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Pode-se afirmar que, em correspondência à crescente importância das práticas coletivas na esfera produtiva, a estrutura em rede concretiza a utilização das relações sociais para fins econômicos.

Se estas articulações conseguem, de fato, encaminhar projetos viáveis sem criar novas formas de dependência e uso particular de recursos públicos, levando-se em conta o direcionamento econômico, é outra questão que não pode prescindir de análises sobre os conflitos presentes na autogestão.

É preciso, no entanto, atentar para o “envolvimento dos trabalhadores na perspectiva autogestionária, considerando uma cultura de trabalho marcada, de forma hegemônica, pelo assalariamento e pela existência de um patrão responsável pelas questões referentes à gestão”. Segundo Lima, a autonomia “sempre foi entendida pelos trabalhadores como trabalhar por conta própria, ser o patrão de si mesmo, mas fora de uma perspectiva coletiva, de posse e gestão comum dos meios de produção”. Acrescenta ainda como complicador a “percepção de trabalho associado” pelo trabalhador, como algo “confuso e não necessariamente desejado, mesmo considerando situações exitosas” (LIMA, 2007:70).

Para Lima, a necessidade de se inserir na lógica do mercado também é outro fator que influencia negativamente a adesão ou a “compreensão sobre a construção de novas solidariedades”, tornando a “perspectiva de trabalho associado algo pensado como temporário” (LIMA, 2008:70).13

13Lima desenvolveu estudos recentes procurando verificar as dificuldades identificadas na formação de uma cultura

autogestionária entre os trabalhadores. O autor ressalta que a atenção com a questão da gestão coletiva como alternativa para os trabalhadores e não como problema relacionado a algumas experiências de cooperativas de fábricas em situação falimentar só passou a incorporar a cultura sindical a partir do final da década de 1990.

Lidar com a dinâmica de entrada e saída dos participantes e buscar alternativas para esta movimentação exige compreender os interesses que motivam tanto a adesão, como a permanência deles. Necessário, portanto, trazer à discussão as bases sobre as quais estão fundadas as redes. Faz diferença ser uma rede e ser de agroecologia? Que vínculos geram a participação ativa e a permanência das famílias na rede?

No caso exemplar do complexo de cooperativas autogestionárias de Mondragón, na Espanha,14 uma das razões julgadas responsáveis pelo êxito é o casamento entre a orientação social e a de mercado. Estas cooperativas contratam empregados para manter algumas funções de forma mais permanente e concebem uma dinâmica que prevê a movimentação sem ameaça à continuidade das atividades (SANTOS, 2002).

Em estudos sobre cooperativas, Eid (1999)15 detectou comportamentos individualizados, tendência em não assumir participação nas decisões e busca de salários garantidos como resultantes de trabalhadores formados em contextos autoritários e burocráticos, cuja cultura predominante está fundamentada na subordinação. Para ele, amadurecer a cultura de grupo, buscando desenvolver a responsabilização de cada um dos indivíduos para o desenvolvimento do projeto coletivo torna-se estratégico para o sucesso dessas iniciativas autogestionárias.

No caso específico estudado nesta tese, a Rede de Agroecologia Ecovida, a compreensão dos dilemas relacionados à gestão coletiva torna-se um aspecto essencial, se levarmos em conta que a não existência de relação de co-propriedade dos agricultores familiares torna-se bastante complexa.

14 Esta experiência é reconhecida mundialmente como o modelo de economia cooperativa. Um complexo econômico

situado nos arredores da cidade de Mondragón, que começou em 1965 e inclui fábricas, cadeia de supermercados, banco e universidade.

15 Farid Eid desenvolve estudos sobre Cooperativas no interior de São Paulo, na Universidade Federal de São Carlos.

Problematiza o tema, questionando a forma como as cooperativas têm se estruturado no Brasil e mais recentemente incluiu a Economia Solidária em seu campo de pesquisa.

Durante a pesquisa de campo, pôde-se identificar uma importante influência de organizações não-governamentais de base associativista para a mobilização deste tipo de experiência, direcionadas para fins econômicos.

De forma mais geral, pode-se indagar se, no caso do trabalho rural de base familiar, a utilização das redes seria uma forma de institucionalizar como força produtiva a sua base de organização e cultura associativista.

Vale acrescentar que fazem parte da proposta de atuação em redes a ampliação de contatos e a utilização produtiva destas conexões; pode-se afirmar, pois, que a entrada na rede amplia o poder de decisão que o pequeno agricultor, antes sozinho, não tinha. Entretanto, é preciso também indagar que tipos de questões são evidenciadas com a integração destes valores com as finalidades econômicas.

O retorno financeiro obtido com a adesão à produção orgânica não parece ser suficientemente significativo para os agricultores da Rede de Agroecologia Ecovida, mas o quanto ele é norteador da relação que estes mantêm na rede, e inclusive, se é o que define a sua permanência, não é possível afirmar sem a análise detalhada da pesquisa de campo.

Pode-se afirmar, inicialmente, que na Ecovida as questões de gênero são um dos laços, como foi percebido em entrevistas realizadas. Foi possível também observar opiniões distintas, conforme avaliação do coordenador de um dos núcleos da Rede Ecovida. Segundo ele, o que faz as pessoas “permanecerem ativas na rede é a luta de classes, portanto, um laço ideológico”. Esta não é uma opinião unânime, pois um técnico que participa do Grupo de Trabalho (GT) de Sistema Participativo de Garantia (SPG) para certificação do produto orgânico da Rede Ecovida junto ao Governo Federal tem outro ponto de vista, a saber, que os interesses que dinamizam a participação na rede passam mais fortemente pelo aprendizado do uso e manejo do solo, entre outros

aspectos técnicos. Na pesquisa de campo realizada, outros fatores foram evidenciados e são discutidos nos capítulos três e quatro desta tese.

Um dos motivos que parece influenciar o tipo de participação dos agricultores são os princípios agroecológicos que revalorizam práticas tradicionais do modo de produção da agricultura familiar. Segundo a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), quando a produção familiar é realizada com base nos princípios da agroecologia, seus benefícios são potencializados porque os sistemas agroecológicos não são dependentes das indústrias de insumos (WILKINSON, 1996).

Ao lado das questões dos desafios da autogestão coletiva, dos motivos para a adesão ao trabalho em rede, outros temas de teor macrossocial podem influenciar a forma de participação, ou mais ativa e coletiva, ou individualizada e dependente, dos trabalhadores da agricultura familiar no Brasil.