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Chauffage des montures et d´eg´en´erescence modale

6.3 Stockage de tr`es forte puissance moyenne

6.3.2 Chauffage des montures et d´eg´en´erescence modale

Certeau define a prática historiográfica como o conjunto de metodologias empregadas pelo historiador para fazer a coleta e análise das fontes e, posteriormente, para a construção do texto. Para o historiador francês, “O estabelecimento das fontes solicita, também, hoje, um gesto fundador, representando, como ontem, pela combinação de um lugar, de um aparelho e de técnicas” (CERTEAU, 2011, p. 72). Percebe-se, assim, que a prática historiográfica está condicionada tanto à escolha das fontes a serem utilizadas, o que implica a utilização de determinada metodologia, quanto à análise das mesmas. Cabe lembrar, entretanto, que tal condicionamento estará sempre ligado ao lugar social ocupado pelo historiador.

Como observado por Certeau, nesta operação de seleção que é a prática, deve-se prestar atenção, também, ao tratamento dado ao documento pelo historiador. No caso das

Memorias, percebe-se que Furlong acredita que um testemunho direto, escrito pelo próprio Saavedra, conferiria maior veracidade à escrita biográfica, já que, quando da transcrição de passagens da fonte, a visão do biografado sobre o acontecimento se sobreporia no texto do biógrafo. Neste sentido, entendemos que Furlong tenha aceito o pacto autobiográfico, não tendo considerado a possibilidade de que o texto de Saavedra se constituía em uma versão dos fatos. Isto, por certo, não invalida as Memorias como uma fonte para a reconstituição dos acontecimentos da Revolução de Maio, mas, por ser um testemunho pessoal, e que tem o objetivo bastante específico de rebater críticas que foram dirigidas ao personagem, sua utilização exige uma reflexão sobre as implicações da intencionalidade deste documento, o que não se dá nos dois textos que Furlong publica sobre Saavedra, em 1960 e em 1979.

Para Enrique de Gandía, um dos autores dos textos divulgados na edição especial da revista Archivum, que foi dedicada aos cinco anos de falecimento de Furlong, a crítica a esta fonte se deu através da verificação de sua autenticidade, procedimento, aliás, adotado pelo historiador argentino, para quem “la cuestión de los documentos falsos, tanto en general como en particular, lo inquietó no pocas veces” (GANDÍA, 1979, p. 70). A despeito destes cuidados, é importante ressaltar que Furlong não se preocupou em desvendar as motivações que Saavedra teve para escrever o texto, no caso, a defesa de acusações feitas por seus adversários políticos.

Diante desta constatação, consideramos oportuno identificar e discutir quais foram as técnicas que o historiador argentino empregou – e que seguiria adotando – nas várias

88 biografias que escreveu. Recorremos, novamente, ao número de 1979 da revista Archivum, mais precisamente, ao texto intitulado Una especialidad: las biografías, de Ernesto Padilla, para encontrar pistas sobre a prática empregada por Furlong. Em um (longo) trecho de seu artigo, Padilla (1979, p. 74, grifos nossos) nos aponta o seguinte:

Para el menester biográfico, el padre Furlong tenía minucioso método

propio, permitiéndole sin dilapidación de tiempo y material, bosquejar el retrato para después acentuar los rasgos característicos y enfocarlo en el ambiente de donde recibe luces y sombras. [...] En la introducción de la biografía prologada por Hugo Wast, el mismo autor refiere sucintamente el

procedimiento empleado: lectura íntegra y detenida de todos los papeles, extractarlos, sintetizarlos para terminar fichándolos por temas y personas y así 'borronear' – bajo atrayentes y sugestivos epígrafes, del decir de Sisto Terán – los capítulos que en adelante los remodela, los amplía y los pule. A partir deste trecho extraído da revista Archivum, nota-se que as técnicas empregadas por Furlong assemelham-se àquelas que ainda hoje muitos historiadores adotam: a leitura atenta das fontes, a seleção dos trechos mais importantes, organizados na forma de fichas de leitura – as quais, no caso de Furlong, chegavam a oitenta mil – e, a partir destes fragmentos documentais, a organização de um texto que, posteriormente, será publicado. Para Padilla (1979, p. 76, grifos nossos), Furlong tinha a clara noção de que:

En toda esa intensa labor de biógrafo, realizada a la par de otras de mayor envergadura, se le pueden aplicar sus propias expresiones: 'Sinceramente, estoy satisfecho de la forma y del fondo, de lo que digo y de cómo lo digo, y es que no soy yo, sino él (biografiado) el autor de estos volúmenes'.

Para Furlong, o texto biográfico consistia em um relato no qual a palavra do biografado ganhava destaque, a partir do uso, pelo historiador-biógrafo, de transcrições de documentos de sua autoria, imprimindo à narrativa a impressão de que era o personagem quem falava no texto. Consideramos oportuno mencionar que tal percepção e, sobretudo, tal técnica remetem a um dos textos biográficos que Furlong mais admirava, a Life of Johnson (1791), escrita por James Boswell.

Intima emulación le despierta la placentera lectura de la vida de Samuel Johnson por James Boswell realizada, en 1911, en la biblioteca de Woodstock College. La califica ‘un ideal de biografías, ya que no era el

biógrafo sino el biografiado quien más intervenía en su composición’ y, desde entonces, formula la íntima aspiración de escribir la vida de algún

ilustre compatriota en conformidad con esa técnica y con esa táctica.

Vale lembrar que para muitos críticos, a biografia de Samuel Johnson não passa de uma “colcha de retalhos” de diferentes documentos que são editados, remodelados e transcritos, formando, assim, grande parte do texto da obra. Nesta biografia, os parágrafos escritos pelo autor tiveram a finalidade de “costurar” os diversos documentos entre si, dando inteligibilidade ao texto que o autor se propôs a escrever. Mas, se, por um lado, tem-se a impressão de que o biografado se impôs no texto, por outro, as fontes utilizadas, as passagens transcritas, bem como o texto elaborado a partir delas foram escolhas feitas pelo autor, e não pelo biografado. Se compararmos a biografia de Samuel Johnson com a que Furlong escreveu sobre Saavedra, encontramos esta “costura” entre documentos nas páginas 30 e 31, nas quais Furlong, ao dissertar sobre a oposição feita a Liniers em 1809, recorre a passagens das

Memórias:

'Señor Saavedra, deje Vd. Es ésa la voluntad del Pueblo', le dijo uno de los

presentes, pero la respuesta fue tajante: 'Esa es una de las muchas falsedades que se hacen jugar en esta comedia; venga el señor Liniers con nosotros, preséntese al pueblo, y si éste lo rechaza o dice no querer su continuación en el mando, yo y mis compañeros suscribiremos el acta de su destitución', y

tomando a Liniers por el brazo, 'vamos, señor, preséntese V. E. al público y oiga de su boca cuál es su voluntad'.

Salieron ambos a la Plaza y la ovación fue general. La ante y la anti revolución de los realistas había fracasado y la pre revolución de los patriotas era una realidad, y la revolución podía ser otra magnífica realidad. Ni éso fue todo, ya que de inmediato Liniers dispuso, y Saavedra ordenó, a los cuerpos armados, contrarios a los Patricios, que rindiesen las armas. No acataron la primera intimación, pero informados de que en caso de negarse, se usaría de la fuerza, 'arrojaron, escribía después Saavedra, las armas y corrieron por las calles como gamos buscando cada uno el rincón de sus casas en que ocultarse. Así terminó aquel memorable día, agrega

Saavedra: he dicho memorable, porque, en efecto, en él, las Armas de los hijos de Buenos Aires abatieron el orgullo y miras ambiciosas de los europeos, y adquirieron superioridad sobre ellos'.

Estas son expresiones de Saavedra y responden a la verdad histórica más absoluta. (FURLONG, 1979, p. 30-31, grifos nossos).

Note-se que as partes grifadas no trecho acima são, todas elas, palavras de Furlong, e têm o objetivo de dar inteligibilidade ao texto, "costurando" as diferentes citações extraídas por ele das Memorias ([1829] 2009). Nas últimas duas linhas, percebemos que Furlong atribui às palavras de Saavedra o status de verdade, indo além do pacto autobiográfico, não considerando a fonte consultada como a versão do biografado acerca dos fatos. É bastante provável que, se Furlong tivesse optado por cotejar o texto das Memórias com outros relatos da época, sua narrativa sobre os movimentos contra Liniers seria distinta da que a conferência

90 e a obra acabaram divulgando. Entretanto, cabe perguntar: Furlong pretendia chegar à outra versão dos fatos? Seu posicionamento sobre a Revolução de Maio permitiria outra abordagem? Sem anteciparmos uma discussão que será feita mais adiante neste capítulo, pensamos ser importante ter em mente o lugar social ocupado por Furlong e o quanto ele definiu as escolhas feitas pelo historiador jesuíta.

A partir destas considerações, cabe pensar, assim, como Certeau (2011, p. 64-65), qual o papel da interpretação e da técnica no trabalho historiográfico: “a história não começaria senão com a 'nobre palavra' da interpretação. Ela seria, finalmente, uma arte de discorrer que apagaria, pudicamente, vestígios de um trabalho. Na verdade, existe aí uma opção decisiva. O lugar que se dá à técnica coloca a história do lado da literatura ou da ciência”. Enquanto a

interpretação feita por Furlong atribui ao texto de Saavedra - e à versão que o personagem dá aos acontecimentos - o status de verdade, a técnica por ele empregada, caracterizada pela valorização do documento, desprovida de crítica adequada e orientada para sua publicação –, aproxima-se, ao menos em parte, dos procedimentos teórico-metodológicos feitos pelos membros da NEH. Com eles, Furlong compartilha, também, a preocupação com a formação de uma identidade argentina, que teria como base as principais festas pátrias, tais como o sesquicentenário de Maio, o que estará muito presente em sua escrita.

Furlong proclama la escritura de una historia científica, que él entiende, debe apegarse a las fuentes y comparte con sus coetáneos de la Nueva Escuela Histórica la preocupación por la formación de la identidad argentina. También los une la tarea de exhumación, selección y publicación de fuentes que tanto la Nueva Escuela como los jesuitas consideran imprescindibles hacer como condición previa para escribir una nueva versión de la historia. (IMOLESI, 2014, p. 24).

Após termos investido em algumas reflexões sobre a metodologia e as técnicas empregadas por Furlong ao escrever os textos analisados nesta Dissertação, passamos a uma análise mais detida sobre o processo de sua escrita. Para tanto, discutimos algumas de suas passagens que acreditamos nos auxiliam a compreender como o historiador argentino articulou seu lugar social e a prática nestes textos biográficos.

3.4. A ESCRITA E SEUS DESDOBRAMENTOS: UMA VERSÃO SOBRE O PASSADO