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A pesquisa por nós desenvolvida se dedica a descrever e a analisar a formação linguística situada na área de Ciências e Tecnologia por compreendermos que existe um movimento em universidades brasileiras e estrangeiras no sentido de observar que o bom desempenho nas práticas de leitura e escrita não deve ser visto como exclusividade dos profissionais das áreas de ciências humanas e/ou sociais.

De fato, por estarmos inseridos em uma sociedade movida pela escrita, a língua(gem) está presente em todas as áreas de conhecimento. Logo, as universidades precisam mesmo repensar seus cursos de formação inserindo neles componentes curriculares cujo foco seja o desenvolvimento de competências de leitores e escreventes.

Para empreender essa pesquisa, começamos por conhecer os graduandos do BCT e suas necessidades de leitura e escrita nas esferas sociais de que fazem parte. Com isso, almejávamos relacionar os conhecimentos linguísticos e discursivos discutidos em sala de aula com as ações desses sujeitos em formação em outras esferas de atividade e até mesmo com uma prospecção relacionada à atuação desses futuros profissionais no mercado de trabalho.

Essa forma de pensar o desenvolvimento da pesquisa, considerando a realidade dos colaboradores e as especificidades das situações comunicativas que os envolvem e que podem interessar à pesquisa cujo foco é a língua(gem), situa este trabalho no campo da Linguística Aplicada (LA).

Ao analisarmos o percurso seguido por essa área de conhecimento, vemos que ela já passou por vários redirecionamentos, a partir das necessidades que foram surgindo nos estudos de/sobre língua(gem).

O primeiro curso independente de LA foi promovido pela Universidade de Michigan, em 1946, e se voltava para as pesquisas sobre o ensino-aprendizagem de línguas estrangeiras. Possivelmente por isso, ainda há, no senso comum, quem afirme que a LA nasceu como uma aplicação da linguística. Todavia, a LA, desde o início, se ocupava de observações do uso real da linguagem em oposição à língua idealizada (MENEZES et al. 2009).

Essa assertiva tem por base a definição de Brumfit (1995) de que a LA investiga empírica e teoricamente os problemas do mundo real nos quais a linguagem aparece como a questão central. Nesse sentido, assuntos relacionados à leitura e à escrita podem despertar o interesse de pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, uma vez que todas elas são perpassadas pela língua; porém, na LA, há três interesses específicos, segundo Martin Bygate (2004 apud ALMEIDA FILHO, 2008): “[...] (1) o de trabalhar a partir de fenômenos aplicados de superfície, (2) o de relacionar as especificidades dos praticantes da área às generalizações necessárias à compreensão do grande público e (3) o de encontrar respostas aos problemas do mundo real” (p. 2).

A explicitação desses três interesses específicos da LA já sinaliza tratar-se de uma ciência independente com objetos de pesquisa próprios e metodologia bem delimitada. Isso parece ser suficiente para definir diferenças fundantes entre a LA e a Linguística, por exemplo.

Historicamente, na década de 70, o trabalho de Widdowson salienta duas características da LA: “[...] uma restrição da LA a contextos educacionais e a necessidade de uma teoria linguística para a LA que não seja dependente de uma teoria linguística.” (MOITA LOPES, 2009, p. 15). A partir da contribuição de Widdowson, percebe-se que conhecimentos advindos de outras áreas podem contribuir para a LA, que passa a se formular como área mediadora e/ou transdisciplinar. Justifica essa atitude, a compreensão de que “[...] nenhuma área do conhecimento pode dar conta da teorização necessária para compreender os processos envolvidos nas ações de ensinar/aprender línguas em sala de aula devido a sua complexidade.” (MOITA LOPES, 2009, p. 16).

Por esse caráter flexível e transdisciplinar, a LA tem recebido nomes que demonstram o quão longe de ser engessada essa área está. Para Pennycook (2006 apud MOITA LOPES, 2009), ela é “antidisciplinar” ou “transgressiva”; Fabrício (2006 apud MOITA LOPES, 2009), por sua vez, denominou a LA de “desaprendizagem”. Para Moita Lopes (2009, p. 19), a LA é

[...] indisciplinar tanto no sentido de que reconhece a necessidade de não se constituir como disciplina, mas como uma área mestiça e nômade, e principalmente porque deseja ousar pensar de forma diferente, para além de paradigmas consagrados, que se mostram inúteis e que precisam ser desaprendidos (FABRÍCIO, 2006) para compreender o mundo atual.

A partir da década de 90, a LA passa por um novo redirecionamento e as investigações deixam de ser restritas ao contexto educacional, passando a integrar também as pesquisas sobre outros contextos, a exemplo de hospitalares, midiáticos, empresariais (MOITA LOPES, 2009).

Como bem afirma Celani (2000, p. 19-20), “[...] a linguagem permeia todos os setores de nossa vida social, política, educacional e econômica, uma vez que é construída pelo contexto social e desempenha o papel instrumental na construção dos contextos sociais nos quais vivemos [...]”. De fato, não é preciso ser estudioso da área para ver que a língua(gem) faz parte do cotidiano, nas mais variadas situações de uso sejam mais formais ou menos. Perceber que “[...] é na linguagem que se constroem as diferenças constituintes da identidade humana.” (BOHN, 2005, p. 13) nos faz considerar todos os contextos em que ela acontece.

Compreender isso torna evidente a inevitável relação entre as atividades sociais e as demandas de leitura e escrita, por exemplo, a que cada cidadão está exposto. É por essa razão que, em nossa investigação sobre formação linguística situada, vimos que, para atender aos princípios da LA, seria necessário, inicialmente, buscar respostas para algumas questões que se nos apresentavam: formação linguística “situada” para quem, para que, como, onde e por quê?

Justifica essa busca o fato de a LA não ter por objetivo descrever os objetos estudados apenas, mas problematizá-los, a fim de apresentar possibilidades de mudança. Nesse sentido, o compromisso em apresentar uma resposta à sociedade se faz fortemente presente nas pesquisas dessa área.

Essa característica da LA se coaduna bem com os construtos teóricos adotados por nós nesta dissertação, haja vista que todos eles se preocupam com a realização de uma pesquisa responsiva. Essa mesma linha metodológica é seguida pela etnografia crítica, que será discutida no item a seguir.