Etude bibliographique
Equation 3. Calcul de la concentration d'un analyte à partir de sa droite de calibration
O texto pós-colonial é para nós um exemplo específico do texto literário e criativo e que responde, de forma objetiva, às interrogações sobre o conceito de criatividade.
O texto pós-colonial apresenta a sua especificidade, como veremos com o exemplo da análise da língua de Mia Couto. No entanto, um texto literário caracteriza- se pela transformação, pelo estilhaçar das fronteiras e pela elaboração de um processo de criação próprio. E cada texto literário é um texto único, dotado de um processo criativo único que resulta da intervenção do autor-artista. Pensamos que é esta criatividade que está na origem da caracterização da língua literária, por Proust (1971: 297-298), como uma espécie de língua estrangeira, uma língua original.
Les beaux livres sont écrits dans une sorte de langue étrangère. Sous chaque mot, chacun de nous met son sens ou du moins son image, qui est souvent un contresens. Mais dans les beaux livres, tous les contresens qu’on fait sont beaux. Kourouma (1997: 137), escritor de língua francesa da Costa do Marfim, define o texto literário que emerge das colonizações do seguinte modo:
L’objectif recherché par le créateur dans la tradition négro-africaine est de favoriser la participation par l’émotion. Il y parvient en usant du rythme, de l’image et du symbole comme procédés littéraires. L’ex-colonisé crée dans des paroles qui ont des caractéristiques que je viens de décrire, des œuvres (…). Il entreprend de traduire – oui c’est souvent par une véritable traduction qu’il passe l’œuvre dans la langue écrite. Cette langue de l’ex-colonisateur apparaît pour lui littéraire. Il se sent à l’étroit. Il lui manque le lexique, la grammaticalisation, les nuances et même les procédés littéraires pour lesquels l’œuvre avait été préparée.
Parte-se da hipótese de que o texto pós-colonial se caracteriza por uma herança oral visível, por exemplo, nos contos, nas epopeias, nas onomatopeias, nos provérbios e na fraseologia em geral. O texto tem características gerais, oriundas do contexto de produção, e da relação que se estabelece com as línguas (línguas dominantes e línguas dominadas) no contexto da colonização, ou, no período que nos interessa, da pós- colonização.
A escolha da língua do colonizador, como acontece em Moçambique e Angola, determina o estabelecimento de um diálogo entre as línguas autóctones e a língua do poder, e a criação de vias de contacto seguras entre as culturas (escrita e oral e todas as
77 situações de interculturalidade). O diálogo permite observar a passagem, ou a “relexificação”83
da língua do poder.
Que diálogo se estabelece entre a oralidade do texto, as línguas de África e as línguas europeias?
Que diálogo se estabelece entre a língua materna e o universo oral/comunicativo em que o autor está inserido?
Um espaço de bilinguismo participa na construção de uma língua híbrida e a língua do colonizador, o português neste caso, participa do elemento comum entre os grupos, a sua apropriação comunicativa e literária e a abertura das fronteiras estritamente linguísticas, assim como o esbatimento dos limites.
Qualquer obra, na sua língua de origem, e as obras pós-coloniais por excelência, não constituem “la simple dérivation d’un original supposé absolu” (Godard 2001: 51), mas a tradução “est déjà présente dans l’œuvre qui est alors un véritable tissu de traductions” (Godard 2001: 51). Cada obra resulta num processo de heteroglossia84
. A singularidade criativa da escrita pós-colonial só poderá levar a uma escrita singular em tradução, através da revitalização e reconstrução do português. A noção de singularidade tomámo-la a Frota (2000: 194), embora associando a palavra “singularidade” à noção de “particularidade consciente” e reforçando a “diversidade linguístico-cultural” e a importância da relação subjetiva de quem escreve:
83
O termo de “relexification” é retirado de Zabus (2007, 2ª edição). A autora propõe as seguintes definições: “As we shall see, this concept can be expanded to refer to semantic and syntax, as well. I shall thus redefine relexification as the maker of a new register of communication out of an alien lexicon” (102). Se a definição acima transcrita é aparentemente simples, logo a seguir o termo torna-se mais complexo: “Relexification is thus tied to the notions of “approximation” and “transparence”, “paraphrase”, “translation” (even “psychic”), “transliteration”, “transference” and “transmutation” to make matters worse, there is some disagreement about the process of ideation behind relexification” (104). Optámos por seguir, uma definição mais abrangente, elaborada por Thomason (2001: 90).
“The terms refers replacement of most or all of a language’s vocabulary by the vocabulary of some other language. The only linguistic difference between ordinary lexical borrowing and relexification is a matter of degree: if, gradually and over a very long period of time, so many words are borrowed from a particular source language that little or none of the receiving language’s native vocabulary remains, ordinary lexical borrowing can be said to have turned to relexification. The trouble is there don’t seem to be any such situations anywhere in the world.”
84Cf. o conceito de “Hetereglossia” em Horn (2013) “Em “Dialogic Imagination” (1983: 293), Bakhtin
descreve a heteroglossia ou o próprio conceito de voz como a interação de múltiplas perspetivas individuais e sociais, representando uma estratificação e aleatoriedade da linguagem; mostrando-nos o quanto não somos autores das palavras que proferimos. O filósofo russo diz que até mesmo a forma pela qual nos expressamos vem imbuída de contextos, estilos e intenções distintas, marcada pelo meio e tempo em que vivemos, nossa profissão, nível social, idade e tudo mais que nos cerca. Entretanto, apesar de essa natureza dialógica ser conceito central da obra bakhtiniana, segundo Brait (1994:12) permanece ainda em aberto devido às diferentes tentativas de se compreender o seu funcionamento.”
78
A sua delimitação [da singularidade] conceitual é feita a partir da noção de erro formulada por Freud, a qual ele subdivide em erro por ignorância e erro por lapso. (...). (…) ainda visando definir o conceito de singularidade (…), me valho das noções binariedade e não-binariedade propostas por (…) Anthony Pym. (…). Através da noção de singularidade, fica delineada uma modalidade de evento na escrita tradutória para além daquelas que contam com os selos de certo e do errado. (…) do ponto de vista da sua produção, ela se realiza através de formas linguísticas sobredeterminadas na diversidade linguístico-cultural, que é ao mesmo tempo condicionante e efeito da história subjetiva daquele que (se) escreve.
E autora acrescenta também uma definição do que entende por lapsos de língua, à luz da teoria freudiana:
As características dos lapsos de língua formulados por Freud que a meu ver mais importam para a compreensão da singularidade, seja ou não por identificação entre eles, são as seguintes: (1) o necessário carácter de incorreção do lapso, inexistente na singularidade; (2) a origem psíquica inconsciente, comum a ambos; e (3) a sua (in)visibilidade, isto é, os modos distintos como uma e outra formação linguística (não) se dão a ver.85
As singularidades mostram a importância da subjetividade na tradução. E se aceitarmos essa subjetividade, então temos de rever, segundo Frota (2000: 228) a posição de Pym ao excluir os erros binários (mistakes) do ensino da tradução, isto é, aqueles que constituem “erros linguísticos”.
Sob o véu da “distração” ou da “incompetência linguística”, o que Pym julga como “externo à tradução”, a rigor refere-se, do meu ponto de vista, à dimensão subjetiva.
Neste contexto vários conceitos têm de ser revistos à luz da pós-colonialidade e da transculturalidade, como por exemplo, os de fidelidade, transparência, equivalência, transferência, alteridade, diferença.
É necessário recriar a polifonia da pós-colonialidade na língua da tradução. O tradutor tem de ter competências nas línguas-culturas em causa. Mas o que é que isso quer dizer. Quais são as línguas-culturas?
A dificuldade esbarra com as obras dos escritores pós-coloniais quando se confronta com a delimitação dessas línguas-culturas e da transculturação da língua e das obras. É daí que ocorre a explosão da língua dos autores que fazem parte desse contexto específico. Desse combinar que não é só a construção de uma alteridade, um albergar ou um abrir de fronteiras, mas pressupõe uma ação do sujeito que recebe o outro, uma
85
79 transformação, e poderíamos acrescentar, como acontece, em graus certamente diferentes, com praticamente todos os textos identificados como textos literários.
As obras pós-coloniais ilustram a transculturação da escrita, com uma multiplicidade de formas híbridas que dialogam numa mesma obra e em obras diferentes, de forma a mostrar o diálogo transcultural que se transforma numa viagem pela escrita.
Zabus (1991: 3) defende que a língua passa por processos de criatividade e que os autores têm uma forte consciência linguística e intervêm diretamente na língua do antigo colonizador, inserindo nela as diferenças e os conceitos africanos, de forma a transformá-la tanto do ponto de vista estático como ideológico:
The writer’s attemps at textualizing linguistic differenciation and at conveying african concepts, thought-patterns, and linguistic feature though the ex- colonizer’s language.
É através da escrita que se constrói a hibridização, o diálogo que passa pela interpenetração e transformação das culturas entre elas, e assim emerge a importância da linguística na tradução e a necessidade de pensar, de um ponto de vista pedagógico, o lugar, quanto a nós fulcral, que deve ter a linguística nas disciplinas de tradução.
A transculturação da escrita, movimento importante das narrativas pós-coloniais, não é todavia específico dessas narrativas. Esse movimento encontra -se inscrito na escrita como processo cultural criativo, que se pode resumir precisamente à “interanimação das culturas”, que encontramos em Steiner (1975), através da criatividade linguística, e que a tradução ilustra, através de algumas metáforas, mas também através de alguns paradigmas tradutológicos.
Transformar as formas existentes para criar novas formas parece ser o fundamento da transculturalidade, mas também de toda a reflexão que gira em torno do conceito. Dir-se-ia, do mesmo modo, que a língua literária se constrói, ganha a sua própria essência, na transformação de modelos existentes e na criação de novos modelos, baseados em novos paradigmas. Assim, o projeto de tradução ganha novas dimensões.
Como decorre da reflexão anterior, situamo-nos num paradigma de estrangeirização, alteridade, hibridização e transculturalidade. Vemos a tradução como resultante de uma polifonia que, generalizando, parte de Schleiermacher e se dissemina pelos séculos XX e XXI , através, entre outras, da dicotomia da tradução domesticante e
80
da tradução estrangeirante em Venuti (1995) e da tradução etnocêntrica e tradução ética referidas em Berman (1985).
A prática da tradução, ou a experiência da tradução, segundo Berman (1985), deveria ser um instrumento de desestabilização no seio da língua-alvo, o texto de origem oferecendo uma espécie de pretexto para a promoção da heterogeneidade linguística e cultural no campo literário de acolhimento, mas também no campo linguístico, na medida em que existe uma interferência na própria língua.
A heterogeneidade linguística e cultural da língua de origem penetra pacificamente (e penetrou ao longo de todo o seu percurso construtor) “traduzindo” na língua-alvo o que de diferente (ou de novo) surge no discurso que funciona como objeto do diálogo entre as línguas – mistura-se na língua de acolhimento, rompe as amarras do sujeito e da nação, abrindo-se a novos horizontes e construindo-se, criando-se, nesse diálogo incessante.
Tanto Pym como Venuti defendem tal como Berman a ética da tradução ou a ética do tradutor. No entanto, situam-se em campos que podem parecer distintos. Pym privilegia a tradução enquanto objeto económico e profissional e Venuti defende a ética do tradutor através dos conceitos de visibilidade/invisibilidade do tradutor. A tradução é vista como um ato de comunicação, acrescentando a importância da interdisciplinaridade deste campo de investigação. Para além dos campos interdisciplinares tradicionais – linguística, cultura, literatura, sociolinguística – anotamos a importância de campos como a etnologia e a etnografia pela importância destes saberes sobre o ser humano e na relação deste com o meio ambiente.
A tradução precisa de conhecer em profundidade as diferenças entre os povos e as culturas, de forma a poder integrá-las e com elas interagir. Deste modo, o olhar do etnógrafo pode permitir aprofundar o conhecimento do outro, ser mais tolerante em relação às diferenças, ao racismo, à discriminação, entendendo o outro posicionado no seu próprio contexto.
Traduzir textos pós-coloniais pressupõe ser capaz de criar, de inovar, de ter a capacidade de “brincar”, ou de “brincriar” como diria Mia Couto, com a língua, de ler, de reconstruir o processo artístico do autor, mas sobretudo ser capaz de traduzir as novas formas de olhar e dizer o mundo, os novos valores que se conjugaram com os valores já existentes, criando outras realidades, captadas num tempo e num espaço outro pelas transformações que o autor incutiu conscientemente na língua.
81 A audácia linguística, o trabalho sobre a língua, o desenvolvimento das faculdades criativas constituem apetrechos, estratégias, novas poeticidades, novas éticas.
A língua resulta de novas fusões ou relações entre palavras com as amálgamas ou novas organizações - desestruturando as ordens instituídas, abrindo as fronteiras da língua, estilhaçando os seus contornos e inserindo nela outros olhares, outros pedaços de cultura, oriundos de fora das margens da língua. É já uma língua de tradução de línguas e de mundos, cruzamento de palavras e de discursos, de significados e de sentidos. É um jogo entre a escrita e o oral, entre a língua erudita e a língua do povo, entre a cultura do poder e a cultura do povo, entre o poder e as minorias.
No entanto, a escrita afirma essas minorias, dá-lhes voz e poder. Uma língua que resulta de uma polifonia variada e rica, que se insurge contra a língua colonizadora e o poder totalitário. O diálogo entre a língua e a sociedade, língua e cultura, assenta num desejo de circunscrever a identidade do povo da área colonizada. É a procura de uma língua identitária, de uma língua livre dos nós cegos do poder.
A liberdade poderá ser visível na multiplicidade de processos criativos usados pelos autores para criar novos lexemas que coabitam com os lexemas próprios da língua. Berman falaria aqui de “étrangeté”.
No entanto, traduzir um texto colonial é também ter a capacidade de reconhecer as fronteiras entre os vários diálogos que se estabeleceram entre o PE, o PM e a criatividade. E, para além disso, ter a ingeniodade de transpor as barreiras das línguas para aí encontrar a passagem dos outros, num contacto incessante de línguas, de povos e de culturas. Conversam, palabram, narram estórias de seduções na construção de uma comunidade de liberdade e oralizações, encontrando respostas mágicas e poéticas de um quotidiano arrebatado por guerras intermináveis e que desgastam a capacidade de observar as realidades.
Neste mosaico estranho de encadeamento das diferenças na tentativa de construção de uma identidade, nasce o hibridismo da cultura moçambicana e todos os mistérios que daí decorrem. Se observarmos a língua moçambicana que vem deste legado de miscigenação linguística, ainda é hoje cedo, porque não existem ainda os materiais e a investigação necessários que nos permitam atestar e garantir a pertença linguística de determinado lexema ou expressão, para podermos com toda a certeza fazer a distinção entre a criatividade e aquilo que é inerente, que pertence ao PM ou
82
constitui um empréstimo de outras línguas de Moçambique. Está em curso a elaboração de materiais do PM e será necessário elaborar mais corpora do PM e esses materiais permitir-nos-ão rever o conceito de criatividade e a língua de MC à luz desses novos dados.86