primeiro nível de desenvolvimento da criança - o atual - que corresponde aos ciclos já concluídos do seu desenvolvimento.

Para esse autor, o nível de desenvolvimento real refere-se a tudo aquilo que a criança já tem consolidado em seu desenvolvimento, e que ela é capaz de realizar sozinha sem a interferência de um adulto ou de uma criança mais experiente. A ‘zona de desenvolvimento proximal’ é, pois, um domínio psicológico em constantes transformações, aquilo que a criança é capaz de fazer com a ajuda de alguém hoje, ela conseguirá fazer sozinha amanhã. Optou-se

6

O que Vigotsky chama de Zona de Desenvolvimento Imediato, chamávamos anteriormente, através de outras traduções de ZPD. Este novo termo surgiu a partir da tradução direta do livro russo para o português, de acordo com o tradutor.

por utilizar nesta pesquisa o termo ‘zona de desenvolvimento proximal’ por questões históricas e por ser mais divulgada no meio acadêmico.

Tendo como pressupostos que o companheiro mais experiente influencia o menos experiente, favorecendo a apropriação de conhecimentos que antes não dispunha, e que é na e pela interação que os conhecimentos são historicamente construídos é que o conceito de zona do desenvolvimento proximal faz-se necessário. Segundo Vigotsky (2010b, p. 97 e 98) a zona de desenvolvimento proximal é definida como:

[...] a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração de companheiros mais capazes. A zona de desenvolvimento proximal define aquelas funções que ainda não amadureceram, mas que estão em processo de maturação.

Conforme Vigotsky (2010a, p. 479) um exemplo disto é imaginar que ao estudar: “[...] duas crianças, com idade mental definida de sete anos, isto significa que ambas são capazes de resolver tarefas acessíveis à idade de sete anos. No entanto, ao fazer com que elas avancem no teste, verifica-se uma distância considerável entre elas”. Através de perguntas sugestivas, exemplos e amostras, uma resolve facilmente testes aquém de seu nível de desenvolvimento, a outra só resolve os testes, meio ano além de seu nível.

De acordo com as teorias de Vigotsky (2010b), a instrução formal age na zona de desenvolvimento proximal do aluno e com isso potencializa a aprendizagem. A flexibilidade e possibilidade de transição entre essas zonas estão relacionadas com o conceito de mediação, o que por sua vez, demonstra a importância da interação social entre as pessoas.

Segundo Vigotsky (2010a), o desenvolvimento mental da criança é um processo contínuo de aquisição de controle ativo, onde, desde os primeiros momentos da vida, as atividades da criança adquirem significado próprio no sistema de comportamento social, que é dirigido a objetivos definidos, através do ambiente da criança. O que a criança consegue fazer com a ajuda de outras pessoas poderia ser, mais indicativo de seu desenvolvimento mental do que aquilo que consegue fazer sozinha. Para ele, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, os processos psicológicos específicos do homem, são mediados pelos instrumentos culturais, tal como a linguagem, os sinais e os símbolos.

Ajudar a criança a buscar e organizar estratégias, que compensem a falta de visão, é tarefa que cabe primeiramente à família, pela interação que se espera existir entre as crianças e seus pais e por ser o ponto de partida para a aquisição de conhecimento da criança cega. A criança descobre o mundo e lhe dá significações, inicialmente, através do contato e da linguagem estabelecida com seus pais.

O ponto central da discussão realizada entre esses dois autores foi à possibilidade de aproximação entre as teorias psicanalítica e sócio-histórica, no que concerne ao desenvolvimento humano e a aprendizagem. Disso se depreende que a função do outro que interage e media as relações e ações das crianças, principalmente para aquelas com deficiência visual, se destacam entre os aspectos mais relevantes das obras de Winnicott e Vigotsky.

Estes autores, Winnicott e Vigotsky, convergem ao apontar que as atitudes e comportamentos das pessoas em desenvolvimento devem ser avaliados sob a óptica de uma interdependência entre esta e o meio ambiente, não sendo restrito apenas ao meio físico, mas às relações/interações com as pessoas. Ambos colocam ênfase nas relações com o outro, como algo específico da existência humana.

Documents relatifs