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CHAMP D'ÉTUDE

B. Conséquence juridique: le principe de l'accession

O padrão alimentar de uma população é consequência de fatores socioeconômicos, culturais e políticos. E ao longo dos anos observam-se alterações nesses padrões (MONDINI; MONTEIRO, 1994; MONTEIRO; MONDINI; COSTA, 2000; IBGE, 2004). Assim, avaliar o consumo alimentar da população torna-se cada vez mais necessário e constitui-se informação básica para o mapeamento da situação nutricional de populações, sendo dessa forma, possível identificar os problemas nutricionais, inclusive a anemia, os grupos em risco nutricional e guiar, assim como, avaliar e planejar políticas públicas (IOM, 2006).

Então, avaliar a ingestão de nutrientes, qualitativa e quantitativamente é fundamental para impulsionar mudanças nos hábitos alimentares para, assim, promover a saúde e diminuir os riscos de doenças (MARCHIONI; SLATER; FISBERG, 2004).

Domene (2011, p.41) ressalta que

Conhecer e monitorar práticas alimentares fornece, portanto, informações relevantes para as ações de assistência e intervenção em saúde, para a definição de políticas públicas ou de investimento em produção, ciência e tecnologia, para estudos de mercado e para a qualificação da cadeia produtiva de alimentos; ações articuladas entre esses setores, concebidas a partir do perfil de consumo de alimentos, contribuem para a consolidação da Segurança Alimentar e Nutricional em uma sociedade.

Desta forma, para análise do consumo alimentar dos indivíduos devem-se utilizar métodos de inquéritos alimentares prospectivos, que obtém a informação do momento presente, incluindo registros ou diários alimentares estimados ou pesados; ou métodos retrospectivos em que as informações são obtidas do passado próximo ou distante por meio de Recordatórios de 24 horas (R24h), Questionário de Frequência Alimentar (QFA), e História Alimentar (HA) (HARRISON, 2004; DOMENE, 2011) (Quadro 1). Vale ressaltar que apesar do desenvolvimento de vários métodos para avaliação do consumo alimentar, não existe aquele isento de erros.

Quadro 1 – Principais métodos de inquéritos alimentares

MÉTODO DEFINIÇÃO PONTOS FAVORÁVEIS PONTOS DESFAVORÁVEIS

Registro Alimentar

Inquérito alimentar para registro de informações em formulário específico sobre o consumo alimentar atual de um grupo populacional, discriminados por refeição ou horário

Eliminação do viés de

memória;

▪Maior precisão e acurácia na estimativa de consumo dos alimentos ou do tamanho das porções ingeridas;

▪Menor chance de omissões

Sub-registro ou omissão de

alimentos, em virtude da presença do entrevistador;

▪Dificuldade para estimar as porções;

▪Depende da colaboração e motivação do entrevistado;

▪Registro imediato ao consumo de alimentos;

Demanda boa disponibilidade de

tempo;

▪Requer o uso de instrumentos: balança ou álbuns fotográficos para representar em medidas caseiras os tamanhos das porções;

▪Possui, em geral, elevado custo;

▪Método invasivo

Recordatório de 24 horas (R24h)

Instrumento para coleta de dados sobre a quantificação de todos os alimentos e bebidas consumidos no dia anterior à entrevista

▪Aplica-se a grupos culturalmente diferentes;

▪Preenchimento rápido e fácil;

Não interferência na

ingestão alimentar do indivíduo;

▪Possui baixo custo e boa aceitação

▪Depende da memória e cooperação do entrevistado;

▪Necessita de entrevistador bem treinado;

▪Há interferências da idade, sexo e nível de escolaridade dos entrevistados;

▪Requer uso de álbuns fotográficos, medidas geométricas ou caseiras;

▪Tende a sub ou superestimar o tamanho das porções consumidas;

Influenciado pela variabilidade

intra-individual

Questionário de Frequência Alimentar (QFA)

Questionário elaborado para o registro qualitativo, semi- quantitativo ou quantitativo do consumo alimentar habitual de um grupo populacional

▪Possui baixo custo;

▪Não altera o padrão de consumo;

▪Eficiente para identificar o consumo habitual de alimentos;

▪Baixa variabilidade intrapessoal;

Não necessita de repetições na

coleta dos dados;

▪Menor subnotificação

▪Depende da memória;

▪Desenho e avaliação do questionário trabalhosos, requerendo estudos preliminares e cuidados na elaboração da lista de alimentos;

▪Necessita de validação prévia;

Limita a estimativa do consumo

quantitativo de energia e nutrientes;

A sua aplicação pode ser demorada

História Alimentar (HÁ)

Entrevista para avaliar o consumo habitual atual e passado, e definir os hábitos e as práticas alimentares, em que associa o R24h ou registro alimentar e o QFA

▪Isento de variabilidade intrapessoal;

▪Complementa o R24h e o QFA, obtendo melhor descrição e interpretação dos resultados;

▪Possui custo elevado;

▪Duração longa da entrevista (1-2h);

▪Difícil padronização;

▪Depende da memória

Fontes: Fisberg, Martini e Slater (2005, p.1-31); Domene (2011, p.41-54); Pereira e Sichieri (2007, p.181-200)

Portanto, o uso destes métodos é fundamental em estudos de avaliação de consumo alimentar em populações, como os que serão apresentados a seguir, evidenciando algumas associações relacionadas à ingestão de nutrientes, incluindo o ferro.

A ingestão de micronutrientes apresentou correlação significativa com o consumo de energia, no estudo de Sudo et al. (2006), realizado em adultos de comunidades Hindu, no Nepal. E a análise da densidade dos nutrientes, representada pelo total do nutriente dividido pelo montante de energia na dieta desses indivíduos, mostrou diferenças estatisticamente significantes entre os sexos, especialmente quanto à vitamina B1 e ferro. Sendo possível verificar quanto à densidade de ferro da dieta, que o sexo masculino foi o mais favorecido.

Na pesquisa “l’enquête Individuelle et Nationale sur les Consommations Alimentaires – INCA” realizada na França no ano de 1999, em que foram abordados todos os membros das famílias, foi possível averiguar, em relação à ingestão do ferro dietético, que as mulheres apresentaram ingestão muito inferior das suas recomendações nutricionais, independente da renda familiar, entretanto, os seus cônjuges tiveram ingestão além das suas necessidades, e os seus filhos obtiveram ingestão adequada de ferro (ANDRIEU; CAILLAVET; 2006).

Corroborando com alguns aspectos da pesquisa “INCA”, McIntyre et al. (2003) mostraram em estudo com mães de baixa renda, no Canadá, que as mesmas possuíam dieta de menor qualidade e quantidade do que a de seus filhos. Visto que na falta de alimentação suficiente para todos os membros da família, as mães priorizam a dieta dos seus filhos em detrimento da sua. Entretanto, em países em desenvolvimento, as prevalências de anemia ferropriva em menores de 5 anos são significativamente maiores do que as de suas mães, já, em países desenvolvidos da Europa e do Pacífico Ocidental, por exemplo, as prevalências de anemia se equiparam entre crianças menores de 60 meses e mulheres em idade reprodutiva (MIGLIOLI et al., 2010).

Diante disso, verifica-se que essas pesquisas sugerem que a distribuição intra-familiar de alimentos não atende às diferentes necessidades nutricionais de cada membro da família, ressaltando as desigualdades existentes entre estes, principalmente em prejuízo das mulheres.

Além de que outros estudos também enfatizam que os indivíduos do sexo feminino têm menos chance de atingir à adequada ingestão de nutrientes (JYOTI; FRONGILLO; JONES; 2005; DEY; CHAUDHURI, 2008; HADLEY et al., 2008; NDIKU et al., 2011). A explicação para tal fato se deve a possível discriminação na distribuição intra-familiar de alimentos, decorrentes do contexto sociocultural de discriminação contra as mulheres e modelo patriarcal de família dominante (HADLEY et al., 2008).

Vários estudos confirmam que diante de um mesmo nível de insegurança alimentar, pode- se observar que o sexo feminino é mais suscetível as influências de fatores dietéticos negativos do que o sexo masculino. Sendo assim, as práticas desiguais de distribuição intrafamiliar de alimentos entre os membros de uma família tem sido associada com as discrepantes situações alimentares e nutricionais e no estado de saúde entre populações (GEWA et al., 2009).

Além disso, algumas vezes encontram-se situações antagônicas quanto à ingestão calórica e de ferro em um mesmo indivíduo, já que este poderá alcançar as suas necessidades energéticas, porém não conseguindo atingir o aporte adequado de ferro. Desta maneira, sugere-se que na investigação da ingestão do ferro, a quantidade total de calorias não necessariamente está diretamente relacionada com a quantidade deste mineral na dieta, destacando que a qualidade desta é fundamental para satisfazer as necessidades dos micronutrientes, especialmente do ferro (OLIVEIRA; OSÓRIO; RAPOSO, 2006).

Então, o ferro da dieta pode ser avaliado de acordo com a sua quantidade na composição dos alimentos consumidos, classificando-os em ferro total, ferro heme, ferro não heme e as suas respectivas densidades na dieta (mg de ferro por 1000kcal). Esta densidade é considerada um bom indicador da qualidade da dieta quanto ao ferro, e também um melhor indicador do status de ferro nutricional do que a ingestão total de ferro dietético, tornando-se determinante para o risco de anemia (MONTEIRO; SZARFARC; MONDINI, 2000; HADLER; COLUGNATI; SIGULEM, 2004; OLIVEIRA; OSÓRIO; RAPOSO, 2006).

Desta forma, o estudo apresentado por Oliveira, Osório e Raposo (2006) evidenciou correlação positiva bastante significativa entre as densidades de ferro (total, heme e não heme) e as concentrações de hemoglobina de crianças.

Levando em consideração o que foi abordado, percebe-se a importância de pesquisas que envolvam simultaneamente todos os aspectos mencionados, visando analisar o consumo alimentar de populações e sua contribuição no adoecimento dos indivíduos, enfocando a análise do ferro dietético, a fim de melhor elucidar a associação entre as densidades de ferro na dieta e a anemia ferropriva, com abordagem no contexto familiar.