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II 1 Hercule est ses héritiers dans les Punica

VI. 6. Bouclier du Punique :

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios,

nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil:

- Em que espelho ficou perdida a minha face? Cecília Meireles

“Em que espelho ficou perdida a minha face?” A partir desse verso magistral, Cecília Meireles (1983) abraça a temática da fugacidade e da transitoriedade do ser humano em busca da vitalidade ou juventude perdida e capturada pela metáfora do espelho em algum momento do curso da vida. No plano literário de domínio poético, o retrato, enquanto registro do milagre fugidio do viver, torna-se objeto capaz de exercer o transportar para outra dimensão temporal sabidamente bela e gratificante, enquanto o espelho revela o agora, vivido dramaticamente. Os simbolismos do retrato e do espelho refletem dois universos que navegam distanciados, ou seja, a vitalidade ou a juventude, posta na inércia do retrato congelado sob a condenação da impossibilidade de ser vivida novamente, e o dinamismo do aqui e agora indesejado e implacável estampado no espelho.

A face buscada pela grande poetisa reporta-se a um tempo passado e perfumado por uma juventude abandonada. A autora vem, então, a perceber-se órfã de uma vitalidade finada, ao tentar reconstituir sua beleza de outrora – de forma velada -, mediante a negação de suas características expostas pelo espelho: “Eu não tinha este rosto de hoje/ assim calmo, assim triste, assim magro...”. Desse modo, a beleza e a juventude ficaram perdidas em algum espelho capturado pelo vendaval dos tempos e alimentado pela força da memória. Logo, enquanto o retrato tenta manter a vitalidade dissipada na fluidez da noite dos tempos, em meio a um estado de presença-ausência, o espelho proclama o momento presente da face transfigurada por mudanças imperceptíveis e atrozes que marcam o acenar da fatalidade de um progressivo e irreversível envelhecimento.

Convém sublinhar que a passagem da juventude para a velhice deu-se silenciosamente, de forma a causar perplexidade e indignação. Diz a poetisa em tom confessional: “eu não dei por esta mudança”. Torna-se evidente o choque da escritora ao deparar-se com a realidade imprevista e espantosa: “Eu não tinha o rosto assim... eu não dei conta desta mudança.”. O choque, demarcado por mudanças físicas e psicológicas, leva a autora a interrogar a si mesma onde foi que ela se perdeu? Ou seja, a poetisa cria o desfecho poético mediante o magnífico verso: “Em que espelho ficou perdida a minha face?” Eis então, a situação de quem, outrora, encontrou-se em harmonia com o corpo e constata, de repente, os efeitos do poder corrosivo da espiral do tempo - em si mesmo(a) – a silenciar sorrisos e a apagar sonhos e esperanças.

Cecília Meireles desnuda, assim, a fragilidade da condição humana, ancorada na incapacidade de manter-se jovem e à mercê das marcas do envelhecimento, sem condições de resistir à fatalidade das determinações do tempo. Desse modo, cabe ao homem somente abraçar a precariedade da finitude humana em sua longa busca pela “fonte da juventude”. Nessas circunstâncias, a partir da visão do rosto refletido no espelho, a poetisa toma consciência de que sua vida mudou radicalmente, mediante “um coração que nem se mostra”. O fato é que ela se tornou outra, em face da incorporação de uma impotência ante o envelhecimento e o retorno efetivo à juventude, vislumbrada nas dobras do tempo. Nesses termos, apenas o retrato interior amarelado pelo tempo tenta alimentar o desejo humano de eternidade ou, pelo menos, o desejo de driblar as marcas do tempo por um momento a mais, na recomposição de acordes imprecisos de uma melodia que se desfez como fumaça ao cair da tarde...

De fato, os rituais de passagem referentes à velhice para os grupos urbanos inseridos na lógica capitalista não são bem demarcados: como definir quem deixou de ser jovem produtivo e desejável e tornou-se velho improdutivo e descartável? É importante considerar que a conquista da longevidade vem estabelecendo o imperativo de uma poderosa indústria de rejuvenescimento, movida por produtos de beleza, alimentação natural, academias de ginástica, além de uma vasta diversidade de tratamentos clínicos e cirúrgicos. Eis então, a “indústria da beleza”, posta a serviço da busca pelo corpo perfeito, pelo cabelo mais belo, pela pele mais sedutora, e também pela boca mais atraente, que valorize a harmonia do sorriso com a face. Convém ressaltar que a indústria da beleza centra-se na lógica do capital, expressa na ditadura da descartabilidade de objetos que perdem sua utilidade em curto prazo, no consumismo do novo carro, novo computador, novo aparelho celular, novo corpo, novo sorriso... Nos circuitos do marketing – que chega a espaços que pareciam impenetráveis - vende-se a mercadoria do “corpo perfeito”, juntamente com o sonho e a frustração da busca pela “eterna juventude” (RAMOS, 2008).

Essa é a sociedade contemporânea “líquido-moderna”, estudada por Bauman (2007)25, voltada para o individualismo desmedido, o culto das aparências e o consumismo compulsivo a apropriar-se de mentes e corações através da geração de incertezas e insatisfações com a própria imagem. Dessa forma, o indivíduo é condicionado a adotar a busca pela juventude e vitalidade como ideal de felicidade; as “personas” na certeza do capital são impelidas à aquisição do corpo perfeito, mercadoria com infindáveis desdobramentos, na busca desenfreada de uma idealização do capital a exigir sempre mais remodelações, infinitamente aprisionando homens e mulheres nas teias da mercantilização da beleza. Na verdade, essa corrida sem fim por juventude e beleza a qualquer custo esconde o medo dos homens contemporâneos de sair do padrão, de ficar fora, de não tomar parte no jogo de posições sociais legitimadas pela lógica dominante. Esconde, assim, o medo da morte simbólica deflagrada pela velhice na civilização do capital. No fundo, revela o medo original da finitude que marca a trajetória humana com diferentes encarnações históricas.

A vitalidade intrinsecamente associada à juventude, passível de ser prolongada via avanços tecnológicos, mas, de fato, ainda fugidia e efêmera - aludida pelo gênio poético de Cecília Meireles -, apresenta-se em forma de um corpo vitimado por mudanças radicais

25 A crítica de Bauman ao moderrnismo contemporâneo, por ele denominado “Modernidade Líquida” é

amplamente desenvolvida no capítulo terceiro deste trabalho, item 3.2 Juventudes na Civilização do Capital em tempos de Modernidade Líquida.

provocadas pelo processo de envelhecimento e consequente morte. No atual contexto, torna- se oportuno perceber que o corpo inserido na “Modernidade Líquida”, revela também a liquidez dos tempos contemporâneos. É um corpo esculpido pela ditadura dos padrões de beleza, ancorada na lógica da “imagem como cartão de visitas”. Nesse universo imagético em que a aparência é determinante, legitima-se também a lógica “do sorriso como cartão de visitas”. Convém, assim, assinalar que a lógica contemporânea de estetização da vida encontra-se fundamentada no imaginário da homogeneização do mundo, imposto pela civilização do capital a bordo dos avanços do marketing dominante. Nesse sentido, sublinha Featherstone (1997, p. 98), “a cultura de consumo enalteceu uma estetização da vida cotidiana através do desenvolvimento da propaganda, do imaginário e da publicidade que saturam as estruturas dos ambientes em que vivemos”.

No âmbito do sorriso como construto social no tempo e espaço, à mercê da estetização da vida cotidiana, torna-se possível observar que suas manifestações, como também pinturas corporais, tatuagens, piercings e penteados, podem revelar sentidos e significados de trajetórias de vida sob o ponto de vista dos próprios jovens dentro de seus grupos ou tribos e sob o ponto de vista da sociedade. Dessa forma, verifica-se que as incursões das juventudes pelos diferentes contextos socioculturais podem ocorrer sob a mediação das expressões estéticas do corpo. Eis assim o próprio corpo a elaborar marcas expressivas de prováveis processos identitários. Nessa perspectiva, a forma como as juventudes se reconhecem e a maneira como percebem as configurações sociais hegemônicas, podem interferir tanto no relacionamento interno das tribos juvenis entre os próprios pares, como também na relação com outros atores sociais (SETTON, 2005).

Ainda Incidindo o foco investigativo no âmbito do sorriso, o psicólogo português Freitas-Magalhães (2006), assinala que o sorriso, enquanto fenômeno biopsicossociológico, é uma manifestação exterior de determinada emoção em resposta a um dado estímulo. Nesse sentido, o fenômeno do sorriso deve ser analisado sob o ponto de vista de quem o produz, de quem o observa e da configuração social na qual este sorriso está inserido. Logo, na ótica do psicólogo português, o sorriso pode ser considerado como um indicador de comportamentos sociais não verbais na esfera da linguagem corporal. Fica expressa assim a importância dos significados culturais para o entendimento do fenômeno do sorriso á luz da dimensão social. A partir deste princípio, o pesquisador português entende que o sorriso é experimentado e

percebido de diferentes formas, conforme a faixa etária e outras variáveis como gênero, grupo étnico e cultura.

Logo, na perspectiva do fenômeno do sorriso, pesquisado pelo Laboratório de Expressão da Emoção da Universidade Fernando Pessoa (UFP), sob a regência de Freitas- Magalhães, chega-se ao entendimento de que a faixa etária configura-se como um fator moderador significativo do sorriso. Nesse sentido, o FEELab lança a teoria apoiada em exaustiva pesquisa de que a frequência da capacidade de sorrir diminui com a idade. Consequentemente, as crianças sorriem mais que os jovens, que, por sua vez, sorriem mais que os adultos, que sorriem mais que os idosos. Desse modo, o pesquisador sugere que as alterações biológicas decorrentes da idade moderam o exercício do sorriso, que passa de uma exibição afetiva não modelada e não seletiva, no caso das crianças, para uma exibição racional, modelada e seletiva no caso dos jovens, adultos e idosos.

Torna-se necessário relativizar o olhar de Freitas-Magalhães, ainda preso a uma certa visão evolutivo-biológica que configura juventude de modo genérico, priorizando a faixa etária, como no senso comum, que associa a juventude à ideia de transição entre a infância e a vida adulta. Nesse contexto, é imperioso registrar que a maioria dos autores contemporâneos concebe a categoria juventude de forma plural, para além dos critérios fixos que estabelecem o ser jovem como uma fase definida da vida, com início e fim pre- estabelecidos. Desse modo, a nova concepção de juventude no plural vem contemplar a heterogeneidade das condições juvenis de classe social, estilo de vida, relações de gênero e outras características (NOVAES, 1998). Deve-se, portanto, investigar as diversas ações sociais carregadas de sentidos que permeiam as juventudes a serem pesquisadas, observando- se a diversidade dos contextos socio-históricos e culturais em que estão inseridas.

A linha analítica aqui assumida destaca a idade, como elemento a ser considerado, mas insuficiente para delimitar a condição juvenil. Logo, o “ser jovem” passa por aspectos- chave que se imbricam nos circuitos da realidade contemporânea: lugar social, especificamente a dimensão de classe; questão de gênero; dimensão étnica; nível de escolaridade; local de moradia; acesso a direitos humanos básicos, entre outros elementos. Portanto, Carvalho (2009) considera que, em cada momento histórico, gestam-se diferentes juventudes, sendo decisivo constituir uma amálgama entre a questão etária e as dimensões sociopolítico-culturais, delineando perfis peculiares e específicos. Contudo, vale ainda lembrar que a linha analítica evolutiva de cunho biológico que trata a juventude pela

priorização do critério da faixa etária, referido por Freitas-Magalhães e defendido por Ricardo Cunha Cavalcanti (1988) e Castelar e Freitas (1989), muito influenciou e ainda influencia em menor intensidade tanto a saúde pública como a sociologia funcionalista brasileira.

Retomando as pesquisas de Freitas-Magalhães sobre o sorriso, agora na dimensão de gênero e sexualidade, esse autor assinala que os homens tendem a sorrir menos que as mulheres. Nesse particular, o psicólogo sugere uma provável explicação para a ocorrência dessa tendência, ou seja, o menor poder social feminino poderia levar as mulheres a sorrir como estratégia de agradar os mais poderosos e, desse modo, marcar sua presença na vida social. Porém Stuart Hall (2005) rejeita a explicação de que as diferenças não verbais de gênero ocorram, em maior amplitude, devido ao poder social, uma vez que as mulheres costumam sorrir muito quando interagem com outras mulheres, igualmente desprovidas de poder, não havendo razão para a estratégia de uma mulher agradar ou marcar presença com uma igual.

Na esfera da etnia e da cultura, Freitas-Magalhães (2006) defende o forte papel que a cultura exerce na expressão do sorriso. Partindo do consenso de que o sorriso é um comportamento humano universal, sua manifestação sofre influências de condicionantes socioculturais. Desse modo, o psicólogo relata a existência de meios sociais nos quais as pessoas aprendem a ocultar ou exaltar as emoções, apresentando sorrisos de circunstância. Torna-se possível entender então, que existam normas sociais que condicionam, de certa forma, a manifestação do sorriso pelo mundo afora em determinadas culturas. Neste sentido, o citado autor entende que o estudo do sorriso parece sinalizar um horizonte muito vasto para a investigação das dinâmicas sociais mediante pesquisas científicas em diversas áreas do conhecimento. Nesse aspecto, cita o exemplo emblemático da cultura japonesa, onde as crianças aprendem, desde cedo, a expressar o sorriso de boa educação, independentemente das verdadeiras emoções.

Adentrando o horizonte do sorriso, a psicóloga brasileira Emma Otta (1994) destaca a importância dos significados culturais para o entendimento do fenômeno do sorriso à luz da dimensão social. Deste modo, ela assinala que, de maneira geral, as pessoas sorridentes são avaliadas mais favoravelmente pela sociedade do que as pessoas não sorridentes. Seguindo o raciocínio de Otta, a comunicação não verbal, e em especial o sorriso, revela a afetividade das relações sociais e influi significativamente na determinação do curso das sociabilidades. Nesse aspecto, a psicóloga relata pesquisas realizadas em lanchonetes nos

Estados Unidos, sinalizam que garçonetes sorridentes recebem maiores gratificações em dinheiro dos fregueses do que garçonetes não sorridentes. Do ponto de vista de Otta, esse referencial parece delinear uma tendência que pode caracterizar o sorriso como fonte poderosa de recompensas interpessoais.

Mergulhando na realidade das juventudes das periferias da vida, defronto-me com a multiplicidade dos sorrisos juvenis a me desafiar qual esfinge de Édipo: “Decifra-me ou te devoro!”

Vale considerar que os sorrisos das juventudes das periferias da vida assumem uma pluralidade de variáveis. Nesse aspecto, impõe-se a questão: o que revelam e o que escondem os sorrisos dos jovens pobres? Esses sorrisos podem revelar satisfação, bem-estar, aceitação e acolhida do outro, como também provocação, convite, desafio, sedução, afeto, ironia e submissão.

Os sorrisos dos jovens pobres, em suas lutas diárias pela sobrevivência e pelo reconhecimento social, podem esconder trajetórias de vida precarizadas, permeadas e silenciadas por desigualdades sociais, interdições, privações, discriminações, segregações, invisibilidades e ausências, sujeitas às violências e vulnerabilidades das periferias urbanas apartadas do todo social.

Nessa linha argumentativa do sorriso juvenil como metáfora da vida, observa-se que a dimensão estética do sorriso circunscreve-se como lugar privilegiado para pensar as singularidades dos processos identitários juvenis contemporâneos e as subjetividades da alma juvenil. Logo, torna-se oportuno sublinhar que a sociedade contemporânea “líquido-moderna” transforma o sorriso em mercadoria padronizada (sorriso com dentes brancos e alinhados dos artistas da Rede Globo de Televisão) de difícil acesso para a maioria dos brasileiros, especialmente para as juventudes empobrecidas.