lu 35 que l’on peut généralement observer chez les locuteurs « ordinaires » d’une
3. Définition des marques mixtes à partir des tests de perception
3.2. Nos résultats
3.2.3. Conclusions et hypothèses
Uma das tarefas de reconhecimento de objectos menos explorada é a decisão se uma figura representa ou não um objecto real (Barbarotto et al., 2002; Humphreys et al., 1988; Lloyd-Jones & Humphreys, 1997a; Magnié et al., 2003). Assume-se que nesta tarefa o sujeito acede a um conhecimento mais estrutural, ou seja o reconhecimento do objecto baseia-se na fase mais inicial de processamento, sem recuperação de outras informações como informação semântica ou fonológica. Sendo esta tarefa mais superficial que as de nomeação e categorização, esperam-se diferenças no modo como a informação visual é extraída do objecto, e especificamente diferenças nos processos top-
down e bottom-up implicados. Por isso, prevê-se que factores que surjam como
preditores do desempenho nesta tarefa difiram, dos factores determinantes das duas tarefas anteriores, favorecendo os mais bottom-up.
No entanto, de salientar que, na análise de regressão que Marques & Raposo (in press) realizaram para estudar os efeitos das dimensões estruturais no desempenho numa tarefa de decisão se objecto (a partir dos dados de Magnie et al., 2003), os resultados para esta tarefa foram semelhantes aos obtidos na tarefa de nomeação. Ou seja, os mesmos factores estruturais (i.e. detalhes internos e variabilidade da representação) emergiram como preditores do desempenho. E, de facto, a ideia de que nesta tarefa apenas se acede a informação estrutural é algo polémica (Hovius, Kellenbach, Gragam, Hodges & Patterson, 2003).
Uma questão fundamental no uso desta tarefa, que pode influenciar o tipo e o nível dos processos envolvidos, relaciona-se com a natureza dos objectos não-reais apresentados. Dois grupos têm sido usados mais frequentemente: objectos quiméricos e não-objectos (ex. Riddoch & Humphreys, 1987b). Os primeiros são objecto criados a partir de partes de objectos reais (ex. cabeça de coelho com corpo de cavalo). Ou seja, são figuras complexas que não violavam os princípios da Gestalt e que pela sua semelhança aos objectos reais tornam a tarefa mais difícil. Em contraste, os não- objectos correspondem a figuras que não apresentam qualquer semelhança a objectos existentes. Os objectos quiméricos, além de tornarem a tarefa mais difícil, não podem ser processados a um nível visual muito básico (elementar), sendo necessário o acesso ao armazém estrutural e às suas descrições para se tomar a decisão. Relatos de pacientes com dificuldades no acesso a conhecimento semântico, mas que preservam um desempenho razoável nesta tarefa de decisão se um objecto é real ou não, sugerem que
esta tarefa não requer um acesso semântico (Hillis & Caramazza, 1995; Riddoch & Humphreys, 1987b; Sheridan & Humphreys, 1993; Stewart, Parkin, & Hunkin, 1992). O padrão contrário, i.e. desempenho deficitário na tarefa de decisão se objecto, acompanhado de conhecimento semântico relativamente preservado, também tem sido descrito (Coltheart, Inglis, Cupples, Michie, Bates, & Budd, 1998; Riddoch & Humphreys, 1987a; Sartori & Job, 1988; Sartori, Job, Miozzo, Zago, & Marchiori, 1993; Turnbull & Laws, 2000). Esta dupla dissociação sugere uma distinção e relativa independência entre os dois sistemas (estrutural e semântico) e legitima a utilização desta tarefa de decisão como um acesso privilegiado ao sistema estrutural.
Método:
Participantes
Participaram nesta experiência 21 alunos (do sexo masculino e feminino) do 1º ano do Curso de Psicologia, da Faculdade de Psicologia, Universidade de Lisboa. Os sujeitos receberam créditos académicos por participarem na experiência. Todos tinham uma visão normal ou corrigida e o português como língua materna. A experiência durou cerca de 30 minutos.
Material
O material utilizado consistia num conjunto de 147 imagens de objectos reais (as mesmas que na tarefa de categorização, excepto o item boneca, devido à sua elevada percentagem de erros) da base de dados de S&V (1980). Estas figuras representavam objectos das seguintes categorias: animais, utensílios de cozinha, ferramentas, brinquedos, objectos manipuláveis, partes do corpo, frutos, vegetais. Além destas imagens foram utilizadas 76 imagens de objecto quiméricos de Barbarotto et al. (2002) (ver anexo IIb) e que eram compostos por duas partes de objectos existentes do conjunto S&V (1980). Os itens foram apresentados visualmente em monitores de computadores através do programa Superlab. Foi utilizada uma caixa de respostas para registar as respostas de cada sujeito.
Plano experimental
Na presente experiência todos os sujeitos viam as mesmas figuras de objectos reais e não-reais (quiméricos), apresentados de forma pseudo-aleatória. Dada a grande diferença no número de estímulos reais e não-reais (147 vs. 76), os objectos quiméricos foram apresentados duas vezes ao longo da experiência. Para evitar efeitos de repetição de estímulos, cada objecto quimérico só era apresentado pela segunda vez depois de todos os outros objectos quiméricos terem sido apresentados.
Procedimento
Cada participante realizou a tarefa numa sala silenciosa, onde se encontrava sozinho com o experimentador. Era dito aos sujeitos que iam ver figuras de objectos reais, existentes, e de objectos não-reais, e que a sua tarefa era decidir o mais rápida e acertadamente possível se o objecto era real ou não. Os participantes tinham de carregar na tecla verde da caixa de respostas para responder sim (com a mão dominante), e na tecla vermelha para responder não (ver anexo IIIc).
Cada ensaio começava com a apresentação de um ponto de fixação (+) no centro do ecrã durante 500ms, seguido da apresentação da imagem do objecto durante 3000 ms, durante os quais os sujeitos tinham de responder. Um ecrã em branco era apresentado durante 2000 ms antes do início de um novo ensaio (ver figura 8).
Antes do início da experiência os participantes realizavam um conjunto de ensaios de treino, composto por 10 itens, 5 dos quais eram objectos reais retirados de S&V (1980) e os outros 5 eram objectos quiméricos retirados de Barbarotto et al. (2002). Nenhuma das figuras apresentadas no treino fazia parte da experiência propriamente dita.
Para cada participante, registaram-se as respostas dadas e os respectivos tempos de resposta.
Figura 8: Ilustração da organização dos ensaios na tarefa de decisão se a figura representa um objecto real ou não, com o ponto de fixação, a imagem e o ecrã em branco.
Análise Estatística:
Aplicou-se um modelo de regressão linear. O mesmo critério de exclusão que nas tarefa anteriores foi utilizado nesta tarefa e excluíram-se os resultados de três participantes. Tal como na tarefa de categorização, foi usada como variável dependente o TR médio para cada item. Como a precisão da resposta foi muito elevada (média da percentagem total de respostas certas foi cerca de 90%) não se procedeu a esta análise. As variáveis independentes foram as quatro dimensões estruturais.
Resultados:
Nesta tarefa foram utilizados dois tipos de estímulos visuais, imagens de objectos reais e imagens de objectos não reais, e o desempenho para cada um dos tipos foi significativamente diferente em termos da média de percentagem de RC (t = -5.61,
p<.05) e em termos de TR (t = 6.04, p<.05, ver figura 9). Os resultados mostram
Figura 9: Comparação da percentagem de respostas certa (à esquerda) e dos tempos de latência (à direita) nos dois tipos de estímulos (imagens de objectos reais e imagens de objectos não reais) da tarefa de decisão se a imagem representava um objecto real ou não.
Nesta tarefa o modelo linear obtido (F(4, 147) = 2.45, p<.05), evidenciou uma componente significativa, i.e. partes do objecto (beta = .19, p<.05 , ver tabela 4). Na análise complementar outras duas componentes surgem como significativas, os detalhes internos (beta =.06, p<.05) e os contornos (beta = -.05, p<.05, ver anexo IVd).
Tabela 4
Regressão linear múltipla com a media dos tempos de reacção como variável dependente e as quatro componentes como variáveis independentes, na tarefa de Decisão se Objecto.
Valores do R2, valor F e os coeficientes das variáveis independentes.
Decisão se Objecto
Tempo de Reacção
(n = 147)
Componente 1 (partes) .19
*
Componente 2 (detalhes internos) .15
Componente 3 (contornos) -.09
Componente 4 (var. representação) -.01
R2 múltiplo .06
Valor F 2.45
*
Discussão:
Em termos teóricos, o contributo das partes dos objectos é fácil de enquadrar e explicar em termos da competição no sistema. Quanto mais partes tiver um objecto maior a probabilidade de outros partilharem estas mesmas partes e assim ficarem activados aquando da apresentação do alvo, o que dificultara a tomada de decisão e por sua vez o desempenho em termos de TR. De repara que o material referente aos objecto não reais era constituído por partes de objectos reais, sendo que isso faz com que as partes tenham um papel especial no processamento, uma vez que para a tarefa ser resolvida as partes têm que ser extraídas e integradas num todo.
Tal como na tarefa de categorização, na presente tarefa o factor variabilidade da representação não teve um peso significativo no desempenho. Ambas as tarefas requerem níveis de processamento mais superficiais do que a tarefa de nomeação (onde este factor surgiu como o mais relevante). Os resultados estão de acordo com a ideia de que a variabilidade da representação parece ser um factor top-down, que afecta preferencialmente tarefas mais complexas e que implicam mais níveis de processamento. No entanto, algo paradoxal é facto de no estudo de Marques e Raposo (in press), relativamente à esta tarefa (com base nos resultados de Magnié et al., 2003) a variabilidade da representação ter surgido como um dos preditores do desempenho, o que poderá ser explicado, em parte, pelo facto de o material usado (nomeadamente os não-objectos) não ser idêntico ao utilizado na nossa experiência.
Ainda quanto às dimensões estruturais que influenciam a tarefa em causa, a análise complementar informa sobre possíveis tendências de outros factores. Por exemplo, os detalhes internos podem também contribuir para a competição nesta tarefa, afectando o reconhecimento. Quanto aos contornos, a relação com o TR é negativa, o que significa que nos objectos com valores altos o desempenho é mais rápido. Esta relação é oposta à que se verificou na tarefa de categorização, onde objectos com valores mais baixos em termos de contornos estavam associados a TRs mais longos. Portanto algo de diferente se passa nesta tarefa comparativamente à da categorização, porque aqui objectos com contornos redondos são mais fáceis de categorizar como sendo um objecto real. Uma razão para isso acontecer pode ser a de que quando se pede para indicar se um objecto é real ou não, o contorno não contribui para a competição entre objectos, mas sim facilita a distinção entre objecto reais e não reais. Para confirmar esta hipótese seria necessário verificar as características em termos de
contornos dos objectos quiméricos, porque se esta hipótese for verdadeira os quiméricos deverão ter contornos mais rectos. Aqui não é fácil o modelo em cascata fornecer uma explicação daí a proposta da de Gerlach (2009) anteriormente referida, poder ser uma alternativa válida.
Apesar de ser relativamente aceite que reconhecer um objecto como sendo familiar (i.e. real) implica uma percepção visual do objecto seguida de uma recuperação da informação armazenada na memória de longo prazo correspondente a esse objecto, o tipo exacto de informação armazenada que é necessário para o reconhecimento não é consensual. Um ponto crucial do debate tem a ver com a natureza dos processos envolvidos no reconhecimento de um objecto, especificamente se é necessário apenas o acesso a informação visual e estrutural ou se adicionalmente têm de ser recrutados conhecimentos conceptuais.
Warrington e James (1991a) defendem que a tarefa de decisão se a imagem se refere a um objecto real ou a um objecto não existente, não é uma medida pura do conhecimento estrutural, mencionando que a decisão pode ser tomada com base em informação semântica se o participante conseguir identificar as diferentes partes dos objectos quiméricos como pertencendo a diferentes objectos reais. Portanto, podemos estar perante um processamento mais profundo do que o pretendido e podemos estar a obter dimensões que são relevantes não apenas para o processamento estrutural/visual, mas também o processamento semântico. Para responder a esta critica, duas alternativas são propostas. A primeira refere-se à natureza da tarefa experimental e a segunda ao tipo de material utilizado.
Warrington e James (1991a) propõem uma tarefa de escolha forçada entre quatro imagens, sendo que uma delas corresponde à silhueta de um objecto real e as outras três a silhuetas de objectos imaginários (mas com uma forma plausível de ser a silhueta de um objecto), e que funcionam como distractores. Neste formato, a decisão não é contaminada por informação de natureza semântica, porque a partir da silhueta não é tão fácil extrair partes de objectos e os distractores não são formados por parte conhecidas, elimando-se assim o problema apontado pelos autores à tarefa de decisão aqui usada e proposta por Riddoch e Humphreys (1987b). Outra tarefa que também poderá ser usada tem por base um paradigma diferente. Trata-se de uma tarefa de reconhecimento (Bonin, Chalard, Méot, & Barry, 2006; Levelt et al., 1991) com duas fases. Numa primeira fase apresenta-se um conjunto de imagens distractoras e numa segunda
apresenta-se um conjunto de estímulos composto pelas imagens apresentadas anteriormente juntamente com imagens novas (que são as de objectos-alvo). Nesta segunda fase os participantes respondem a um teste de reconhecimento, identificando as imagens como novas ou antigas. O que interessa registar nesta tarefa é o TR para responder correctamente às imagens novas (alvos), porque pressupõe-se que corresponde ao tempo que necessário para reconhecer um objecto.
No que se refere ao material utilizado, como foi referido anteriormente, os não- objectos correspondiam a figuras quiméricas, formadas a partir de partes de objectos reais, o que poderá ter suscitado um processamento mais profundo a nível semântico. Alternativamente, será interessante testar a mesma tarefa de decisão com imagens de não-objectos, semelhantes aos usados por Magnié et al. (2003) que não partilham praticamente nenhumas características em comum com os objectos reais. Espera-se assim promover um processamento mais estrutural, uma vez que este tipo de material não requer uma integração semântica de partes de objectos reais.
Portanto, seria de especial interesse verificar se as mesmas dimensões são relevantes nestas tarefas alternativas e com outro material, para se concluir com mais confiança se se tratam de medidas mais puras de reconhecimento e de acesso ao sistema estrutural. E, verificar, especificamente, se as três dimensões (i.e. partes, contornos e detalhes internos) continuam a ser bons preditores do TR, sendo que pelo menos em relação às partes dos objectos, se poderia esclarecer se são de facto importantes para o reconhecimento ou se a sua presença se deve apenas ao tipo de material e/ou tarefa utilizados.