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PREMIER COMMIS DE LA GUERRE

B. Des charges importantes

Há uma divergência quanto ao significado da palavra erê; por exemplo, para o babalorixá Toninho de Oxum, ela está ligada ao brincar, advém de xirê e se relaciona com brincadeira, indica criança, meninos, etc. Segundo Verger (1999, p.84): “No Brasil certos pais-de-santo afirmam que erê é uma contração da palavra asiwere, que em yorubá significa “louco”. Esse mesmo estado é classificado pelos nagô da África como tinuerde (que chegou nas bagagens) evidenciando muito bem a posição de adjunto, daquele que vem depois”.

Assim, não há um consenso quanto ao estado de erê e isso reflete-se na dificuldade adultocêntrica de lidar com o universo das infâncias, pois relacionar- se com as crianças, auxiliar os adultos em transe do orixá, acolher os visitantes tudo é visto com naturalidade, porém o estado de erê é visto como o mais delicado pelos filhos de santo, porque há temor quanto as pessoas que em transe possam se machucar. Nesse estado, a pessoa faz aquilo que tem vontade e não necessariamente aquilo que lhe é solicitado.

No estado de erê temos um corpo adulto em um transe infantil; diferentemente das relações que corpos adultos estabelecem com as crianças, relação essa hierárquica, em que adultos colocam objetos fora do alcance de crianças, não olham nos olhos com posturas horizontais e sim verticalizadamente, e, por vezes, o tamanho do adulto frente a crianças pode intimidar. O estado de erê em um corpo adulto confronta outros corpos adultos, porém em uma personalidade infantil.

O estado de erê leva o iniciado/a a vivenciar comportamentos diferentes dos usuais, pois ao entrar no referido estado o corpo modifica a relação com o ambiente, então sentam-se no chão, arriscam-se a fazer a cama de pula-pula modificam a finalidade dos objetos dando a estes outras funções sociais, tecidos viram brinquedos, alimentar-se passa a ser o objetivo primeiro e desafiam a autoridade maior do terreiro o babalorixá passa a ser simplesmente o pai careca. É como se corpos adultos passassem a experimentar o seu entorno e estivem olhando para objetos tão corriqueiros pela primeira vez.

Acerca do significado de loucura, no contexto do Candomblé, tem-se uma ideia oriunda do estado de loucura patológica, o qual se assemelha ao estado

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de alter-consciência ou hetero-consciência que acomete o indivíduo em transe. Todavia, há que se compreender que, no seio do egbé, a comunidade de santo, o termo se ressemantizou, ora perdendo traços de significação (subtração da ideia de “patologia”, “insanidade”, transtorno, etc., todos de caráter disfórico), ora acrescendo traços de significação (adição da ideia de “espiritualidade”, “pueril”, “lúdico”, etc., todos de caráter eufórico). Assim, o estado de erê representa a “loucura”, entendida como a necessária perturbação da ordem estabelecida, adultocêntrica, a objeção necessária à naturalização dos papéis sociais e a prescrição do seu status, a subversão de modelos rígidos para a restauração de um estado e uma disposição social incentivadora de uma circunstância de convívio entre os seres do Orum e do Ayê, entre adultos e crianças, entre os estados de consciência e inconsciência, palco da manutenção dos saberes ancestres, constituído como um fórum em que, num aparente caos, são repensados e reafirmados os laços e os contratos com o sagrado e o secular.

O estado de erê representa o próximo elo que, permanentemente, precisa se renovar em favor da perpetuação da tradição, em favor de um presente disposto a ser a base do porvir, e em favor de um futuro que necessita, de fato, vir a ser, sob a pena de uma inexorável extinção. Em poucas palavras, erê o meristema do tecido ideológico do Candomblé, é o último ponto do pé de okotô, condição do crescimento incessante e espiral da concha de caracol de Exu, cuja expansão se inicia em Olorun e não termina jamais, pois a graça de Oxum, a mãe do ovo, o novo sempre vem e virá, nomeando o amanhã: Pilãozinho, Florzinha, Mel, Raio de Sol… Este último, talvez, o primeiro de cada manhã.

Os orixás não verbalizam, mas se comunicam por meio de diferentes materialidades semióticas. Uma delas é o erê, a boca do orixá. Nesse aspecto, erê chama para si o papel de canal de comunicação entre o mundo tangível e o mundo espiritual.

A música Erê, composta por Bernardo Vilhena, Da Gama e Toni Garrido, interpretada pela banda Cidade Negra, orienta para como observar este estado das pessoas, pois mesmo dentro do candomblé tal experiência é marcada por inquietações e dificuldades de definições por parte dos adultos.

138 Pra entender o erê

Tem que tá moleque Uh! Erê, êê

Tem que conquistar alguém Que a consciência leve Há semanas em que tudo vem Há semanas que é seca pura Há selvagens que são do bem A sequência do filme muda Milhões de anos-luz podem durar O que alguns segundos na vida Podem representar

O erê é a criança Sincera convicção

Fazendo a vida como o sol nos traz Você sabe

Que o sentimento não trai Um bom sentimento não trai Você sabe

Que o sentimento não trai Um bom sentimento não trai Pare e pense no que já se viu Pense e sinta o que já se fez O mundo visto de uma janela Pelos olhos de uma criança Milhões de anos-luz podem curar O que alguns segundos na vida Podem representar

O erê é a criança Sincera convicção

Fazendo a vida como o sol nos traz Você sabe

Que o sentimento não trai (não) Um bom sentimento não trai

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Conforme indica a música, parar, pensar e sentir é a única forma de tentar compreender a infância como um estado; olhar para o mundo com os olhos de uma criança exige não construir as relações de forma adultocêntrica. A prioridade de Pilãzinho era o seu pedaço do bolo, quanto mais os adultos diziam para que ele esperasse, pois o bolo não havia sido cortado, mais ele buscava recursos para se distrair e experimentar o mundo a sua volta, lançando-se com o seu corpo em todas as suas experiências.

As relações travadas com uma pessoa em estado de erê já não são relações de poder, mas sim de conquistas, de negociações e de tendências e persuasões; são relações de trocas, talvez o significado de loucura dirija-se à forma adulta e a construção de relações de poder que aprendemos a estabelecer, pois a pessoa em estado de erê torna os demais a sua volta inquietos e inseguros. No estado de erê dizem o que bem entendem, não fazem flexibilização das palavras, vivem com os seus corpos os ambientes e não limitam seus movimentos.

A “loucura” do estado de erê interroga a pseudo sanidade adulta que ensina a não dizer o que se pensar, que exige fingir acerca das suas vontades e desejos, que constrói corpos limitados no ambiente a sua volta, que não se movimenta e que, sobretudo, desconhece as façanhas de seus próprios corpos.