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3.2 Oscillateurs laser `a blocage de mode

3.2.2 Champ ´electrique d’une impulsion laser

No momento em que ocorriam as ditaduras no Brasil (1964-1985) e na Argentina (1976-1983), sobrevinham profundas mudanças e disputas ideológicas no mundo. No começo da década de 1960, assistia-se a uma verdadeira escalada do conflito bipolar. A Guerra Fria entre as superpotências e seus respectivos blocos constitui o marco de referência obrigatório para o estudo e a compreensão das relações econômicas e políticas internacionais da época, que também tiveram um forte impacto no Brasil e na Argentina e influenciaram diretamente a moldagem das suas relações políticas, econômicas e sociais atuais.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a economia vive uma fase de expansão e crescimento. Ao final da década de 1970 e início de 1980, essa prosperidade é comovida pela crise do petróleo, que provoca recessão e inflação nos países do Primeiro Mundo. Também nos anos 70, desenvolvem-se novos métodos e técnicas na produção. O processo de automação, robotização e terceirização aumentam a produtividade e reduz a necessidade de mão-de-obra. A informática, a biotecnologia e a química fina desenvolvem novas matérias-primas artificiais e novas tecnologias. Mas a contínua incorporação dessa tecnologia de ponta no processo produtivo exige investimentos pesados. E os equipamentos ficam obsoletos rapidamente.

Apesar de se constituir em uma grande contribuição definir e isolar esses contextos nacionais torna-se igualmente válido tentar estabelecer um panorama dos mecanismos de legitimação internos nesses países. Conhecer as mudanças conjunturais e estruturais, a forma de inserção do Brasil e da Argentina e entender quais restrições e impedimentos essas estruturas e conjunturas teriam oferecido à atuação desses países revelam-se instrumentos de grande valia no momento em que se pretende buscar aproximações e distanciamentos – e também as contradições existentes – entre esses dois países no período das ditaduras.

Após o golpe de 1964, no Brasil, “o milagre brasileiro” apoiou-se num tipo de crescimento econômico que priorizava a desigualdade econômica e social, baseado

em um Estado autoritário, que manteve a política de vinculação entre o capital urbano e a propriedade rural da terra. Os movimentos dos trabalhadores foram reprimidos, e as ansiedades pela reforma e redistribuição de terras foram abandonadas, apesar de se manterem no discurso governamental (PEREIRA, 2010, p.20).

O Brasil e a Argentina, desde a década de 30, vinham de uma política desenvolvimentista em que haviam sido promovidos grandes avanços na industrialização, que proporcionaram altas taxas de crescimento.

Ambos os países tiveram alternâncias de períodos de crescimento e de crise, expansionistas e estabilizadoras, com um importante papel desempenhado pelo Estado. Durante todo o “período de 1930-1970, a economia argentina se desenvolveu marcada pela assim conhecida sequência stop and go que, desde o início foi mais acentuada que no caso brasileiro” (RISTOFF, 2011, p.36).

Apesar de os dois países terem sido apresentados a partir do mesmo ponto de partida, o cooperativismo, cabe destacar que estes tinham contextos bem específicos quanto à política econômica, e, apesar de se aproximarem em muitos aspectos, principalmente com relação à instabilidade política, à descontinuidade dos governos e às rupturas institucionais (mais na Argentina que no Brasil), esses países viriam a passar pelos governos civis-militares com planos diferenciados, principalmente com relação às estratégias econômicas. Ristoff (2011, p. 38) as descreve:

A estratégia econômica da Argentina sob a ditadura militar iniciada em 1976 foi no sentido de adoção de planos econômicos monetaristas pactuados com o FMI, abandonando a tentativa de avançar na industrialização substitutiva. O setor industrial foi substituído pelo setor financeiro obedecendo a uma estratégia que alterava substancialmente as políticas de inserção internacional vigentes no país até então.

Nesse sentido, a Argentina, sob o governo militar, interrompeu a dinâmica de industrialização, de substituição de importações, e passou por um processo de desindustrialização que promoveu o esvaziamento do Estado, o que afetou profundamente os pequenos proprietários que não se enquadraram no nível de produtividade exigido.

Já o Brasil avançou com o processo de industrialização utilizando também os recursos do sistema financeiro internacional. Ristoff (2011, p. 38) aponta:

[...] subiu na hierarquia de Estados no sistema internacional num momento de crise. Durante aqueles anos, o país transformou-se em um grande canteiro de obras e foram criadas centenas de empresas estatais. Este período de intenso desenvolvimento, de acúmulo de forças, de reivindicação de maiores espaços de poder nas relações internacionais acabou sendo uma das diferenças fundamentais no processo de evolução econômica brasileira em relação à Argentina nas décadas seguintes.

Os governos civis-militares tinham suas bases ideológicas contextualizadas pelo momento histórico pelo qual passava o mundo: nas relações internacionais, associada à guerra fria, instaurava-se a bipolarização entre Estados Unidos e União Soviética. No entanto, a forma como iriam proceder esses países no que dizia respeito às políticas econômicas seria distinta, porém utilizando os mesmos recursos e, quando conveniente, os mesmos instrumentos, como no caso da repressão política (PEREIRA, 2010).

Os governos civis-militares partem de análises anteriores sobre a estrutura do setor agrário, realizadas pela CEPAL, que afirmavam que, para ocorrer o desenvolvimento na América Latina, era necessária uma redistribuição da renda, para aumentar o consumo e desenvolver o campo, de modo a gerar uma maior oferta de alimentos e produtos agrícolas, baixando seus preços e tornando-os mais acessíveis. Dessa forma, para que isso ocorresse, eram necessárias reformas, e a principal seria a reforma agrária (DINIZ, 2011).

No entanto, nem o Brasil e nem a Argentina realizaram a Reforma Agrária. No Brasil, ela foi sendo substituída por uma política agrária, de colonização e ocupação de espaços vazios, vinculada à ideologia de segurança nacional, “expurgando a oposição, ‘controlando’ sindicatos, os movimentos sociais e o próprio Congresso Nacional” (FALCÃO, 2010, p. 52).

Na Argentina, até meados dos anos 1980, as cooperativas agrárias representavam 31,5% do total de cooperativas; no entanto, uma década mais tarde, representavam 17,3% e atualmente representam 9,1%. Esses dados demonstram o impacto que as políticas iniciadas na última ditadura militar no país tiveram na reestruturação e destruição do aparato industrial argentino, cujo efeito mais evidente é o encerramento das atividades de diversas entidades (ARZADUM, 2011).

A legalidade autoritária deixou heranças em ambos os países, as quais, por diversas vezes, vêm sendo negligenciadas nos estudos. Pereira (2010, p. 292) chama a atenção dos pesquisadores da história comparada dos regimes autoritários e aponta que:

[...] muitas vezes se deixam enredar em tipologias de regimes e deixam de realizar um exame mais minucioso sobre os objetos, relegando o estudo às organizações estatais e ao judiciário, ignorando não apenas as relações existentes entre as corporações, mas também como mudam ao longo do tempo.

Assim, tenta-se demonstrar que as transições para a democracia carregam, em algum aspecto, práticas ou mentalidades autoritárias que eram vigentes durante o período ou, ainda, deixam como legado instituições que se formaram na ocasião, bem como os reflexos das políticas econômicas.

Para avançar na observação das cooperativas e suas respectivas particularidades, deve-se apontar em que âmbito de comparação estão inseridas as políticas estatais.

Sobre essas diferenças de contexto, pode-se citar Lattuada e Renold (2004), que falam sobre a extensão média do que seria a propriedade de pequenos e médios produtores na Argentina, que é de 100 hectares na região em que está inserida a cooperativa de Tamberos Limitada de Sunchales. No entanto, como se pode observar nos dados coletados e nas declarações de bens dos conselhos da Cooperativa Piá, a extensão média da propriedade é de 15 a 20 hectares na região em que está inserida Nova Petrópolis.

Além da questão do tamanho das propriedades, comparações com relação a dados estatísticos são importantes para ambientarmos nossa pesquisa, visto que a Cooperativa Piá se localiza em Nova Petrópolis, cidade que não faz parte da base média de extensão territorial da região sul, mas que, no entanto, faz parte da região que concentra as maiores56 e maior quantidade de empresas cooperativas.

A região sul do Brasil, apesar de não ser o local com maior concentração de empresas cooperativas, é a que tem o número mais expressivo em quantidade de associados.

Portanto, trazer a caracterização regional a ser considerada é importante para perceber como o investimento com vistas à rentabilidade na propriedade em Sunchales é muito maior que na propriedade em Nova Petrópolis. Ao mesmo tempo, o pequeno produtor em Nova Petrópolis gasta mais em insumos e tem de diversificar muito mais sua produção.

56 Estas cooperativas “con complejas instalaciones para el almacenaje de granos y su transformación industrial y con servicios integrados de venta de insumos y de bienes de consumo, además de servicios de asistencia técnica” (SCHNEIDER, 1987, p.159).

Outro detalhe relativo às duas regiões concerne ao relevo, que se caracteriza como íngreme, na serra gaúcha, e que, no entanto, na pampa úmida, na Argentina, é extremamente propício para a criação de gado, tanto para o setor lácteo quanto de corte. Cabe aqui um comentário realizado pelo Sr. Vergílio Perius sobre as diferenças das duas localidades:

Para o leite. Os produtores todos eram pequenos na época que fui, faz 40 anos. Eles eram pequenos, né. Embora o produtor já tivesse 70 vacas; hoje esses que tinham 70, hoje têm 700 vacas. Na verdade, desenvolveu porque tem clima bom, tem uma infraestrutura comercial boa, a SanCor sempre industrializou, fez parceria com outras empresas privadas, que industrializavam. Ela incorporou muito além da comunidade. Esses municípios onde ela se instalou, né? Não só Sunchales, mas Rafaela, por exemplo. Ao redor, são municípios muito ricos em agricultura. E o desenvolvimento do leite gerou sempre muita renda. Então ela é um espelho de um esforço muito coletivo, igual, semelhante ao nosso. Com diferenças. Morro Reuter, Dois Irmãos, Nova Petrópolis, só têm morro. Tens 10 hectares, tem dois que tu podes aproveitar. Em Sunchales, tu tens 10, tu aproveitas 11. Essa é a diferença. Tem uma riqueza de solo inestimável! (Vergílio Perius, presidente da Ocergs, e ex-funcionário do Incra, 2013).

Assim, a propriedade agrícola é mais extensa e rentável na região de Sunchales, e, apesar de o movimento cooperativo agropecuário preservar características do início do seu surgimento, integrado principalmente por pequenos e médios produtores, tem sua produção voltada às exportações, ainda que caracterizada pelo trabalho familiar e com preponderância “pampeana” (LATTUADA e RENOLD, 2004, p.47).

Portanto, salienta-se que o pequeno proprietário de Nova Petrópolis é diferente do pequeno proprietário em Sunchales, principalmente em relação à variedade de produtos, extensão e produtividade da terra.

Portanto, ao demonstrar de que forma surgiram as cooperativas, também é considerado o contexto regional desse surgimento, pois, mesmo tendo o cooperativismo contribuído, desde seu surgimento no final do século XIX, para o desenvolvimento socioeconômico de várias regiões, em Nova Petrópolis e Sunchales, será distinta a forma como este ocorreu.